. caradepanela .

Platão, o mundo da fantasia e a irmã de Peter Pan.

Publicado em Diário de Manoela. por Manoela em Junho 18, 2009

Conheci uma garota que UAU! Ela era realmente incrível. Quando me contam coisas sobre ela, eu sorrio e não digo absolutamente nada. É como se não tivesse nada a dizer, nada do que eu diria parece ser bom o bastante pra expressar o bem que ela me faz sentir. O que mais me espanta é o fato de que apenas eu me sinto assim sobre ela. Meus amigos, quando ouvem as histórias dessa tal garota incrível, riem, debocham… Alguns custam a acreditar na sua existência. Sempre ironizando sobre seus feitos, criticando suas atitudes, desprezando a maneira como ela decidiu viver a vida dela.
Aos 13 anos ela já tinha a vida perfeita, sabiam? Ela já sabia a idade que iria se casar, a casa em que iria viver e quantos filhos iria ter. Mesmo que ainda não tivesse sentido o verdadeiro amor, ela sabia que ele iria acontecer na sua vida. E ela se julgava pronta para recebê-lo, pois já havia até feito planos para ele.
Aquela garota nunca havia se apaixonado verdadeiramente, mas ela sabia como seria e a maneira como ela iria se sentir quando isso acontecesse. O amor era um dos sentimentos que mais se destacava em sua mente, em seu corpo. Ela era movida pelo amor. Ansiava por ele todos os dias, colocava-o em tudo que fazia… Sempre.
Tinha um olhar tão puro, uma risada tão suave, uma mente tão ingênua. E, se por um acaso ainda tivesse contato com essa menina, poderia jurar que não importa o quanto a sociedade tenha o poder de corromper uma pessoa… A ingenuidade dela, ainda que diminuísse um pouco, sempre estaria lá.
Existem várias pessoas nas quais gosto de pensar, pra mim é quase um refúgio pensar em algumas pessoas, pois existem algumas que me fazem bem apenas por pensar nelas… Essa garota é uma delas. Porém, pensar nela também me traz um certo pesar, porque eu não a conheço mais. Não sei mais aonde ela está, o que está fazendo, se está feliz ou triste.
Queria saber se a garota deixou de sonhar só porque um dia lhe disseram, com a vontade de lhe repreender, que ela sonhava demais. Queria saber se ela cresceu e se tornou uma mulher que não se reconhece no espelho, ou se ela ainda consegue enxergar a garota incrível que tinha 13 anos e sabia exatamente a casa em que iria morar e quantos filhos iria ter.

Will You Still Love Me Tomorrow?

Publicado em Trilha sonora. por Manoela em Maio 20, 2009

“I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now and I won’t ask again
Will you still love me tomorrow?”

*Will You Still Love Me Tomorrow? – Amy Winehouse 

O lençol branco cobria meu corpo enquanto eu sorria bobamente olhando para o teto daquele quarto, iluminado apenas pela luz da lua. Fechei os olhos e respirei fundo, vislumbrei a sacada enquanto as cortinas balançavam com o vento gelado da madrugada. Olhei para o lado e percebi que Duh ainda dormia. De bruços, como eu suspeitei. Dei-lhe um beijo no pescoço e sorri, roçando o nariz por entre seu cabelo bagunçado. Puxei o lençol pra cima, protegendo seu corpo nu daquela friagem. Levantei-me com meu robe e fui até a sacada apreciar a lua.
Ela estava linda, era noite de lua cheia. Respirei fundo, fechei os olhos e senti o vento congelar-me o nariz. Sorri com isso. Coloquei-me de costas pra lua e, debruçada sobre a sacada, olhei pra ele. Seus bagunçados cabelos castanhos contrastavam com a brancura do lençol. Seu braço estava caído para fora da cama e ele estava com uma expressão tão pacífica que ninguém ousaria dizer o que havíamos feito mais cedo. Era impossível olhar para ele naquele momento e não sorrir da maneira como eu estava sorrindo.
Pendendo a cabeça para o lado e colocando uma mecha dos cabelos para trás da orelha, eu ria sozinha, lembrando do seu sorriso safado e da maneira como ele franzia as sobrancelhas quando queria me torturar… Ele era bom no que fazia. Eu amava o que ele fazia, a maneira como ele fazia, ele. Acendi meu cigarro depois desse pensamento e desviei o olhar. Poucos carros passavam seis andares abaixo de mim, eu me sentia como a única pessoa acordada naquele momento. Eram quase quatro horas da manhã e eu era a única mulher com tantas dúvidas trazidas de brinde depois do único presente que esperei (e como esperei) ganhar na vida.
Voltei a fitar Duh… A cada tragada em meu cigarro pensava numa coisa diferente. O que aquela noite havia realmente significado? Será que os beijos e as juras de amor eterno feitas por entre os gemidos abafados de ambos significara realmente alguma coisa? Eu olhava para aquele corpo cansado sobre a cama e visualizava Alícia e Lucas correndo para os meus braços num final de tarde, enquanto o Duh carregava Sofia no colo até mim. Conseguia ver a foto da família num porta-retratos bonito ao lado do cinzeiro na sala de estar, nossas noites loucas pelos motéis daquela cidade iluminada. De repente meu corpo era tomado por dores que ainda não havia sentido, certamente hematomas de brigas futuras. Mais copos quebrados, mais tapas dolorosos, mais noites silenciosas aonde o meu choro calado se sobressaía por entre os xingamentos sussurrados ao pé do ouvido daquele Duh que eu não mais reconhecia enquanto forçava monstruosamente seu corpo contra o meu. Senti uma dor no peito por tudo o que poderia ser de nós e que, talvez, não fosse. Mas naquela noite, naquele instante… Naquele momento, ele era completamente meu.
Ele se mexeu na cama, virando seu rosto na direção do meu. Acordei dos meus pensamentos e fiquei olhando fixamente para seu rosto, esperando que ele acordasse. Ele não o fez. Dei uma risada baixinha balançando a cabeça e pensando comigo mesma no quanto ele deveria estar cansado para ainda não ter acordado e notado a cama vazia. Mordi os lábios pensando em como seria estar sozinha na minha cama depois daquela noite. Senti um medo instalar-se subitamente no meu corpo e voltei a olhar a lua, procurando respostas até para as perguntas que ainda não havia feito.
Ansiava por uma vida inteira exatamente daquela maneira: com aquele homem deitado em minha cama enquanto eu o fitava dormir numa noite bonita, com a lua brilhando no céu só para nós dois. Desejava apenas a certeza de que isso aconteceria todos os dias da nossa vida. Eu o amava, ele me amava, não havia dúvidas disso. Passamos a noite nos amando mutuamente e eu ainda era consumida com a incerteza do amanhã… Baixei a cabeça e terminei de fumar meu cigarro. Vi as últimas cinzas voarem sacada afora num transe, imaginando meus sonhos e desejos voando junto com elas. Acordei de meus devaneios. Preparava-me para voltar para a cama e fui surpreendida por um abraço apertado, mãos firmes tirando os cabelos do meu pescoço enquanto Duh me dava apenas um beijo no pescoço, o bastante para arrepiar meu corpo inteiro. Sorria feliz enquanto deixava minhas mãos apoiadas sobre as dele.

