- Calma, Sofia! – Thomas segurava minhas mãos enquanto eu respirava fundo, recuperando o fôlego. – Eu não estou com pressa. Agora senta aqui e me explica o que aconteceu, ok?
“Como ele pode ser sempre tão calmo?”, eu pensei. Sentei no sofá, ao lado dele, e tentei me concentrar o bastante para não deitar em seu colo e dormir. Estava com sono, molenga… Não deveria ter bebido.
- Tom, ahn… Acho que não é o melhor momento. Estou consciente, sabe? – ele sorria de um jeito enigmático, não sabia se tirava sarro de mim ou se apenas gostava de ouvir minha voz arrastada por conta das cervejas que havia tomado mais cedo naquela mesma noite… – Mas acho que não quero conversar com você agora. Sabe como é, a bebida entra e a verdade sai – dei uma risada forçada, tentando quebrar o clima sério da conversa.
- Sofia, você me ligou bêbada e disse que precisava falar comigo. Você pode até estar bêbada, mas não é de mentir. – ele fechou os olhos enquanto baixava sua cabeça. Aproximou-se um pouco mais de mim e me encarou. – O que está acontecendo?
Abri os olhos e senti meu quarto girar. Ressaca. “Nunca mais coloco uma gota de álcool na boca”, prometi sileciosamente à mim mesma, pela centésima vez, enquanto evitava movimentos bruscos. Minha cabeça doía e eu tentava colocar as lembranças em ordem à medida em que elas me apareciam.
- Mas, Tom, você não entendeu o que eu quis dizer… – baixei a cabeça e comecei a fitar o pé da mesinha de centro à nossa frente. – Eu quis dizer que…
- Você acha que é injusto admitir o que sente por esse tal amigo para que ele possa escolher outra pessoa além de você – ele me interrompeu. Eu olhei em seus olhos e assenti com a cabeça, sem dizer nada. Podia sentir o coração disparar. O silêncio pairava no ar enquanto nós apenas nos olhávamos.
Finalmente levantei da cama. Joguei um pouco d’água no rosto e me olhei no espelho: meus olhos estavam pretos e borrados, meu batom estava borrado também. Eu e minha mania de não tirar a maquiagem antes de dormir… Passei os dedos pelos meus lábios e fiquei me perguntando o que havia acontecido na noite anterior.
- Me solta, Fernando! Não quero ir pra lugar nenhum com você, sai! – eu gritava enquanto tentava me desvencilhar, em vão.
- Agora você quer fugir, princesa? Provoca e depois vai embora? Eu quero muito mais do que uns amassos, e você vai me dar – ele passou a mão no meu corpo inteiro enquanto eu batia nele, tentando fazer com que ele me largasse.
Fernando… “O que teria acontecido se o Thomas não tivesse chegado ali?” Balancei a cabeça negativamente, era melhor não pensar nisso agora. Fui até a cozinha preparar um café. Sorri com o recado em cima do pote: “Boa ressaca. Espero que se lembre da noite de ontem, Sô”. Era do Thomas, só ele me chamava de Sô.
- Thomas, ahn… – desviei o olhar do dele, e ajeitei os cabelos atrás da orelha antes de terminar a frase – Eu estou gostando de você, sabe? Sei que não podia e nem deveria, mas aconteceu. E eu ahn… Precisava te falar isso. – estava com medo de olhar pra ele. Ele franziu as sobrancelhas, com um certo pesar e então desviou o olhar do meu rosto. Olhei pra ele e então continuei – Nós sempre brincamos muito, mas eu preciso saber onde começa a brincadeira e exatamente onde ela termina.
- Seja mais específica – ele voltou a me olhar e eu pude sentir o estômago embrulhar de nervoso. “Ele me intimida demais”, pensei comigo mesma.
Não suporto café. É minha primeira ressaca e eu espero que uma xícara de café seja o bastante para curá-la. Tomei um gole do café, ainda quente, e pensei no que havia dito ao Tom na noite anterior. Mordi os lábios e respirei fundo… “É melhor que o evite um pouco. Não tenho coragem de olhar pra ele depois de tudo”.
- Você está certo. É que, sei lá… Tenho medo de que você se afaste de mim por causa disso. – estava mais confortável e menos tonta. Sorri e encostei a cabeça nas costas do sofá – Acho que estou melhor!
- Viu, Sô? Curei a sua bebedeira! – ele deu um sorriso sem jeito, mas logo retomou a aparência séria característica. – Sô, eu não vou me afastar de você, tá? A gente vai dar um jeito nisso, relaxa. – Fechei os olhos para inibir minha vontade de chorar. Isso só podia significar que ele nunca iria me deixar ultrapassar a barreira da amizade. “Ótimo”, pensei, ironizando comigo mesma.
O telefone tocou e eu xinguei em pensamento o infeliz que fez com que minha cabeça quase explodisse às 16h00 daquele domingo. Olhei o celular antes de atender… Era o Thomas. Decidi não atender, ainda estava com vergonha da noite anterior. Subi as escadas novamente e fui me deitar.
- Mas e você? O que você sente por mim, Thomas? – juntei toda minha coragem e perguntei. Sequer acreditava nas minhas palavras, eu nunca deveria ter perguntado isso.
- Eu não sei, Sô. Não sei quando é e quando não é… Mas não é hora de falarmos nisso, ok? Você precisa descansar agora, vou te levar pra cama. – ele me pegou no colo e me deitou na cama. Dormi rapidamente enquanto ele me olhava sentado na poltrona em frente à minha cama.
“Ela ainda deve estar dormindo”, Thomas pensou enquanto ouviu o telefone tocar incansavelmente do outro lado da linha. Decidiu deixar um recado. “Sofia, espero que esteja melhor. Ia passar aí pra ver se estava tudo bem, talvez faça isso mais tarde, ok? E, bom, não sei o que você lembra de ontem… Mas queria que soubesse que eu também.” Thomas sorriu e respirou fundo. Finalmente ele fez o que tinha que fazer. Jogou-se no sofá e ficou olhando pro teto, apenas imaginando como as coisas seriam dali pra frente.