Peteca.

24dez09

Outro dia, eu estava papeando pelo msn com um amigo (não é amigo imaginário, juro. Nunca uso esse recurso! Tá, já usei, mas dessa vez não é.) Ele, que é determinado, dinâmico e sabe o que quer – ai, que inveja! -, estava desanimado e sem rumo. Mas eis que, durante o desabafo, ele tecla a frase: “Não posso deixar a peteca cair”. Na mesma hora, lembrei do meu pai, que, além de jogar futebol (que é superlegal, mas não tem nada a ver com o assunto da coluna), é fã de peteca. Já o vi várias vezes nesse jogo: o cara joga a peteca de um lado, o outro rebate etc. MAS tem hora que a peteca cai no chão (ainda bem, senão meu pai ficaria na quadra o dia todo). E, aí, o que os jogadores fazem? Pegam a peteca, ué. E começam de novo.
Foi por isso que respondi ao meu amigo que ele, no mínimo, não estava sabendo as regras do jogo. Como assim, não pode deixar a peteca cair? Ela cai mesmo. E a gente pega. E adivinha? Cai de novo, pegamos de novo e… enfim. O ponto é: não dá pra manter o ritmo o tempo inteiro. Nem na quadra, nem em lugar nenhum, por mais que a gente se esforce. E já que não dá (por que, Lili? Porque somos pessoas e não máquinas, erramos, aprendemos, esquecemos o que aprendemos, mudamos de idéia, temos TPM, enfim: NÃO DÁ!), para que nos cobrarmos tanto quando vemos que, bem, não estamos nos saindo tão bem quanto pensávamos?
Quando eu me preparei para o vestibular de jornalismo, estudava umas 6 horas por dia, além das aulas. Mas tinha vezes em que, putz, eu me perguntava se queria esse curso mesmo, ficava cheia de estudar e só queria chegar do colégio e dormir. Não era o ideal, mas fazer o quê? Bom, a primeira coisa que eu fazia, na verdade, era me recriminar e me sentir um lixo. Mas, depois, percebia que eu não podia (e não precisava!) dar 100% de mim o tempo todo. Que, às vezes, uns 45%, digamos, dão para o gasto – e, mesmo que não desse, desculpe mas era o que eu podia fazer aquele dia. Mesmo quando nos empenhamos em algo, o mundo continua girando, com todas as coisas boas e confusões que isso traz. E, de vez em quando, ficamos tristes, desanimados. Quando eu admitia isso, decidia descansar, ver TV e, no outro dia, entrar no ritmo novamente. Pegar a peteca. Entende?
Tá, tudo bem, essa metáfora de peteca já encheu a paciência, mas você entendeu. Mesmo que esteja dando seu melhor em alguma coisa, saiba que seu melhor inclui momentos não tão bons. Aproveite essas pausas para reavaliar seus objetivos, além de ler gibi e tomar sorvete. Relaxar. Em vez de se cobrar alucinadamente, e acabar deixando de aproveitar as coisas, justamente porque está nessa corrida alucinada, vai ser muito mais produtivo e bacana com você mesma aceitar esses períodos e, só então, retomar o fôlego. Leia as regras do jogo, sim?

Liliane Prata, a autora desse texto, gosta mais de basquete do que de peteca.


A fortaleza.

01dez09

Estava andando pela rua com a minha mãe, voltando do mercado, quando virei a cabeça pro outro lado do canal (só quem mora em Santos entenderá) e vi uma menina no colo do seu pai. Dei um sorriso pra eles e continuei andando.
A minha sorte é que essa cena aconteceu na rua. Logo voltei para alguma conversa desimportante com a minha mãe e chegamos em casa. Minha mente esqueceu desse fato e passou a se preocupar com as próximas notícias que chegaram em casa através do Jornal Nacional.
Quando vejo uma menina com seu pai sempre dou um sorriso e penso no meu pai. Lembro das vezes em que eu fiz esse tipo de trajeto com ele, fosse no colo ou caminhando ao seu lado. E também penso no quanto gostaria de fazer tudo isso com ele hoje em dia. Pergunto pra mim mesma se ele estaria orgulhoso das minhas escolhas ou se ficaria bravo por elas, se ficaria até tarde me esperando chegar da balada ou se iria me buscar em todas elas.
Minha mãe sempre me disse que eu sou muito parecida com meu pai. Desde os olhos grandes e as sobrancelhas grossas até a mania de manter as luzes acesas enquanto minha mãe vai apagando todas elas na sequência, ou a maneira como mantenho a calma diante das mais adversas circunstâncias – extremo oposto da minha mãe, que se irrita por quase tudo. Antigamente pensar nisso tudo me fazia chorar, apesar de ser a mais pura verdade. Acho que me fazia chorar porque, de certa forma (e ainda que não haja o menor motivo pra isso), eu me sentia culpada pela morte dele.
É engraçado como damos mais valor às coisas quando as perdemos, ou quando desejamos que o tempo volte para mudarmos coisas simples, como aquela palavra áspera que fez feridas superficiais – mas nunca cicatrizadas – ou como nos preocupamos tanto com coisas que, na realidade, nem tinham tanta importância assim.

