Andando pela rua com minha bolsa, meu all star e meu caderno repleto de recortes, estava distraída e ia para a faculdade. Sem relógio, caminhava calmamente, despreocupada com o horário em que chegaria à aula de Direito Penal. Sabia que chegaria a tempo de assistir à essa aula, de uma de minhas matérias preferidas.
A música “Os Outros” permanecia em minha cabeça e eu olhava as pessoas através de meus olhos quase cobertos pela franja. Enquanto seguia em direção ao canal 05, por uma extensa avenida, um cachorro cruzou-me o caminho.
Era um cachorro grande e seria bonito se fosse bem cuidado. Ele era alto e sua cabeça encontrava-se na altura de minhas coxas, sem que ele retirasse suas patas do chão. Era marrom, tigrado e um cachorro de rua. Possuía pequenas manchas beges pelo corpo e eu não ficaria pasma se o cachorro ficasse da minha altura quando estivesse sob suas duas patas.
Atravessava o canal 05 e já tinha avistado aquele cachorro na calçada, pensando comigo mesma: “Será que ele vai me morder?”. Esse medo existia em virtude de uma bela mordida no braço seguida de cinco doses de anti-rábica no mesmo dia, em meu terceiro ano. Em respeito àquele animal que caminhava livre e pomposamente, parei e o encarei, olhando seus carentes olhos sem brilho. O cachorro parou, estudou-me e não fez nada, de modo que eu sorri e continuei em meu caminho, permitindo tacitamente que ele fizesse o mesmo.
Porém, ele me seguiu. Eu disse à ele para ficar, para sair dali… Mas ele continuou me seguindo. Estávamos apenas os dois naquela calçada larga. Ele caminhava ao meu lado, e qualquer pessoa diria que o cachorro era meu. As outras pessoas que vinham nos fazer companhia às vezes, corriam seus olhos curiosas a fim de entender aqueles dois seres que caminhavam em sintonia.
Eu sorria enquanto ele, às vezes, se precipitava à minha frente, exibindo-se. Fingia não estar nem aí e olhava para os carros que passavam na rua, deixando-o triste. Ele então parava e fitava os olhos sobre mim, esperando-me. Eu o olhava pelo canto dos olhos e passava à sua frente, mostrando indiferença. Quando fazia isso, meu companheiro continuava parado, fazendo-me sentir sua falta ao meu lado. Olhava para trás e então ele vinha correndo em minha direção, continuando a caminhar. Posso jurar ter visto um sorrisinho irônico naquele focinho em uma das vezes em que fiz isso.
Dessa maneira seguimos o nosso caminho, que parecia levar ao mesmo lugar. Eu já estava até pensando em um nome para ele, tamanha a consideração que ele me arrancou em apenas alguns instantes. Eu estava feliz e perplexa com aquela situação. Jamais o havia visto, e ele já podia passar por meu! Ele deveria ter um nome forte, que condizesse com seu porte e sua aparência, inicialmente, amedrontadora. Porém, se você conseguisse olhar dentro dos olhos daquele cão, jamais poderia dar-lhe um nome desse tipo. Ele era um doce, extremamente carinhoso e possuía um olhar leal. Free. Livre, como o vento e como ele realmente o era. Era um nome que combinava com ele… Aposto que ele teria gostado.
Quando, finalmente, chegamos ao canal 04, Free esperou-me para atravessar, como sempre. Bastava que eu olhasse para ele, então ele parava, e ficava a esperar que eu fizesse menção a andar. Eu decidi virar no canal 04 e não mais seguir aquela avenida. Free decidiu que iria pela avenida, e atravessou sozinho, depois que eu virei no canal e antes que eu pudesse me despedir. Quando pisou na calçada, seguro, ele virou para trás e olhou-me por alguns instantes, enquanto eu fazia o mesmo, parada do outro lado. Ele percebeu que não iria com ele e virou-se, continuando seu caminho. Eu sorri sozinha, um pouco triste, e continuei caminhando para a faculdade.
A lembrança desse episódio ficará sempre guardada em minha memória, e Free será sempre uma companhia agradável para caminhadas. Esteja ele aonde estiver.
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