- Eu te amo, Mari. Te amo mesmo. – Duh me disse baixinho ao pé da orelha.
 Eu senti meus olhos brilharem enquanto dava um sorriso largo e voltava a olhar a lua.
- Você vai me amar amanhã? – Me vi silenciando a primeira coisa que veio à minha mente. Respondi, com toda a sinceridade que havia em mim naquele instante. – Eu vou te amar por toda a minha vida.

Três.

Publicado em Palavras desprovidas de sentido. por Manoela em Maio 10, 2009

Olho-me no espelho, o que vejo? Um amontoado de palavras construídas de maneira milimetricamente planejada, formando um corpo curvilíneo, com belas formas arredondadas nos lugares certos. Uma expressão curiosa perguntando-se quem era o rapaz daquele reflexo feminino. Quem era o rapaz daquele olhar abandonado, aquele sorriso conformado, aquele toque aveludado. Era você! O que vejo no espelho agora? Sou eu.
Diante dessas visões fecho meus olhos e imagino-me por alguns instantes… O que vejo? Uma luz amarelo-fluorescente invadindo-me as pálpebras, trazendo à minha vida uma explosão de imagens coloridas, preto e brancas, sofridas ou vagas lembranças… Ouço um riso perdido no meio das lágrimas caídas dias atrás, um sorriso falso camuflando o pesar com que os dias passam com a tua ausência, um choro silencioso a ecoar pelas salas, TVs, computadores e telas de todas as marcas, tamanhos e cidades do mundo.
Abro os olhos novamente. Você continua lá. Ali. Aqui. Olho pra mim e te vejo aqui dentro, ansiando por uma nova chance de sair, dar olá ao mundo novamente, espalhar alegria e divertimento, como era em outra hora… Mas você continua cá. Preso, encarcerado, atrelado às minhas veias, correndo no meu corpo, sugando minha vida. Vida.
Quisera eu poder olhar em meus olhos e não sentir o corpo arder em vão com o simples pensar de toques, suspiros e palavras desconexas ditas numa complexa dança à luz da lua… Mas não há como enganar ao espelho, ele nos mostra apenas o que é real. Isso tudo é real? Volto de minhas viagens ao centro de mim e aproximo-me mais daquele olhar curioso que me encara sem parar. Olho-me no espelho, o que vejo? Ele.

Eu nunca disse adeus.