Eu lembro de quando tinha uns doze anos e disse pro meu pai, que era advogado, que eu queria fazer Direito. Ele riu… Aliás, ele gargalhou. E então ele perguntou se era sério. Eu disse que sim e ele então sorriu. Quando ele ficava bravo, era mais parecido ainda comigo… Explodia e ficava irreconhecível. Mas no dia seguinte estava tudo bem, ele só precisava de um dia, ou uma boa noite de sono, pra que seu humor melhorasse.
Antigamente eu pedia que o tempo voltasse e eu pudesse mudar algumas coisas das quais me arrependo, e fazer outras tantas que gostaria de ter feito ao lado dele. Diria à ele o quanto eu o amo e me desculparia por só ter percebido isso agora, que não posso mais dizer. Agora, eu faço diferente.
Agora eu caminho e sorrio quando vejo uma menina passeando com seu pai. Sorrio porque meu pai vive em mim. Nas minhas lembranças, nos meus gestos e nas minhas feições. E eu sei que ele se orgulha da mulher que estou me tornando. Sei porque olho nos meus olhos, na frente de um espelho, e o vejo sorrindo pra mim e me chamando de pequerrucha, como ele sempre fazia.


Era mais um dia nublado, algo comum para a cidade de São Paulo. Andei durante algumas horas e não havia passado mais que quatro quarteirões. Cabeça baixa, raramente levantava o olhar para o rosto das pessoas que passavam apressadas ao meu lado. Ninguém me conhecia e ninguém fazia questão de me conhecer. O celular tocava incansavelmente no bolso do meu casaco, mas eu não queria atender. Sequer me importava quem estaria ligando naquele momento. Tinha deixado a porta do nosso apartamento aberta, desci os sete andares do prédio correndo tão rápido que me esqueci do cuidado para não cair. Estava farta dos meus pais sempre discutindo por motivos banais, da minha irmã sempre pedindo para que eu fosse como ela, da ausência do meu irmão e de como isso me corroía por dentro. Eu não queria mais fazer parte daquele ambiente, daquela família, daquela vida.
Enquanto caminhava pelas ruas da capital, os berros da minha mãe ecoavam pela minha mente… Eu acabava sempre sendo o último alvo das discussões familiares. A maneira como eu destoava dos outros incomodava e meus pais sempre me empurravam um para o outro nas críticas sobre meu comportamento: “essa sua filha não tem jeito mesmo!”, “tinha que ser a sua filha”, coisas assim. Chorar? Não, eu não chorava mais. Parei de chorar com 14 anos, minhas lágrimas nunca valeram nada pra ninguém. Muito menos para os meus pais.
Fugir de casa não era mais opção, era parte da minha vida. Da primeira vez passei três dias longe, da segunda vez fiquei uma semana… Meu plano agora era fugir pra sempre. Dinheiro não era problema, sempre carregava um pouco comigo quando saía de casa. Ter nascido em berço de ouro não era algo tão ruim assim, no fim das contas. Existia um lugar onde sempre ia quando essas coisas aconteciam, uma casa abandonada num bairro distante ao meu.
Quando eu era mais nova, minha mãe contou sobre uma família que havia sido dizimada por bandidos naquele bairro por onde passávamos. Ela apontou a casa e contou que ali vivia uma família que poderia muito bem ser a nossa: mãe, pai, filhos… Disse que a menina saltou na frente do irmão para salvá-lo da bala e então morreram os dois na mesma hora, com a mesma bala. Eu nunca me esqueci disso. A casa permanecia abandonada e eu ficava lá quando fugia de casa.
O jardim quase cobria a casa inteira, a faixa que mantinha o local interditado ficava escondida no meio das folhas e o quarto da menina estava trancado. Era o lugar que mais queria conhecer, mas não havia conseguido abrir das vezes anteriores em que me mantive escondida ali. Olhei pra trás, certificando-me de que não tinha sido seguida e entrei pela porta dos fundos, olhando com cuidado para o chão com medo de pisar em algum rato. Não era fácil estar ali, mas era mais fácil do que estar no conforto da minha casa.
Sempre me interessou muito a vida dessa família. Queria saber como eram, o que faziam, porque aquilo havia acontecido… A polícia nunca achou os culpados desse crime e fazia mais de quinze anos do ocorrido. Coloquei meu casaco sobre a mesa da cozinha e liguei alguma música com o celular. Peguei a lanterna que havia deixado no armário e continuei andando pela casa. Eu tinha conseguido limpar parte dos móveis, comprei lanternas e tudo mais. Aquela casa tinha um pouco de mim agora.
O quarto do irmão me deixava nostálgica, porque fazia com que lembrasse do meu irmão. Ele era mais velho que eu e eu sentia tanto a falta dele… Gabriel foi fazer faculdade em Santa Catarina e só voltava pra casa nas férias. Antigamente éramos eu e ele os alvos dos nossos pais… Os culpados de tudo eram sempre Luana e Gabriel. Mas ele teve de ir e eu fiquei sozinha. Balancei a cabeça para espantar os pensamentos ruins e dei um sorriso ao olhar o quarto decorado com aviões por todos os lados. Um folheto estava caído no chão: “Como se tornar um piloto da Aeronáutica”. Os sonhos daquele garoto estavam todos ali, naquele quarto.

