Era mais um dia nublado, algo comum para a cidade de São Paulo. Andei durante algumas horas e não havia passado mais que quatro quarteirões. Cabeça baixa, raramente levantava o olhar para o rosto das pessoas que passavam apressadas ao meu lado. Ninguém me conhecia e ninguém fazia questão de me conhecer. O celular tocava incansavelmente no bolso do meu casaco, mas eu não queria atender. Sequer me importava quem estaria ligando naquele momento. Tinha deixado a porta do nosso apartamento aberta, desci os sete andares do prédio correndo tão rápido que me esqueci do cuidado para não cair. Estava farta dos meus pais sempre discutindo por motivos banais, da minha irmã sempre pedindo para que eu fosse como ela, da ausência do meu irmão e de como isso me corroía por dentro. Eu não queria mais fazer parte daquele ambiente, daquela família, daquela vida.
Enquanto caminhava pelas ruas da capital, os berros da minha mãe ecoavam pela minha mente… Eu acabava sempre sendo o último alvo das discussões familiares. A maneira como eu destoava dos outros incomodava e meus pais sempre me empurravam um para o outro nas críticas sobre meu comportamento: “essa sua filha não tem jeito mesmo!”, “tinha que ser a sua filha”, coisas assim. Chorar? Não, eu não chorava mais. Parei de chorar com 14 anos, minhas lágrimas nunca valeram nada pra ninguém. Muito menos para os meus pais.
Fugir de casa não era mais opção, era parte da minha vida. Da primeira vez passei três dias longe, da segunda vez fiquei uma semana… Meu plano agora era fugir pra sempre. Dinheiro não era problema, sempre carregava um pouco comigo quando saía de casa. Ter nascido em berço de ouro não era algo tão ruim assim, no fim das contas. Existia um lugar onde sempre ia quando essas coisas aconteciam, uma casa abandonada num bairro distante ao meu.
Quando eu era mais nova, minha mãe contou sobre uma família que havia sido dizimada por bandidos naquele bairro por onde passávamos. Ela apontou a casa e contou que ali vivia uma família que poderia muito bem ser a nossa: mãe, pai, filhos… Disse que a menina saltou na frente do irmão para salvá-lo da bala e então morreram os dois na mesma hora, com a mesma bala. Eu nunca me esqueci disso. A casa permanecia abandonada e eu ficava lá quando fugia de casa.
O jardim quase cobria a casa inteira, a faixa que mantinha o local interditado ficava escondida no meio das folhas e o quarto da menina estava trancado. Era o lugar que mais queria conhecer, mas não havia conseguido abrir das vezes anteriores em que me mantive escondida ali. Olhei pra trás, certificando-me de que não tinha sido seguida e entrei pela porta dos fundos, olhando com cuidado para o chão com medo de pisar em algum rato. Não era fácil estar ali, mas era mais fácil do que estar no conforto da minha casa.
Sempre me interessou muito a vida dessa família. Queria saber como eram, o que faziam, porque aquilo havia acontecido… A polícia nunca achou os culpados desse crime e fazia mais de quinze anos do ocorrido. Coloquei meu casaco sobre a mesa da cozinha e liguei alguma música com o celular. Peguei a lanterna que havia deixado no armário e continuei andando pela casa. Eu tinha conseguido limpar parte dos móveis, comprei lanternas e tudo mais. Aquela casa tinha um pouco de mim agora.
O quarto do irmão me deixava nostálgica, porque fazia com que lembrasse do meu irmão. Ele era mais velho que eu e eu sentia tanto a falta dele… Gabriel foi fazer faculdade em Santa Catarina e só voltava pra casa nas férias. Antigamente éramos eu e ele os alvos dos nossos pais… Os culpados de tudo eram sempre Luana e Gabriel. Mas ele teve de ir e eu fiquei sozinha. Balancei a cabeça para espantar os pensamentos ruins e dei um sorriso ao olhar o quarto decorado com aviões por todos os lados. Um folheto estava caído no chão: “Como se tornar um piloto da Aeronáutica”. Os sonhos daquele garoto estavam todos ali, naquele quarto.
A música parou e eu achei estranho, voltei à cozinha para olhar o celular e a música estava pausada. Senti um frio no estômago e fiquei toda arrepiada. Olhei ao redor e não vi nada. Peguei meu casaco de volta e caminhava para os quartos novamente, quando ouvi um barulho atrás de mim. Não consegui virar pra saber de onde vinha o barulho, uma mão grande e suja tapou-me a boca e me arrastou até a cozinha novamente. Dei-lhe uma boa mordida e bati com o cotovelo em sua barriga com toda a força que consegui. Foi suficiente para ele me soltar e eu conseguir correr até o quarto da moça, o mais próximo da cozinha. Trancado, como eu imaginei. Xinguei alto e tentei abrir a porta novamente, em vão. Aquele homem conseguiu me alcançar e me empurrou contra a porta, prendendo meus braços e me deixando imóvel. Eu queria gritar, mas não conseguia. O medo não me deixava abrir a boca.
O celular tocou novamente e ele me mostrou uma faca, mandando que eu atendesse e soltando uma das minhas mãos para isso. Peguei o celular no meu casaco e não reconheci o número, mas atendi mesmo assim. Perguntavam de uma Giovanna e respondi que era o número errado. A moça que ligou disse que não era o número errado e que gostaria de falar com a Giovanna, ela insistia. O homem ficara impaciente com aquela conversa e então jogou meu celular longe, achando que eu estava brincando com ele. Eu disse que não e senti as lágrimas caindo pelo meu rosto. Depois de seis anos, achei que não tivesse mais lágrimas. Ele ficou enfurecido e me mostrou a faca novamente, encostou-a na minha barriga. Eu coloquei a mão livre na dele e pude senti-la tremer. Pedi que ele não fizesse aquilo, mas ele bateu na porta com mais força… A porta abriu.
Quando acordei, demorou um pouco pra entender tudo o que havia ocorrido. O corpo daquele homem estava sobre o meu e minha roupa estava cheia de sangue. Empurrei-o para o lado e vi a faca dele em seu estômago. Olhei para a minha mão, tentando lembrar o que tinha feito. Levantei e limpei a mão no meu casaco enquanto andava até o criado-mudo. Peguei o caderno que estava em cima e corri até meu celular quando, de repente, uma imagem me chamou atenção: uma foto da família estava na cabeceira da cama da menina. Todos eles sorriam, até o pai deles! Justo ele, que aparentava ser todo sério. Em cima da foto tinha o nome da menina e eu tremi quando li, em letras garrafais, Giovanna.
Giovanna era feliz. Tinha, quando morreu, a mesma idade que eu tinha no dia em que recebi aquele telefonema estranho: vinte anos. Namorava o garoto por quem sempre tinha sido apaixonada, era melhor amiga do seu irmão e tinha uma relação ótima com o pai e com a mãe. Leio e releio seu diário e tento entender quais os problemas que aquela garota tinha. Mesmo sem entender isso, acredito piamente numa coisa: ela me ajudou a crescer. Giovanna salvou a minha vida! Depois disso, nunca mais fugi de casa novamente.