Publicado em (In)diretamente falando. por Manoela em Fevereiro 8, 2009

Estávamos no inverno, era uma terça-feira. Eu acordei irritada, o sol se instalava janela adentro e fazia meu corpo inteiro queimar. Levantei-me da cama com um bico e as sobrancelhas franzidas, como sempre fazia quando estava com raiva, e fechei a janela de uma vez só. O cachorro da vizinha latiu com o barulho e eu resmunguei alguns xingamentos, voltando a deitar. Dei uma olhadinha no relógio, ele mostrava 10h00. Eram 10h00 de uma terça-feira comum.
Costumo dormir com o celular na cômoda ao lado da cama, e como o calor infernal tirou meu sono, decidi pegá-lo para ficar fazendo nada. Talvez dar uma olhada na quantidade de pessoas – que não me ligam – da minha agenda telefônica. Havia uma mensagem e não pude evitar sorrir. Era Filipe. Ele chegava hoje! Odiava terças-feiras, mas essa não podia ter começado melhor.
Filipe era meu namorado, nos conhecíamos a mais de um ano. Ele viajou um dia depois que completamos um mês de namoro. Antes de Filipe tinha tido alguns namorados, mas nunca havia me entregado daquela maneira. Filipe havia se tornado metade de mim. Quando estávamos separados era como se me faltassem as pernas. Eu ficava estagnada, imersa nas lembranças dos momentos que passávamos juntos, imaginando como seria quando o visse novamente. E quando ele aparecia de novo, ah! Quando ele aparecia de novo era meu momento favorito entre todos os momentos do mundo! Eu voltava a andar.
Dei um sorriso e levantei-me logo, mandei uma mensagem pedindo que passasse em casa à tarde, íamos andar na beira do mar abraçados, esperando o pôr-do-sol. Eu nunca havia visto o pôr-do-sol e a praia era logo ali, alguns quarteirões da minha casa.
Tomei banho, cantarolei como sempre fazia enquanto procurava uma roupa, me troquei e passei um tempo na internet. Ele estava demorando, mas eu estava tão feliz que nada iria me fazer ficar triste naquele dia.
O sol começava a se esconder por trás das nuvens, o céu ficara cinza de uma hora pra outra e havia um vento gelado cortando-me a pele. Eu não esperava por um tempo daquele, meu short e minha regata denunciavam isso. Eu chorava um choro incessante, mal conseguia respirar por entre as lágrimas. Mais cedo, ainda naquele dia, recebi uma ligação do celular de Filipe. Mas quem falou comigo não foi ele.
A pessoa com quem falava me informou de um acidente próximo à minha casa. Ela me descreveu o carro de Filipe e disse que ele estava no Hospital Ana Costa. Eu desliguei antes que ela me dissesse o estado dele. Acho que nunca dirigi tão rápido em toda minha vida. Médicos passavam por mim às pressas, eu não conseguia enxergar direito o que estava acontecendo por trás daquele vidro transparente, mas não deveria ser uma coisa boa… Eles conversavam entre si e pareciam nervosos e então eu comecei a ouvir barulhos familiares, eles significavam que a coisa não estava boa mesmo. Minhas maratonas de ER e Grey’s Anatomy finalmente tiveram alguma utilidade. Não conseguia ficar parada e também não conseguia ver o desespero dos médicos. Sentei-me e entrelacei minhas mãos numa prece, coisa que nunca havia feito. Não ligava para orações, mas naquele momento eu sabia que rezar era a única coisa que eu poderia fazer.
Às 16h00 os médicos desligaram todas as máquinas e vieram falar comigo. Contaram-me que Filipe não havia resistido aos ferimentos, que eles sentiam muito… Disseram que eu poderia ir até lá me despedir dele enquanto eles entravam em contato com sua família. Entrei naquele quarto em transe, olhava para aquela maca sem piscar. Avistei o rosto de Filipe e olhei pra ele, mas era como se eu não pudesse realmente vê-lo. Fiquei um tempo fazendo isso até que olhei no relógio em seu pulso. Ele estava quebrado e marcava 14h14. Saí correndo do hospital, fazendo uma enfermeira derrubar sua prancheta e um bolo de papéis que carregava.
Corria feito louca, as pessoas me olhavam assustadas, saindo da minha frente o mais rápido que podiam. Deixei meu carro no hospital e corri até a praia. Eu precisava chegar lá. Eram quase 18h00.
Agora o céu estava repleto de nuvens cinzas e eu me envolvia num abraço forte, tentando não ser afetada pelo frio gelado que o mar trazia até mim. Sentada num banco da praia eu olhava o mar com atenção, pensando em tudo o que tinha acontecido. Comecei a chorar e chorar. As lágrimas não paravam de rolar pelo meu rosto, sentia vontade de gritar e correr até o mar, me jogar dentro dele e fazer com que ele me levasse pra longe. Quando as lágrimas secaram eu podia sentir a dor no meu peito. Eu nunca havia sentido uma dor tão grande em toda a minha vida. O sol se pôs, fui pra casa.
A única vez em que tinha visto um cadáver foi quando meu pai morreu. À contragosto me levaram no velório dele e eu chorei tanto, mas tanto, que minha cabeça ficou doendo por uma semana. Apesar de tudo, não era tão difícil se acostumar àquilo. Sempre se espera que os mais velhos morram antes. Você sempre espera enterrar teus pais, e não o contrário. Depois daquele dia eu jurei que nunca mais iria à velório algum. Foi o único juramento que quebrei.
O que mais gostava no Filipe eram seus olhos castanhos e as pintinhas que ele tinha pelo corpo. Quando me aproximei do caixão a mãe dele me abraçou e me beijou a testa, como faria com a filha dela, se tivesse uma. Eu peguei a mão dele e apertei, ele estava gelado. Envolvi minhas duas mãos nas dele então e fiquei olhando pros olhos fechados dele, pedindo baixinho que ele os abrisse. Ele não o fez. Chorei copiosamente durante todo o tempo que estive no velório. Não podia acreditar que nunca mais o veria, não queria largar a sua mão. Olhava para seu corpo pálido, as pintas atrás de sua orelha estavam ali e eu sorri de leve lembrando-me do quanto ele as odiava. Eu não queria deixá-lo ir.
Uma vez, numa das nossas saídas, Filipe pediu para eu lhe prometer uma coisa. Aliás, ele me pediu para prometer duas coisas! Uma delas era nunca deixar de sorrir, porque meu sorriso era a coisa mais linda e mais preciosa que eu tinha. Achei essa um tanto quanto estranha, mas prometi. E a outra era para que, independente do que acontecesse conosco, eu nunca lhe desse adeus. Ele dizia que adeus era um tchau sem volta, por isso nunca deveria dizer adeus para ele. Mesmo que a gente terminasse, eu casasse com outro e tudo mais. Eu lembro que nesse dia eu bati nele e disse que a gente nunca ia terminar! A gente se amava e era pra sempre. Ainda brinquei que ele teria que me agüentar até o fim dos seus dias…
Ainda no velório as pessoas acenavam em coro enquanto o caixão era carregado. Todas elas diziam adeus em meio à um choro e eu agora sorria, como se alguém me colocasse magicamente um sorriso no rosto. Sorri novamente com algumas lágrimas nos olhos e disse tchau. É, eu disse tchau. Tchau, meu Filipe.

Reveillón.