A música parou e eu achei estranho, voltei à cozinha para olhar o celular e a música estava pausada. Senti um frio no estômago e fiquei toda arrepiada. Olhei ao redor e não vi nada. Peguei meu casaco de volta e caminhava para os quartos novamente, quando ouvi um barulho atrás de mim. Não consegui virar pra saber de onde vinha o barulho, uma mão grande e suja tapou-me a boca e me arrastou até a cozinha novamente. Dei-lhe uma boa mordida e bati com o cotovelo em sua barriga com toda a força que consegui. Foi suficiente para ele me soltar e eu conseguir correr até o quarto da moça, o mais próximo da cozinha. Trancado, como eu imaginei. Xinguei alto e tentei abrir a porta novamente, em vão. Aquele homem conseguiu me alcançar e me empurrou contra a porta, prendendo meus braços e me deixando imóvel. Eu queria gritar, mas não conseguia. O medo não me deixava abrir a boca.
O celular tocou novamente e ele me mostrou uma faca, mandando que eu atendesse e soltando uma das minhas mãos para isso. Peguei o celular no meu casaco e não reconheci o número, mas atendi mesmo assim. Perguntavam de uma Giovanna e respondi que era o número errado. A moça que ligou disse que não era o número errado e que gostaria de falar com a Giovanna, ela insistia. O homem ficara impaciente com aquela conversa e então jogou meu celular longe, achando que eu estava brincando com ele. Eu disse que não e senti as lágrimas caindo pelo meu rosto. Depois de seis anos, achei que não tivesse mais lágrimas. Ele ficou enfurecido e me mostrou a faca novamente, encostou-a na minha barriga. Eu coloquei a mão livre na dele e pude senti-la tremer. Pedi que ele não fizesse aquilo, mas ele bateu na porta com mais força… A porta abriu.
Quando acordei, demorou um pouco pra entender tudo o que havia ocorrido. O corpo daquele homem estava sobre o meu e minha roupa estava cheia de sangue. Empurrei-o para o lado e vi a faca dele em seu estômago. Olhei para a minha mão, tentando lembrar o que tinha feito. Levantei e limpei a mão no meu casaco enquanto andava até o criado-mudo. Peguei o caderno que estava em cima e corri até meu celular quando, de repente, uma imagem me chamou atenção: uma foto da família estava na cabeceira da cama da menina. Todos eles sorriam, até o pai deles! Justo ele, que aparentava ser todo sério. Em cima da foto tinha o nome da menina e eu tremi quando li, em letras garrafais, Giovanna.
Giovanna era feliz. Tinha, quando morreu, a mesma idade que eu tinha no dia em que recebi aquele telefonema estranho: vinte anos. Namorava o garoto por quem sempre tinha sido apaixonada, era melhor amiga do seu irmão e tinha uma relação ótima com o pai e com a mãe. Leio e releio seu diário e tento entender quais os problemas que aquela garota tinha. Mesmo sem entender isso, acredito piamente numa coisa: ela me ajudou a crescer. Giovanna salvou a minha vida! Depois disso, nunca mais fugi de casa novamente.


Ressaca.

04out09

- Calma, Sofia! – Thomas segurava minhas mãos enquanto eu respirava fundo, recuperando o fôlego. – Eu não estou com pressa. Agora senta aqui e me explica o que aconteceu, ok?

“Como ele pode ser sempre tão calmo?”, eu pensei. Sentei no sofá, ao lado dele, e tentei me concentrar o bastante para não deitar em seu colo e dormir. Estava com sono, molenga… Não deveria ter bebido.

- Tom, ahn… Acho que não é o melhor momento. Estou consciente, sabe? – ele sorria de um jeito enigmático, não sabia se tirava sarro de mim ou se apenas gostava de ouvir minha voz arrastada por conta das cervejas que havia tomado mais cedo naquela mesma noite… – Mas acho que não quero conversar com você agora. Sabe como é, a bebida entra e a verdade sai – dei uma risada forçada, tentando quebrar o clima sério da conversa.
- Sofia, você me ligou bêbada e disse que precisava falar comigo. Você pode até estar bêbada, mas não é de mentir. – ele fechou os olhos enquanto baixava sua cabeça. Aproximou-se um pouco mais de mim e me encarou. – O que está acontecendo?

