Estávamos na sala de TV do clube. Eu e toda a turma da faculdade. Estávamos vendo um filme monótono e chato, e a única coisa na qual eu conseguia pensar era na minha dor de garganta, que insistia em aumentar a cada vez em que eu engolia um pouco de saliva. Decidi sair da sala para procurar algum remédio pra tomar. Até que fui surpreendida:
- Olha, eu tenho remédio aqui… E tem umas músicas pra relaxar. – Bruno falou, e parecia sincero.
- Ahm… Ok, eu vou até lá e volto… Preciso andar mesmo e tenho que procurar a Letícia. – respondi educadamente.
- Tudo bem então… Eu disse que tenho e tu vai sair, tá! – Bruno respondeu com raiva.
Eu apenas saí. Bruno tinha sido um amigo muito próximo mesmo, durante os quatro primeiros meses do nosso curso. Depois nós brigamos e nunca mais olhamos um na cara do outro. E agora, ele veio me ajudar. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas… Pena que meu orgulho permanecia em mim. De qualquer forma, eu tinha mesmo que procurar a Lê.
Caminhei pelo clube e vi o resto das pessoas da classe que não estavam lá vendo aquele filme horrível. Muitos bêbados, outros na piscina, alguns xavecando… Mas todos felizes! E eu ali, com aquela maldita dor de garganta. “Eu tinha que pelo menos beber água…”, era o que pensava.
Lembrei-me de que o bebedouro do clube ficava perto de onde estava e fui até lá. A água nunca foi tão saborosa! É uma pena que eu tenha ficado com sede no instante seguinte àquele pelo qual a água passa pela minha garganta. “Como eu odeio ter dor de garganta, meu Deus!”, bufava.
Não muito longe dali ficava o banheiro… E eu ouvia berros e risadas. A minha curiosidade não me deixou alternativa, e eu fui até lá, ver o que estava acontecendo. Era no banheiro masculino… Mas eu entrei mesmo assim.
Logo que abri a porta, me deparei com duas meninas correndo uma atrás da outra… As duas nuas e sorrindo. Eu já as tinha visto por aí (com roupas, claro)… Elas eram melhores amigas. Uma delas até namorava com um menino que é amigo do amigo de um amigo meu. Elas me cumprimentaram, como se o que estivesse acontecendo fosse a coisa mais normal do mundo. E eu ali, abismada e sem saber o que fazer.
Elas continuaram correndo enquanto conversavam comigo. Eu queria saber o que elas faziam ali, porque não estavam no banheiro feminino, e onde estavam os meninos (afinal de contas, o banheiro era masculino, e havia apenas duas meninas ali?). Elas me responderam algumas coisas, mas resumiram dizendo que tudo aquilo era divertido e elas estavam entediadas. E mais, queriam que eu as acompanhasse! Eu disse que não, mas elas estavam tirando toda a minha roupa. Deixaram-me apenas com as roupas de baixo. Eu peguei uma toalha, me enrolei nela e fiquei parada, sem fazer nada. Estava morrendo de vergonha… “E se algum menino entrar?”, era tudo o que pensava. Eu me esgueirei em uma das portas do banheiro e, de repente, ela abriu.
Quando abri os olhos percebi que meu corpo estava envolto por braços fortes e morenos. Era um menino! E ele sorria pra mim.
- Você estava escutando toda a conversa? – perguntei sem graça, enquanto arrumava a toalha e saía dos braços dele.
- Digamos que vocês não falam tão baixo quanto gostariam. – ele respondeu, sorrindo.
Aquele menino não me era estranho, mas eu não lembrava de onde o conhecia. Eu podia jurar que ele era um amigo do meu irmão… Mas ele podia também ser um calouro da faculdade. Não me importava. Ele era lindo! Moreno, alto, cabelos raspados (por isso a semelhança com um calouro), um corpo definido que podia ser visto por debaixo da regata branca que ele vestia. Dono de um sorriso incrível e de um charme irresistível. Ele já tinha me ganhado, e só tínhamos trocado uma frase.
- Ah… Entendi. Bom, minhas roupas estão lá fora… E eu só saí pra procurar a minha amiga e um remédio para garganta. E agora preciso de um banho e de umas roupas.
- Bom, ali tem um chuveiro… E eu posso te emprestar umas roupas minhas depois que você tomar banho. Eu tenho uma bala de morango, se você quiser. E puxa, você não lembra de mim mesmo, Juliana? – Ele sorria enquanto falava meu nome. E eu derretia, é claro!