Publicado em Palavras desprovidas de sentido. por Manoela em Dezembro 27, 2008

Era uma vez uma menina chamada Gabriela e um menino chamado Lucas. Gabriela era a garota mais inteligente da sua sala, adorava perguntar as coisas que lhe vinham à mente, não se importava de passar os dias estudando. Ela tinha um sonho, desejava ser médica. Lucas, por sua vez, não gostava de estudar. Ele tirava boas notas, mas não se importava em ficar com a fuça em livros e mais livros. Achava que a vida era boa demais pra ficar se preocupando com isso. Lucas tinha tantos sonhos que não conseguia dizê-los. E então, um dia, os dois se encontraram.
A menina Gabriela passou a tirar notas mais baixas e já não se preocupava tanto com isso. Percebeu que o mundo tinha mais a oferecer do que apenas fórmulas de física e equações matemáticas. Lucas expandiu seu vocabulário e sua mente, suas notas melhoraram, e ele decidiu que seria arquiteto! Agora ele estudava pra isso.
Gabriela e Lucas começaram a se gostar. Ela com sua mania irremediável de devorar um pote de Nutella por dia, e ele com a sua dieta devidamente balanceada, aonde nenhum doce poderia entrar. Gabriela e sua coca, Lucas e seu suco de laranja. Eram opostos em tudo, discutiam por nada. Não demorou muito tempo para essa amizade intensa e essa implicância tremenda se transformarem em… Amor!
Lucas e Gabriela não conseguiam conversar sem discordar. Era assim com tudo, tudo mesmo. Desde comida até política. Gabriela gostava de pizza, Lucas detestava e achava que ela comia carboidratos demais. Lucas fazia basquete, Gabriela odiava esportes. E mesmo sendo tão errado, eles pareciam tão certos juntos. E todas as brigas e discussões eram silenciadas com um beijo. Às vezes dois, às vezes mais que isso.
Ela era dele. Ele era dela. Eles eram um! E isso era a única coisa em que eles concordavam. O mundo de Gabriela passou a ser Lucas e o relacionamento que eles tinham. E o mundo de Lucas passou a ser a sua doce Gabi, e o amor que os unia. Tudo o que Lucas pensava e fazia, era por ela, pra ela. E com ela acontecia a mesma coisa. Eles deixaram de ser cada um deles e passaram a ser os dois! Juntos, unidos. Em tudo. Pra sempre.
Os primeiros meses vieram e com eles as novas descobertas. Viveram tanto juntos, tanto tempo… Anos passaram, brigas passaram, confusões passaram, discussões passaram. O amor… Passou. Sim, o amor passou. E eles continuaram juntos, perguntando-se se aquele era o fim do “pra sempre” prometido durante anos. De repente o “te amo mais que tudo” restringiu o tudo à coisas tão pequenas que não adiantava repetir isso dia após dia. E as brigas passaram a ser constantes. Eles precisavam de coisas que já não podiam mais se dar. E então tudo aconteceu! Mais brigas, berros, tapas, choros, traições, decepções, sofrimentos… Tempo. O tempo aconteceu.
Mais um ano se passou. Gabriela já não era mais a menina de antes, Lucas já não era mais o garoto de antes. Eles tinham crescido, amadureceram. Já não havia lágrimas no rosto de ambos, nem sofrimento, nem raiva. Véspera de ano novo duas pessoas - que já tinham sido apenas uma – encontram-se.
Lucas estava com uma nova namorada, abraçava-se com ela da mesma maneira que era com Gabriela, envolvendo-a totalmente, como se nada pudesse desunir aquele abraço. Gabriela caminhava sozinha, com seu mp3. Eles olharam-se por instantes, sorriram um para o outro e continuaram seu caminho. Naquele momento os anos que passaram juntos estampavam o olhar dos dois. Eles sorriram por relembrar as boas lembranças, os ótimos momentos que compartilharam. Gabriela balançou a cabeça, como quem se livra de um passado distante e continuou andando, com um sorriso ainda maior no rosto. Lucas olhou para trás rapidamente e viu que Gabriela não fez o mesmo. Sorriu-se e abraçou sua nova namorada mais forte.
Lucas e Gabriela amaram-se, brigaram-se, uniram-se, tentaram-se, perderam-se. E descobriram que precisavam de apenas uma coisa para seguir suas vidas. Deles mesmos.
O reveillón daquele ano não poderia ter sido melhor.

No Worries.

Publicado em Trilha sonora. por Manoela em Novembro 9, 2008

“Times like these we’ll never forget
Staying out to watch the sunset
I’m glad I shared this with you
You set me free
Showed me how good my life could be
How did you happen to me?”

*No Worries – McFly

- Ei, o que você vai fazer hoje de noite? – um Ferdinando empolgado pergunta no telefone enquanto Catarina ajeita os cabelos num belo rabo de cavalo, equilibrando o celular entre a orelha e os ombros, toda torta.
- Ah, acho que nada. Quer fazer alguma coisa? Eu tô com vontade de sair e milagrosamente estou quase pronta! – ela responde rindo quando percebe o telefone quase cair e o ajeita, segurando-o com uma das mãos enquanto dança pelo quarto.
- Estou passando aí em dez minutos, vamos tomar sorvete na praia. Ainda dá tempo de ver o pôr-do-sol! – Ferdinando levanta-se de sua cadeira e olha pela janela, conferindo o tempo. Seria um pôr-do-sol bonito…
- Até daqui um pouco então! Beijos, Ferd – Catarina desliga e corre pro banheiro. Ela não estava satisfeita com os cabelos, no fim das contas.

***

Catarina e Ferdinando são dois jovens paulistas que moram na cidade de Santos. Costumavam sair muito para caminhar na praia, era algo que os dois gostavam de fazer. Ferd, como ela o chamava, amava surfar e já disse que a ensinaria a fazer isso. Táta, como era chamada por ele às vezes, não queria fazer isso. Ela sequer se imaginava de pé numa prancha. Sem falar no medo que tinha do mar. Ela o adorava, mas tinha medo de um dia ser sugada por ele.
Nos últimos tempos eles tinham se visto bastante. Ambos estavam superando o fim dos seus respectivos relacionamentos. Ela tinha terminado algumas semanas antes dele, mas o relacionamento dela tinha acabado de uma maneira triste… O ex tinha viajado pra nunca mais voltar e a tinha abandonado, do nada. “Talvez tenha sido mesmo melhor assim, Táta”, o amigo consolava, dias depois do ocorrido enquanto a garota segurava as lágrimas. Depois foi a vez de Ferd. Ele terminou o relacionamento dele porque as coisas não estavam mais como antes e eles já não eram mais namorados. Eram apenas amigos que se beijavam… E as brigas superavam os momentos bons. Porém, da mesma maneira, ele não tinha mais contato com a ex. E Catarina o consolou dizendo que tudo ia acabar bem… Porque isso sempre acabava acontecendo de uma maneira ou de outra. E que os dois iam acabar crescendo. Ferdinando riu, guardando para si a piada sobre os 150 centímetros da menina.

***

A campainha da casa de Táta toca e ela desce as escadas correndo.

- Mãe, eu vou sair com o Ferd! Volto cedo, qualquer coisa eu ligo, beijo e tchau – corria para a porta com seus chinelos e ajeitando o vestidinho fresco que colocara para passear. Tinha feito as pazes com o cabelo, usaria solto.
- Uau! Não se atrasou, Catarina. Que milagre é esse? – Ferd ria enquanto abria o portão da casa da garota, deixando-a sair e fechando-o em seguida. A menina sorria para ele e depois mostrava a língua levantando um dos pés para alcançar o rosto do garoto – que possuía alguns trinta centímetros a mais que ela. Dava-lhe um beijo no rosto e cruzava os braços, fazendo um bico.
- Não precisa ficar me zoando, Ferd. Eu disse que já estava pronta, caso contrário acho que me atrasaria como das outras vezes! – ela ria e começava a andar com o garoto. Eles sempre tinham se dado tão bem! Desde o começo tinha sido assim. Só que na época em que eles se conheceram ambos namoravam. E ambos respeitavam isso, eles sempre foram apenas amigos.