Abri os olhos e senti meu quarto girar. Ressaca. “Nunca mais coloco uma gota de álcool na boca”, prometi sileciosamente à mim mesma, pela centésima vez, enquanto evitava movimentos bruscos. Minha cabeça doía e eu tentava colocar as lembranças em ordem à medida em que elas me apareciam.

- Mas, Tom, você não entendeu o que eu quis dizer… – baixei a cabeça e comecei a fitar o pé da mesinha de centro à nossa frente. – Eu quis dizer que…
- Você acha que é injusto admitir o que sente por esse tal amigo para que ele possa escolher outra pessoa além de você – ele me interrompeu. Eu olhei em seus olhos e assenti com a cabeça, sem dizer nada. Podia sentir o coração disparar. O silêncio pairava no ar enquanto nós apenas nos olhávamos.

Finalmente levantei da cama. Joguei um pouco d’água no rosto e me olhei no espelho: meus olhos estavam pretos e borrados, meu batom estava borrado também. Eu e minha mania de não tirar a maquiagem antes de dormir… Passei os dedos pelos meus lábios e fiquei me perguntando o que havia acontecido na noite anterior.

- Me solta, Fernando! Não quero ir pra lugar nenhum com você, sai! – eu gritava enquanto tentava me desvencilhar, em vão.
- Agora você quer fugir, princesa? Provoca e depois vai embora? Eu quero muito mais do que uns amassos, e você vai me dar – ele passou a mão no meu corpo inteiro enquanto eu batia nele, tentando fazer com que ele me largasse.

Fernando… “O que teria acontecido se o Thomas não tivesse chegado ali?” Balancei a cabeça negativamente, era melhor não pensar nisso agora. Fui até a cozinha preparar um café. Sorri com o recado em cima do pote: “Boa ressaca. Espero que se lembre da noite de ontem, Sô”. Era do Thomas, só ele me chamava de Sô.

- Thomas, ahn… – desviei o olhar do dele, e ajeitei os cabelos atrás da orelha antes de terminar a frase – Eu estou gostando de você, sabe? Sei que não podia e nem deveria, mas aconteceu. E eu ahn… Precisava te falar isso. – estava com medo de olhar pra ele. Ele franziu as sobrancelhas, com um certo pesar e então desviou o olhar do meu rosto. Olhei pra ele e então continuei – Nós sempre brincamos muito, mas eu preciso saber onde começa a brincadeira e exatamente onde ela termina.
- Seja mais específica – ele voltou a me olhar e eu pude sentir o estômago embrulhar de nervoso. “Ele me intimida demais”, pensei comigo mesma.

Não suporto café. É minha primeira ressaca e eu espero que uma xícara de café seja o bastante para curá-la. Tomei um gole do café, ainda quente, e pensei no que havia dito ao Tom na noite anterior. Mordi os lábios e respirei fundo… “É melhor que o evite um pouco. Não tenho coragem de olhar pra ele depois de tudo”.

- Você está certo. É que, sei lá… Tenho medo de que você se afaste de mim por causa disso. – estava mais confortável e menos tonta. Sorri e encostei a cabeça nas costas do sofá – Acho que estou melhor!
- Viu, Sô? Curei a sua bebedeira! – ele deu um sorriso sem jeito, mas logo retomou a aparência séria característica. – Sô, eu não vou me afastar de você, tá? A gente vai dar um jeito nisso, relaxa. – Fechei os olhos para inibir minha vontade de chorar. Isso só podia significar que ele nunca iria me deixar ultrapassar a barreira da amizade. “Ótimo”, pensei, ironizando comigo mesma.

O telefone tocou e eu xinguei em pensamento o infeliz que fez com que minha cabeça quase explodisse às 16h00 daquele domingo. Olhei o celular antes de atender… Era o Thomas. Decidi não atender, ainda estava com vergonha da noite anterior. Subi as escadas novamente e fui me deitar.

- Mas e você? O que você sente por mim, Thomas? – juntei toda minha coragem e perguntei. Sequer acreditava nas minhas palavras, eu nunca deveria ter perguntado isso.
- Eu não sei, Sô. Não sei quando é e quando não é… Mas não é hora de falarmos nisso, ok? Você precisa descansar agora, vou te levar pra cama. – ele me pegou no colo e me deitou na cama. Dormi rapidamente enquanto ele me olhava sentado na poltrona em frente à minha cama.

“Ela ainda deve estar dormindo”, Thomas pensou enquanto ouviu o telefone tocar incansavelmente do outro lado da linha. Decidiu deixar um recado. “Sofia, espero que esteja melhor. Ia passar aí pra ver se estava tudo bem, talvez faça isso mais tarde, ok? E, bom, não sei o que você lembra de ontem… Mas queria que soubesse que eu também.” Thomas sorriu e respirou fundo. Finalmente ele fez o que tinha que fazer. Jogou-se no sofá e ficou olhando pro teto, apenas imaginando como as coisas seriam dali pra frente.