- Normalmente eu diria que não esqueceria um rosto (principalmente como o seu, eu completaria. Mas omiti esse detalhe), mas eu realmente não lembro de você. Mas tive a impressão de que te conhecia de algum lugar mesmo. – “Eu sabia!”, gritei mentalmente.
- Meu nome é Luiz Henrique, e eu era da classe do seu irmão na escola. Agora, sou calouro da sua faculdade. O que faz de você a minha veterana. – ele disse, olhando fixamente para mim, com um sorrisinho de canto de boca.
Eu nem o conhecia direito… Mesmo que soubesse quem ele era (depois que ele falou, eu lembrei dele direitinho), eu nem o conhecia. Mas ele me atraía de uma maneira…
- Olá! Nossa, lembrei agora! Na verdade, eu estava em dúvida sobre de onde te conhecia, mas agora lembrei mesmo. Quanto tempo! – eu disse, enquanto eu me aproximava para dar-lhe um beijo no rosto. Ele permaneceu da mesma maneira, de modo que eu beijaria seus lábios caso não virasse a cabeça. E eu não queria virar. Eu não conseguia mudar a posição dela. Eu não virei.
- Oi, Jú! – ele virou o rosto e me beijou a face, rindo.
- Eu poderia ter beijado a sua boca, Lú. Não ficaria triste. – eu disse, sem me reconhecer.
E então, mais do que de repente, ele sorriu e me beijou. Eu sorri e o beijei de volta, obviamente. Era um beijo doce e lento. Parece que ele lia meus pensamentos enquanto me beijava. Com as bocas grudadas uma na outra, ele sentou-se na cadeira que estava no meio de nossas pernas, enquanto eu me inclinei sobre seu corpo. Ele acariciava minhas pernas enquanto nos beijávamos, e eu passava minha mão sobre seus peitos, sobre seu pescoço e sobre seu rosto. A toalha que me envolvia já estava caída no chão. Eu fazia um esforço enorme para tirar a regata que ele usava sem parar de beijá-lo. Eu o sentia rir da minha tentativa frustrada e então suas mãos me ajudaram com isso. Larguei aqueles lábios deliciosos por alguns momentos, apenas para observar aquele corpo lindo. Ele olhava pra mim de um jeito que fez com que eu ficasse sem graça, só de imaginar no que ele poderia estar pensando enquanto me via ali na frente dele, vestida (ou despida!) daquele jeito… Voltamos ao beijo então. Ele aumentava o ritmo do beijo, toda vez que a sua mão subia nas minhas pernas, e eu, diminuía o ritmo do beijo, afastando sua mão do laço da minha calcinha. Eu poderia ter ficado ali o beijando por um longo tempo. Estava quase sem fôlego e mal conseguia respirar… Mas poderia morrer nos braços daquele menino. E ele era mesmo um menino.
Escutamos um barulho e logo paramos de nos beijar. Ambos ofegantes. Ele levantou-se e foi para a janela, com sua mão sobre a testa, secando o suor. Eu caminhei até a porta, encostei-me nela de costas e deslizei até o chão, com as mãos no sutiã, colocando-o no lugar. Já sentada, eu tentava disfarçar as bochechas coradas, o coração disparado, a respiração ofegante e todo o corpo trêmulo. Arrumava os cabelos, que estavam bagunçados. “Como ele pôde fazer tudo isso se eu estava guiando as mãos dele?”, eu pensava incrédula. Mas feliz.
Um silêncio tomara conta da sala. Eu estava esperando que ele me agarrasse loucamente e que continuássemos nos beijando até o dia em que ambos ficássemos desidratados. Mas ele estava tão quieto, absorto em suas reflexões de fronte ao espelho.
- Bom, pelo menos eu não vou ficar com vergonha se você me vir pelada. Já me viu assim indiretamente mesmo! – eu disse rindo, enquanto ele me olhava quieto. – Enquanto você fica aí refletindo… Eu vou tomar banho, ok?
- Vai lá, moranguinha! – ele acenou e sorriu. Colocou uma das mãos na cintura e passou a outra mão nos cabelos, deixando-me louca para pular naqueles braços novamente.
Eu tirei a pouca roupa que ainda me restava no corpo e fui tomar banho. Eu não tive vergonha de me despir ali. E queria que ele fosse atrás de mim! É estranho pensar assim… Mas foi o que eu fiz naquele momento. Não havia tempo de pensar. Ele já havia dominado meus pensamentos.
E então ele ficou ali parado, pensando, enquanto eu fui tomar banho, também pensando. Perdida em meus pensamentos debaixo do chuveiro, deparei-me com os braços dele envolvendo meu corpo novamente. E sorri, ao perceber que a minha dor de garganta tinha desaparecido.