A praia se aproximava conforme os passos dos dois se apressavam. E lá estava o mar para fazer com que eles se sentissem melhor. Ele estava calmo e era um belo final de tarde. O sol estava quase se pondo e Catarina sentava-se, em cima da camiseta de Ferd, de frente para ao mar. O garoto levantou-se e comprou picolés para eles enquanto conversavam e riam. Eles pareciam um casal de recém-namorados. Exceto pelo fato de que eram amigos e o garoto nunca deixava de zoar a menina. E a garota o sujava com o seu sorvete às vezes. O pôr-do-sol se aproximava e Táta abraçou Ferd, deitando sua cabeça nos ombros dele e colocando seus braços por volta da cintura do garoto. Ele deixou que os ombros da garota fossem envolvidos pelos seus braços e deu-lhe um beijo na cabeça, protegendo-a da brisa fresca que o mar trazia até eles.
O mar e o sol estavam quase se tocando quando então aconteceu. Catarina levantou a cabeça e encostou o nariz no queixo de Ferdinando, que continuou olhando o horizonte, alheio à movimentação da garota. Ela deixou as mãos apoiadas na areia e subiu o rosto devagar… Tão devagar quanto o sol aproximava-se do mar para então deixar a noite tomar conta do céu – que tinha uma cor meio alaranjada agora. Os lábios dos dois se encontraram e um beijo aconteceu. Os olhos dos dois fecharam e eles não apreciaram o pôr-do-sol. Ferdinando caiu de costas na areia e Catarina caiu por cima dele, ambos reabriram os olhos e começaram uma risada gostosa. A menina escondeu o rosto por baixo do queixo do garoto enquanto ele olhava para cima e lhe acariciava as costas. O céu nunca havia estado tão estrelado quanto naquele dia.

Resposta à carta de uma pessoa querida.

Publicado em Palavras desprovidas de sentido. por Manoela em Setembro 20, 2008

Gustavo,
Eu queria saber como começar esse texto, mas não consigo. Simplesmente não sei o que te dizer. Tua carta me pegou completamente desprevinida. Agora eu estou sendo embalada pelas vozes de três irmãos que dizem que essa noite eu vou voar. E, na verdade, eu já fiz isso. Mas as lembranças insistem em me seguir aonde quer que eu vá. Eu sorri com a tua carta e com a maneira como você encaixou as palavras e fez com que elas me confortassem.
Sim, é maravilhoso na California. Aqui o sol sempre resolve aparecer e isso me lembra o Rio, às vezes. Eu fico imaginando como seriam as coisas se eu estivesse aí… Ou se você estivesse aqui. Eu sinto tanto a tua falta… Tanto. Talvez eu tenha errado nas minhas escolhas… Acho que eu acabei fazendo tudo errado. E no final, as coisas acabaram dando certo, mesmo assim.
A viagem me foi conveniente porque depois de tudo o que aconteceu, fugir me pareceu o mais certo a fazer. Porém percebi que, mesmo em outro continente, meus pensamentos não mudaram. Eu estou tão presente no Rio quanto você está presente aqui, Gu.
Eu não vou te esquecer e você sabe. Espero que a minha ausência física não faça com que você esqueça de mim. A garota dos cabelos iluminados continua sorrindo feliz ao lembrar do guri que possui os olhos mais transparentes do mundo. Azuis, verdes… Claros! Tão claros que são capazes de espelhar o mundo ao meu redor.
Obrigada pela carta e pelas palavras que você julga serem desimportantes. Você não sabe o quanto elas têm importância pra mim. Até daqui um pouco. Bem pouco.
Manoela.

- Carta à uma pessoa querida: http://dozemetros.blogspot.com/2008/09/aula-de-portugus-170908-redao-tema_19.html

Segunda-feira.

Publicado em Re-sentindo pensamentos. por Manoela em Setembro 9, 2008

Era noite… A fria noite de uma segunda-feira comum. A ressaca do final de semana ainda surtia efeito naqueles corpos pouco acostumados à rotina das aulas. É o início do ano letivo e todos tentam se desacostumar da vida que levavam nas férias. Há uma roda de amigos conversando na frente da faculdade de letras. Contam suas aventuras, divertem-se com isso. Entre eles há uma menina. Uma menina pouco alta, com iluminados cabelos loiros. Ela usa uma franja reta que lhe tapa a visão e encobre seus belos olhos verdes (ou seriam eles azuis?), também escondidos por óculos de armação preta que lhe dão um ar de intelectual. Aparentava mais idade do que tinha, aparentava ser mais feliz do que era. Seu nome era Manuela, mas todos a chamavam de Manu. Ela estava esperando sua carona, como fazia todos os dias. Ria e fazia rir.

Noite, era a mesma noite de segunda… Uma outra menina se aproximava do campus aonde Manu e seus amigos conversavam. Ela estava razoavelmente distante… Mas Manu avistou-a. Aquela menina era Aline. E Manu fica pasma em saber que ela era igual à descrição dada por ele. Não era nem alta nem baixa… Como Manu dizia, “era alta o bastante para alcançar as prateleiras de chocolate no supermercado e baixa o bastante para que todos os garotos fossem mais altos que ela”. Seus olhos eram grandes e lembravam jabuticabas brilhantes… Tinha os cabelos esquisitos, usava franja de lado, seus traços eram grosseiros, mas ela era estranhamente bonita. Usava sapatos do tipo boneca, fazendo-a parecer mais pueril do que de costume. Não era do tipo que chamava muita atenção e aparentemente, gostava disso. A maneira como ela anda olhando para seus pés e se escondendo atrás de seus cabelos faz com que as pessoas acreditem em alguma ingenuidade.