“Então me diz alguma coisa
Bate aqui de madrugada, pra lembrar daquele tempo
Pra sempre ou só por um momento
Me dá um beijo na boca e depois me leva pra tua casa…”

*Outra Noite Que Se Vai – Armandinho.

Daniela demorou pouco tempo para se apaixonar por Fernando, mas tempo demais para perceber isso. Antes que ela percebesse, tinha-o como melhor amigo: aquele pra quem contava tudo, desde seu dia-a-dia até seus namoros. E Fernando, que namorava Gabi quando eles se conheceram, fazia o mesmo com ela. Riam demais juntos, eram muito parecidos… E gostavam disso. No dia em que Dani contou que começara a namorar Bruno, amigo dos dois, Fernando ficou morrendo de ciúme. E ele não entendia direito o motivo, negou que estivesse com ciúme quando Daniela perguntou… Mas era claro como a neve, como todas as amigas diziam. Ele tinha sido extremamente grosso com ela, eles nunca haviam sequer se desentendido antes! E Daniela ficou confusa, mas o que mais doía era a maneira como ele a tinha tratado.
Bruno, quando passou na casa dela à noite, percebeu que ela estava diferente. Perguntou-lhe o que havia acontecido. Ele nunca tinha ido muito com a cara de Fernando, achava que ele gostava da garota. Ela, claro, negava. Depois de muito insistir, Bruno acabou por ouvir que Daniela tinha brigado com Fernando, mas ela não quis dizer o motivo. Ele ficou sem jeito por ver Daniela daquele jeito. Ela estava mais triste por ter brigado com um amigo do que feliz por ter começado a namorá-lo!
Durante um dia inteiro, Daniela e Fernando ficaram sem se falar. Foi aí que ela percebeu que, apesar de ter começado a namorar Bruno, estava apaixonada pelo seu melhor amigo. E a reação dele ao saber do namoro fez com que ela achasse que ele gostava dela também. No dia seguinte, quando se encontraram, Fernando pediu desculpas à Daniela e disse que havia agido daquela maneira porque Daniela escondeu que ia começar a namorar… A garota tinha pensado tudo errado então. Ele gostava mesmo da namorada, Gabi. Seguiram como sempre haviam sido, dois melhores amigos inseparáveis.
Daniela estava feliz com Bruno, ele era o namorado com o qual ela sempre sonhou. Um cara perfeito, como ela sempre dizia. Mas Fernando, que a conhecia tão bem, sabia que o sorriso dela não era mais tão feliz quanto antes. E ele também já não era mais o mesmo. Demorou um mês para que Daniela criasse coragem para se afastar de Bruno… Pediu um tempo. Ela era feliz com Bruno, o amava de fato! Mas era completamente apaixonada por Fernando, e não conseguia mais esconder isso. Ainda mais porque Fernando parecia sentir algo além de amizade por ela às vezes.

Meses depois, Fernando terminou com a namorada. E Daniela, depois de ter voltado com Bruno, terminou com ele de vez ao descobrir uma traição. Os dois estavam livres e a atração que sentiam começou a ficar incontrolável… Uma noite, na casa dele, a garota debruçava-se na janela do quarto enquanto riam juntos. Ele a olhou nos olhos e sorriu, aproximando-se um pouco mais. O estômago de Daniela pulou e finalmente eles se beijaram. Depois do beijo, se entreolharam, sem saber direito o que fazer. Aquilo iria se repetir? Teria sido um erro? Daniela não conseguia dizer nada, ela não queria dizer que o amava tanto quanto amava porque achava que ele ainda gostava da ex. E ele, por sua vez, não queria magoá-la. Ela não merecia, não depois de ter descoberto uma traição tão grande quanto a da melhor amiga e a de seu, na época, namorado. Ele apenas sorriu depois do beijo e continuaram conversando calmamente, disse que a amava e ela disse que o amava também. Isso continuou acontecendo dia após dia e, apesar de estar completamente feliz, Dani sentia medo de que isso acabasse um dia. Ele ainda se mostrava bastante interessado nas atitudes da ex-namorada, e isso a deixava triste, ainda que ela não demonstrasse essa tristeza.
No começo de junho, próximo do dia dos namorados, Fernando disse que precisava conversar com ela. Nessa época eles já estavam ficando oficialmente, todos os amigos sabiam. Até mesmo a ex-namorada dele, que desejou apenas que ele fosse feliz com a Daniela, que ela poderia fazê-lo feliz. Quando Daniela chegou à casa dele, eles se sentaram no sofá e ele disse, completamente sem jeito, que achava melhor que eles parassem de ficar. Ela começou a chorar e perguntou se ele ainda gostava da ex e ele disse que, apesar de ela ser uma garota maravilhosa e de realmente amá-la, ele não poderia fazê-la feliz por ainda gostar da ex. Ela chorou ainda mais depois de ouvi-lo afirmar. Não queria, mas não conseguia parar de chorar. Olhou pra ele e disse o quanto o amava, o quanto queria ficar com ele, o quanto poderia fazê-lo feliz e o quanto tinha sido idiota de ter pensado que, um dia, ele iria esquecer a ex-namorada. Saiu da casa dele correndo, certa de que não voltaria a vê-lo tão cedo.

Passaram-se algumas noites e Fernando não voltou a falar com Dani desde aquele dia. Mandou mensagens no celular pedindo que ela fosse até a sua casa, para que ligasse pra ele, pois ele estava preocupado, mas isso só deixava a garota mais triste. Ela ignorava qualquer tipo de tentativa do garoto e passou a se focar nos amigos, saía bastante com eles, divertia-se. Por vezes até via Fernando passar próximo dela, mas fingia que não o via. Ela não havia esquecido o que ele tinha dito. Perguntava sempre dele para os amigos, porque ele parecia estar mais magro, triste… Mas ele permanecia com o seu orgulho intacto e dizia que estava ótimo. “Que bom”, a garota dizia e continuava com sua rotina de festas e badalações.
Do outro lado da cidade, Fernando confidenciava a Vinícius, um de seus amigos mais próximos, que havia se arrependido de ter terminado com Daniela. “Tanta coisa a gente faz, depois quer voltar atrás”, ele dizia.

Daniela passava por perto da casa de Fernando todas as noites e sempre lutava contra a sua vontade de olhar para a janela aonde deram seu primeiro beijo. Naquela noite, ela olhou para a janela. Não havia ninguém lá e então ela sorriu sozinha, seguindo o seu caminho. Naquele instante seu celular tocou e ela leu uma mensagem que ele havia mandado: “Bate aqui de madrugada, pra lembrar daquele tempo”. Ela foi até a casa dele, bateu à porta e os dois ficaram se olhando por alguns instantes, sem dizer nada. Foi a vez de Fernando quebrar o silêncio:

- Então… Me diz alguma coisa. – ele a olhava nos olhos, esperando algum sinal para que ele pudesse beijá-la de uma vez e acabar com isso. Ela o olhou seriamente e disse:
- Alguma coisa! – ela disse e começou a rir.

Fernando riu junto com ela e aproximou-se. Os dois se beijaram.


Jacqueline.

14ago09

03 de julho de 2009, ela escreveu em seu diário. Embaixo desta linha e nas páginas que se seguiam, havia um sonho realizado, descrito por entre músicas de Jonas Brothers e colantes da princesa Bela. Jacqueline era uma garota prestes a completar 15 anos. Diferente das meninas de sua idade, que desejavam reinar numa festa cheia dos holofotes, ela desejava tornar-se uma princesa no castelo de seus sonhos: o Disney World.
Desde pequena a menina gostava dos desenhos Disney, fora criada em meio à anões, leões que viram reis e mocinhas com sapatos de cristal. Tudo o que ela mais desejava no mundo era conhecer a Disney, seus olhos brilhavam quando pensava (e falava) nisso.
Após alguns anos implorando para que os pais a deixassem ir e ajudando-os a conter os gastos para viabilizar as economias, Jacque finalmente se viu preparando tudo para a almejada viagem. Roupas, câmera, documentos e toda a ansiedade da menina já estavam a postos, apenas aguardando os dias em que entraria no avião.
Jacque iria passar quinze dias num sonho. E na véspera de começar a torná-lo real, ela abraçou os pais, agradecendo por tudo o que haviam feito por ela, e chorou. Um choro de felicidade extrema, um choro de adeus, com lágrimas repletas de saudade. Seus pais a viam se aproximar cada vez mais do avião, com o coração apertado por terem deixado a filha única viajar sozinha pela primeira vez. Infelizmente, também foi a única.
Jacqueline aproveitou cada segundo de sua estadia no mundo que tanto amava. Em seu diário, nas páginas que escreveu enquanto estava lá, ela descrevia seus sentimentos como algo que jamais imaginou sentir. Estava feliz, imensamente feliz. No dia de seu aniversário de 15 anos, a menina reinou. Foi princesa, como tanto queria, e visualizou o mundo todo aos seus pés. Festejou com seus amigos leões, com as amigas princesas, com piratas e tantas outras fantasias que a acompanharam desde criança.
Jacqueline não viveu para tornar-se rainha. As causas de sua morte, ocorrida subitamente no vôo de volta, ainda não foram divulgadas. Mas, certamente, a menina foi ao reino dos anjos envolta pela magia que o maravilhoso mundo de Disney havia lhe proporcionado dias atrás. Que fique com Deus a mais nova princesa dos céus, Jacqueline.


Eu & você.