Ela caminhava na direção da turma de Manu e esta, por sua vez, não parava de olhar Aline. Finalmente Aline passa por eles, sem sequer notar Manuela observando-a atentamente. Ela segue seu caminho, indiferente à turma de amigos, que agora ri de seu suéter rosa, completamente fora de moda. Aline se perde entre as outras pessoas e os carros que passam pela rua naquele momento. Neste momento, Manuela não pode mais avistá-la, porém ela continuava a pensar.

Manuela poderia dizer tudo sobre Aline. Desde os seus gostos musicais até a maneira como sorria e passava a mão nos cabelos, levando a franja a esconder o brilho de seu olhar preto-jabuticaba. Aline não sabia da existência de Manu, mas Manu sabia muito mais do que gostaria sobre a sua vida. Sabia que gostava de rock pesado, sabia que ambas tiveram mais ou menos a mesma criação, o que fazia das duas mais próximas do que se imagina… Manu também sabia que ela se sentia atraída por meninos de cabelos compridos e que gostava de usar roupas cheias de babados. Essas roupas faziam parecer que ela era uma menina doce e delicada… E talvez, por baixo da máscara de menina má que ela usava, existisse uma menininha indefesa mesmo.

Manuela sabia de Aline por causa dele. Ele que a descreveu tão bem… Guilherme. A fina corda que faz da vida de Aline e Manuela uma só. Aline e Manuela eram duas meninas diferentes, mas que se vistas sob o olhar profundo de um bom observador pareceriam iguais. Mas não tão iguais ao ponto de despertar a paixão do mesmo rapaz.

Aline já tinha sido louca por Guilherme, apaixonada por ele. Num tempo muito distante ela disse que o amava… Se nem naquela época isso era verdade, não seria hoje que essa idéia se convalesceria. Ela continuava vivendo. “Guilherme? Hum… foi bom. Próximo”. Guilherme não pensava o mesmo que ela. Ele ainda se prendia a esse relacionamento acabado, queria trazer à tona sentimentos que não existiam mais, sentimentos que não eram mais recíprocos… E então, a inocente Manu entra na história.

Quando Manuela conheceu Guilherme, ele queria esquecer da ex. Queria conhecer uma menina legal que o fizesse ver que a vida não tinha acabado porque um namoro havia terminado. E Manuela parecia ser esta menina. Eles conversavam muito e Guilherme começara a gostar de Manu. Ela estava encantada com ele… Um veterano de Jornalismo que fumava e bebia muito, cheio de problemas, mas que parecia um bebê quando sorria. Depois de muitas indiretas, os dois finalmente beijaram-se. É, eles faziam um casal bonito. Davam-se muito bem, parecia tão certo… Eles tinham que permanecer juntos! Mas as coisas certas não pareciam atrair Guilherme…

Uma semana. Demorou uma semana para o fantasma da ex perturbar Guilherme. Ele gostava de Manu, mas ela nunca seria Aline… E ele amava Aline. Guilherme sentou-se com Manu e disse a ela tudo o que estava acontecendo, contou de Aline e de tudo o que sentia. Ele realmente se preocupava com Manu e não queria magoá-la, ela não merecia. Manu aceita isso sem dizer nada, afinal não havia nada que ela pudesse fazer.

Longe dos olhares preocupados de seus amigos, Manu chorou tanto que neste dia dormiu de cansaço. Ela seguiu a sua vida, se é que podemos chamar assim. Cada dia amava mais Guilherme. Ele podia desarmá-la com o mais singelo toque, ele a tinha nas mãos. Os dois continuaram amigos. Talvez estivessem mais amigos do que antes… Talvez este tenha sido o maior erro de Manu.

Noite, aquela mesma fria e tediosa noite de segunda-feira. Aline segue sua vida, chega ao seu destino, sem mudança nenhuma em sua vida. A carona de Manuela chega e ela se despede de seus amigos. Ela segue para sua casa pensando… Pensando no encontro que tivera com aquela estranha tão bem conhecida. Aquele fantasma que tanto a atormentava e que, naquele dia, reviveu lembranças doloridas… Aquela menina que inevitavelmente a fez pensar, por entre lágrimas silenciosas e cúmplices daquele amor puro e não-recíproco: “Por que ela? Por que não eu?”.

Escrever “amor” nos braços dela.

Publicado em Re-sentindo pensamentos. por Manoela em Agosto 5, 2008

Victoria desliga o telefone e pensa alguns segundos. Seu copo de água permanece sob a mesa, ela apaga as luzes e sai. Era seu namorado, Lucas, no telefone. Depois de três dias em silêncio, eles decidem que têm que conversar. Combinam de se encontrar em um barzinho próximo ao centro de São Paulo. Iam ali sempre, era realmente um local bastante agradável. Como sempre, Victoria chega antes. Tinha sido assim durante todo o namoro, e ela não se importava muito com isso. Lucas chega um pouco depois. Ambos se cumprimentam com um “oi” meio tímido e dão um selinho apenas. Nada de “eu estava com saudade blá-blá”. Pareciam dois estranhos.
Lucas começa falando. Victoria não sente vontade de falar, mas ouve com atenção àquele rapaz tão bonito que está na sua frente. Falam sobre os seus trabalhos, a sociedade em geral, política, futebol… E não comentam nada sobre eles e aquela situação ridícula que os envolve. Anos de convivência para uma “conversa de elevador”? Não podia ser assim.

- Bom, eu acho que é hora de falarmos de nós dois, não é? – começa Victoria, tensa.
- É, eu acho que sim. Afinal é isso que viemos fazer aqui…
- Bem, pode começar.

Lucas não sabe bem o que dizer… Sabe que é sua culpa. Sempre é. Ele não sabe como consegue brigar tanto com alguém que ele ama mais que a ele mesmo.

- Bom, Vick, me desculpe. Eu te amo demais. Perdoe aquelas coisas horríveis que eu disse naquele dia. Eu… Eu estava de cabeça quente, e eu sei que isso não justifica, mas é só o que eu posso fazer.
- Você sempre faz a mesma coisa. Durante todos esses anos têm sido assim. Você me ama, e me leva ao céu todos os dias. Mas faz com que eu me sinta péssima durante a maior parte do tempo. Eu passo mais momentos chorando por sua causa do que rindo com você! E está começando a ficar cansativo… – Ela estava disposta a resolver tudo naquele momento.