05ago09

Ninguém vem me atrapalhar às vezes. Quando acho que estou bem e que finalmente alguém vai mudar a minha vida, ninguém me aparece. E ninguém chega com a força avassaladora das memórias que vêm à tona, exatamente essas que tu não queres mesmo lembrar. Ninguém me alerta de que essa minha caixa de lembranças non gratas irá me atormentar sempre, não importa o quanto alguém diga o contrário.
Ninguém tem idéia do quanto é doloroso remoer e reviver memórias vagas, prender-se à fios de pensamentos envoltos numa nuvem escura e assustadora… Nem mesmo ninguém. Alguém ainda faz questão de lembrar que ninguém existe dessa maneira para uma pessoa, e cobra explicações que não quero dar. Ninguém está morto e enterrado até que alguém pare de perguntar! Ninguém está vivo e enclausurado até eu lhe deixar descansar. E é uma pena que alguém não entenda isso.


Conheci uma garota que UAU! Ela era realmente incrível. Quando me contam coisas sobre ela, eu sorrio e não digo absolutamente nada. É como se não tivesse nada a dizer, nada do que eu diria parece ser bom o bastante pra expressar o bem que ela me faz sentir. O que mais me espanta é o fato de que apenas eu me sinto assim sobre ela. Meus amigos, quando ouvem as histórias dessa tal garota incrível, riem, debocham… Alguns custam a acreditar na sua existência. Sempre ironizando sobre seus feitos, criticando suas atitudes, desprezando a maneira como ela decidiu viver a vida dela.
Aos 13 anos ela já tinha a vida perfeita, sabiam? Ela já sabia a idade que iria se casar, a casa em que iria viver e quantos filhos iria ter. Mesmo que ainda não tivesse sentido o verdadeiro amor, ela sabia que ele iria acontecer na sua vida. E ela se julgava pronta para recebê-lo, pois já havia até feito planos para ele.
Aquela garota nunca havia se apaixonado verdadeiramente, mas ela sabia como seria e a maneira como ela iria se sentir quando isso acontecesse. O amor era um dos sentimentos que mais se destacava em sua mente, em seu corpo. Ela era movida pelo amor. Ansiava por ele todos os dias, colocava-o em tudo que fazia… Sempre.
Tinha um olhar tão puro, uma risada tão suave, uma mente tão ingênua. E, se por um acaso ainda tivesse contato com essa menina, poderia jurar que não importa o quanto a sociedade tenha o poder de corromper uma pessoa… A ingenuidade dela, ainda que diminuísse um pouco, sempre estaria lá.
Existem várias pessoas nas quais gosto de pensar, pra mim é quase um refúgio pensar em algumas pessoas, pois existem algumas que me fazem bem apenas por pensar nelas… Essa garota é uma delas. Porém, pensar nela também me traz um certo pesar, porque eu não a conheço mais. Não sei mais aonde ela está, o que está fazendo, se está feliz ou triste.
Queria saber se a garota deixou de sonhar só porque um dia lhe disseram, com a vontade de lhe repreender, que ela sonhava demais. Queria saber se ela cresceu e se tornou uma mulher que não se reconhece no espelho, ou se ela ainda consegue enxergar a garota incrível que tinha 13 anos e sabia exatamente a casa em que iria morar e quantos filhos iria ter.


“I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now and I won’t ask again
Will you still love me tomorrow?”

*Will You Still Love Me Tomorrow? – Amy Winehouse 

O lençol branco cobria meu corpo enquanto eu sorria bobamente olhando para o teto daquele quarto, iluminado apenas pela luz da lua. Fechei os olhos e respirei fundo, vislumbrei a sacada enquanto as cortinas balançavam com o vento gelado da madrugada. Olhei para o lado e percebi que Duh ainda dormia. De bruços, como eu suspeitei. Dei-lhe um beijo no pescoço e sorri, roçando o nariz por entre seu cabelo bagunçado. Puxei o lençol pra cima, protegendo seu corpo nu daquela friagem. Levantei-me com meu robe e fui até a sacada apreciar a lua.
Ela estava linda, era noite de lua cheia. Respirei fundo, fechei os olhos e senti o vento congelar-me o nariz. Sorri com isso. Coloquei-me de costas pra lua e, debruçada sobre a sacada, olhei pra ele. Seus bagunçados cabelos castanhos contrastavam com a brancura do lençol. Seu braço estava caído para fora da cama e ele estava com uma expressão tão pacífica que ninguém ousaria dizer o que havíamos feito mais cedo. Era impossível olhar para ele naquele momento e não sorrir da maneira como eu estava sorrindo.
Pendendo a cabeça para o lado e colocando uma mecha dos cabelos para trás da orelha, eu ria sozinha, lembrando do seu sorriso safado e da maneira como ele franzia as sobrancelhas quando queria me torturar… Ele era bom no que fazia. Eu amava o que ele fazia, a maneira como ele fazia, ele. Acendi meu cigarro depois desse pensamento e desviei o olhar. Poucos carros passavam seis andares abaixo de mim, eu me sentia como a única pessoa acordada naquele momento. Eram quase quatro horas da manhã e eu era a única mulher com tantas dúvidas trazidas de brinde depois do único presente que esperei (e como esperei) ganhar na vida.
Voltei a fitar Duh… A cada tragada em meu cigarro pensava numa coisa diferente. O que aquela noite havia realmente significado? Será que os beijos e as juras de amor eterno feitas por entre os gemidos abafados de ambos significara realmente alguma coisa? Eu olhava para aquele corpo cansado sobre a cama e visualizava Alícia e Lucas correndo para os meus braços num final de tarde, enquanto o Duh carregava Sofia no colo até mim. Conseguia ver a foto da família num porta-retratos bonito ao lado do cinzeiro na sala de estar, nossas noites loucas pelos motéis daquela cidade iluminada. De repente meu corpo era tomado por dores que ainda não havia sentido, certamente hematomas de brigas futuras. Mais copos quebrados, mais tapas dolorosos, mais noites silenciosas aonde o meu choro calado se sobressaía por entre os xingamentos sussurrados ao pé do ouvido daquele Duh que eu não mais reconhecia enquanto forçava monstruosamente seu corpo contra o meu. Senti uma dor no peito por tudo o que poderia ser de nós e que, talvez, não fosse. Mas naquela noite, naquele instante… Naquele momento, ele era completamente meu.
Ele se mexeu na cama, virando seu rosto na direção do meu. Acordei dos meus pensamentos e fiquei olhando fixamente para seu rosto, esperando que ele acordasse. Ele não o fez. Dei uma risada baixinha balançando a cabeça e pensando comigo mesma no quanto ele deveria estar cansado para ainda não ter acordado e notado a cama vazia. Mordi os lábios pensando em como seria estar sozinha na minha cama depois daquela noite. Senti um medo instalar-se subitamente no meu corpo e voltei a olhar a lua, procurando respostas até para as perguntas que ainda não havia feito.
Ansiava por uma vida inteira exatamente daquela maneira: com aquele homem deitado em minha cama enquanto eu o fitava dormir numa noite bonita, com a lua brilhando no céu só para nós dois. Desejava apenas a certeza de que isso aconteceria todos os dias da nossa vida. Eu o amava, ele me amava, não havia dúvidas disso. Passamos a noite nos amando mutuamente e eu ainda era consumida com a incerteza do amanhã… Baixei a cabeça e terminei de fumar meu cigarro. Vi as últimas cinzas voarem sacada afora num transe, imaginando meus sonhos e desejos voando junto com elas. Acordei de meus devaneios. Preparava-me para voltar para a cama e fui surpreendida por um abraço apertado, mãos firmes tirando os cabelos do meu pescoço enquanto Duh me dava apenas um beijo no pescoço, o bastante para arrepiar meu corpo inteiro. Sorria feliz enquanto deixava minhas mãos apoiadas sobre as dele.

- Eu te amo, Mari. Te amo mesmo. – Duh me disse baixinho ao pé da orelha.
 Eu senti meus olhos brilharem enquanto dava um sorriso largo e voltava a olhar a lua.
- Você vai me amar amanhã? – Me vi silenciando a primeira coisa que veio à minha mente. Respondi, com toda a sinceridade que havia em mim naquele instante. – Eu vou te amar por toda a minha vida.


Três.

10mai09

Olho-me no espelho, o que vejo? Um amontoado de palavras construídas de maneira milimetricamente planejada, formando um corpo curvilíneo, com belas formas arredondadas nos lugares certos. Uma expressão curiosa perguntando-se quem era o rapaz daquele reflexo feminino. Quem era o rapaz daquele olhar abandonado, aquele sorriso conformado, aquele toque aveludado. Era você! O que vejo no espelho agora? Sou eu.
Diante dessas visões fecho meus olhos e imagino-me por alguns instantes… O que vejo? Uma luz amarelo-fluorescente invadindo-me as pálpebras, trazendo à minha vida uma explosão de imagens coloridas, preto e brancas, sofridas ou vagas lembranças… Ouço um riso perdido no meio das lágrimas caídas dias atrás, um sorriso falso camuflando o pesar com que os dias passam com a tua ausência, um choro silencioso a ecoar pelas salas, TVs, computadores e telas de todas as marcas, tamanhos e cidades do mundo.
Abro os olhos novamente. Você continua lá. Ali. Aqui. Olho pra mim e te vejo aqui dentro, ansiando por uma nova chance de sair, dar olá ao mundo novamente, espalhar alegria e divertimento, como era em outra hora… Mas você continua cá. Preso, encarcerado, atrelado às minhas veias, correndo no meu corpo, sugando minha vida. Vida.
Quisera eu poder olhar em meus olhos e não sentir o corpo arder em vão com o simples pensar de toques, suspiros e palavras desconexas ditas numa complexa dança à luz da lua… Mas não há como enganar ao espelho, ele nos mostra apenas o que é real. Isso tudo é real? Volto de minhas viagens ao centro de mim e aproximo-me mais daquele olhar curioso que me encara sem parar. Olho-me no espelho, o que vejo? Ele.