Lucas se vê sem saída. Será que ela quereria terminar? Será? Não, não é possível! Ela o ama, não é?

- Mas eu não faço por querer, é que eu não penso antes de falar… Eu sinto muito mesmo. Não vai…
- “Não vai mais se repetir, Victoria, eu te prometo.” – Completa Vick, nervosa. – Isso é tudo o que você sempre diz. E eu vim aqui querendo ser surpreendida.

Victoria não pode enxergar sua vida sem Lucas. Eles eram tão bons juntos. Mas o estado de tristeza constante em que ela se encontrava deixava-a com medo, ao mesmo tempo em que ela não gostava de estar assim todo o tempo. Ela o amava demais. Acreditava ter encontrado o amor de sua vida, realmente.

- Mas esse é só o que eu sou, Vick! Eu não posso fazer mais nada!! Te peço perdão e espero que me perdoe. Só posso dizer que não vai mais acontecer. Eu não vou mudar meu jeito por você. – Lucas mal acredita no que acaba de falar.

- Ah é? Então vai. Comece a fazer o que você queria ter feito desde o início. Faça meu rosto ferver como se ele nunca tivesse estado tão quente antes. Eu sei que você pode fazer isso. Permaneça sugando meus pensamentos e eliminando as palavras da minha boca. Inspire todo o meu ar e me tire todo o oxigênio necessário para que a minha existência se perpetue. Coma a minha comida, beba a minha bebida. Não me ofereça sequer migalhas suas, não preciso mais desse seu gosto amargo na minha boca. Faça-me esquecer do toque da sua pele na minha. Arranque meu coração de uma vez e nunca mais torne a fazê-lo bater. Dissipe rapidamente todas as lembranças que envolvam você. Torne-me um ser inanimado, incapaz de ter pensamento algum, completamente desmemoriado. Retire todos os beijos, apague todas as noites, revele todos os defeitos. Solte minhas mãos e me deixe ir.

O que ela mais temia tinha sido dito. Victoria finalmente disse tudo aquilo que estava entalado na sua garganta.

- Tudo bem então. Mas nunca se esqueça de que eu te amo. E que nunca vou te esquecer. Estarei sempre esperando o momento em que você verá que eu estou certo.

Lucas solta a mão de Victoria.

- Não espere. Não vou voltar. – Victoria diz, antes de pegar sua bolsa e sair.

Ela entra em seu carro e começa a chorar enquanto procura o lugar de colocar a chave para que possa ir embora. Ela não acreditava no que havia acabado de acontecer. No fundo, ela já sabia que seria assim. Mas ele sequer tentou detê-la. E ainda acha que está certo.

Lucas telefona para Victoria enquanto anda para sua casa. Ninguém atende… Ele decide esperar até o dia seguinte para falar com ela.

Victoria chega à sua casa. 13 mensagens em sua caixa postal. Entre a voz de Lucas, convites para festas e seu gerente pedindo para ela ir ao banco, ela decide tomar banho. Precisava se livrar daquela sensação horrível.

Lucas decide ir à casa de Victoria, ele havia errado, afinal. Precisava tê-la de novo em seus braços.

Após o banho, Victoria abriu o armário para pegar sua pasta de dentes. E encontrou uma lâmina de barbear, e a foto dela e de Lucas juntos, sorrindo. Atrás da foto estava escrito: “Eu te amo e é pra sempre. Não importa o que eu faça, não importa o que eu diga. Eu te amo e é só o que importa. Você é tudo o que me importa. Never forget. Lucas”. Victoria passou um tempo lendo aquelas palavras e refletindo com elas… Pegou a lâmina e se sentou um pouco. Ela o amava. Ele não podia ser passado na vida dela, nunca poderá ser assim. E ela finalmente se deu conta disso. Mas ela não agüentava mais chorar e sofrer por tudo isso…

Lucas chega. Toca a campainha e ninguém atende, a porta está trancada. Ele pega a chave-reserva embaixo do tapete. Chama por Vick e ninguém responde… A torneira do banheiro parece estar aberta. Ele vai até lá. A porta está trancada, ele chama Victoria e ela não responde. Lucas começa a ficar mais preocupado e então arromba a porta. E lá estava Vick, deitada no chão. Segurava a foto dos dois em sua mão esquerda e apoiava-a no peito. A lâmina estava jogada ao lado do seu corpo envolto naquela toalha branca. Seus cabelos ainda estavam molhados. Sua mão direita estava esticada ao lado do seu tronco. E havia um líquido vermelho embaixo dele. Seu pulso estava repleto de cortes. Todos eles eram iguais. Era a palavra “AMOR” escrita muitas e muitas vezes. Ele não acredita no que está vendo. Pega água para tentar acordá-la e ao olhar para a pia vê uma caixa de remédios vazia… Ele deita-se ao lado daquele corpo pequeno, frágil e frio e dorme ao lado dela. Como fizeram tantas outras vezes durante os anos de namoro…

E então, Victoria finalmente escreveu amor em seus braços… Pra sempre.

Samantha e a cidade.

Publicado em Diário de Manoela. por Manoela em Maio 23, 2008

O dia amanhece na cidade desconhecida. Uma menina segura sua mala e caminha até o táxi mais próximo. As pessoas a observavam, curiosas. Ela não era dali. Definitivamente era uma turista. Com suas botas peter pan, seu casaco preto com as mangas puxadas até as mãos, cabelos lisos e uma franja encobrindo o olhar triste e choroso, a menina cantarolava músicas que pareciam fazer sentido para ela. Seu olhar encontrava placas, árvores e pessoas que ela nunca havia visto. Ela olhava todas as coisas ao mesmo tempo, e não prestava atenção em nenhuma delas. Ela não deveria estar ali. Ela não queria estar ali.

- Samantha, me dá sua mala. – sua mãe dizia ao longe… Ainda que estivesse ao seu lado.

A menina olha para ela, entendendo o que a mãe queria através de sua linguagem gestual. Ela não podia ouvir nada, além do volume máximo de seu mp3 que tocava a música de uma banda emo. Ela sofria, e as músicas expressavam isso.

- Você quer ir na frente? - a amiga de sua mãe lhe perguntava, enquanto se acomodava no banco de trás do táxi. 

Sam sentia o motorista estudando-a. Deveria estar pensando porque aquela garota bonita estava com um olhar tão triste. Mal sabia que estava errado. Sobre a garota ser bonita, no caso.

- Pra mim tanto faz. – ela respondeu, baixo.
- Ah, tudo bem então. Vá na frente.

E então a porta de trás se fechou. A garota ficou alguns instantes observando aquela cena e sorriu. Era inacreditável como as pessoas não percebiam que nada daquilo fazia diferença alguma. Sam sentou-se na frente, colocou o cinto e trocou a música. Era uma música feliz demais para a ocasião.

Os minutos passavam e o destino não chegava jamais. A garota se perguntava aonde era o hotel aonde eles passariam os três dias seguintes. Parecia que seriam os três dias mais longos da vida dela. “Eu já passei por aqui… Olha, que casa legal! Caramba, ainda tem lua no céu! Mas já é de manhã e… Droga, a lua! Mas que saco! Estou com saudade.” Eram esses os pensamentos que passavam pela mente daquela garota estranha e calada sentada ao lado do motorista.

- Mãe. – a menina tirava o fone e perguntava.
- Oi. Fala, Sam
- Que horas a gente vai? – o tom de voz da menina era mais calmo e mais baixo do que o normal. Estava triste. E fungava o tempo todo, evidenciando as lágrimas que havia chorado um pouco antes.
- Que dia a gente vai aonde? - a mãe da menina sorriu e perguntou.
- Embora, mãe. Que horas a gente vai embora?
- Embora? – a mãe respondia sua pergunta, com outra pergunta. Isso deve ser hereditário, Samantha fazia exatamente o mesmo, o tempo todo.
- Sim, mãe. – a garota respirou profundamente e olhou para trás, encontrando seu olhar com o da mãe – Que horas nós vamos embora pra casa?

A menina notou o motorista olhando para ela. Ela mal havia chegado e perguntava para a mãe quando voltaria. Deve ser esse o motivo do olhar triste, ele deve ter pensado. Aposto que notou que a garota permanecia com o mesmo olhar.

- Na mesma hora em que saímos de casa. 22h00. Sairemos do hotel depois do jantar, no sábado. - a mãe respondeu com um tom de voz mais sério. Não gostava de ver a filha perguntando-lhe à que horas iria embora… Elas haviam chegado agora!
- Ah tá. - Sam colocou os fones de novo e olhou pela janela. A lua ainda estava lá. A mesma lua que a garota havia observado antes de sair de casa, aquela que a observou durante todo o trajeto. Finalmente um sorriso apareceu em sua face. Sua saudade fazia com que se sentisse confortável, às vezes.

Chegaram no hotel, finalmente. Ele era lindo, a garota não podia negar isso. A cidade parecia bonita também. E algumas palavras do motorista aqueceram-lhe o coração. Ela mal havia entendido o que ele tinha acabado de falar, mas o sotaque dele era algo que ela podia escutar durante horas, ainda que não falasse nada de útil. “Ótimo. Alguma coisa boa nessa cidade”, a menina pensava. Ela estava sendo injusta, e sabia disso. Mas a saudade doía, e ela ainda não sabia lidar com essa dor.
“Três dias. Tá, vamos parar para pensar. A gente chegou hoje. Temos o dia de hoje, o de amanhã e o sábado inteiros pela frente. Sábado de noite vamos embora. Não vai demorar tanto. Se pararmos para pensar, vou passar dois dias inteiros aqui. Dois dias sem… Droga. Mil vezes droga. Odeio esse lugar.”

- Vamos tomar café? – a mãe perguntou, dissipando o pensamento paradoxal da garota.
- Pra mim tanto faz. Não tô com fome. - Sam respondeu sem tirar os fones do ouvido. Ela não demonstrava interesse em participar da conversa, em aproveitar a viagem. Ela queria voltar, ainda que não encontrasse braços abertos para esquentá-la na volta. Nem mesmo ela sabia porque sentia tanta necessidade assim de voltar. Um computador é tudo que ela precisava. Mas… A saudade doía, machucava mesmo. Só alguém que já sentiu essa dor pode saber como é.

Samantha olhava, agora com atenção, para todos os lugares. As placas do hotel estavam escritas em alemão. ”Qual será o significado disso?”, ela pensava. Adorava alemão. Não o entendia, mas achava bonito. A decoração do hotel era simples, o lugar era completamente aconchegante. Era como estar em casa. Tirando toda a coisa de não estar em casa. Samantha não esquecia isso um segundo sequer.

As pessoas receberam-na com todo carinho e pareciam mesmo fazer de tudo para colocar um sorriso na face da garota. Por fim ela foi vencida. Chocolate sempre a fazia sorrir. E suco de morango também. Ela comia sorrindo.
Sozinha. Tudo o que ela não precisava ficar era assim. Quando se distraía parava de pensar na dor que a incomodava sempre. A garota estava se acostumando… Iria doer até a volta. Começou a chorar novamente.
Sam estava aonde sempre quer estar. Algo que ela dizia sempre é que poderia ir até o fim do mundo, desde que tivesse um mp3, pilhas e um pacote de bolacha. As pessoas riam dela, mas ela falava sério. Suas lembranças a manteriam viva, assim como estavam fazendo naquele momento. Ela chorava pois as lembranças nunca a deixavam em paz. E ela achava isso maravilhoso. Era ótimo pensar nas pessoas que amava… Mas doía (muito) estar longe delas.
Tudo o que a garota pensava fazia sentido e ao mesmo tempo parecia não fazer sentido algum. Ela sempre viajava, porque dessa vez fazia esse drama todo? Por que dessa vez doía tanto ter de deixar as pessoas que tanto amava? Ela não entendia. A música dizia em sua mente que ela não ama como amava ontem… Certamente ama mais. Ela só chorava. E sorria! A lua continuava brilhando no céu, observando-a.