. caradepanela .
Manoela, você sabe que é mais bela do que elas…

Samantha e a cidade.

O dia amanhece na cidade desconhecida. Uma menina segura sua mala e caminha até o táxi mais próximo. As pessoas a observavam, curiosas. Ela não era dali. Definitivamente era uma turista. Com suas botas peter pan, seu casaco preto com as mangas puxadas até as mãos, cabelos lisos e uma franja encobrindo o olhar triste e choroso, a menina cantarolava músicas que pareciam fazer sentido para ela. Seu olhar encontrava placas, árvores e pessoas que ela nunca havia visto. Ela olhava todas as coisas ao mesmo tempo, e não prestava atenção em nenhuma delas. Ela não deveria estar ali. Ela não queria estar ali.

- Samantha, me dá sua mala. – sua mãe dizia ao longe… Ainda que estivesse ao seu lado.

A menina olha para ela, entendendo o que a mãe queria através de sua linguagem gestual. Ela não podia ouvir nada, além do volume máximo de seu mp3 que tocava a música de uma banda emo. Ela sofria, e as músicas expressavam isso.

- Você quer ir na frente? - a amiga de sua mãe lhe perguntava, enquanto se acomodava no banco de trás do táxi. 

Sam sentia o motorista estudando-a. Deveria estar pensando porque aquela garota bonita estava com um olhar tão triste. Mal sabia que estava errado. Sobre a garota ser bonita, no caso.

- Pra mim tanto faz. – ela respondeu, baixo.
- Ah, tudo bem então. Vá na frente.

E então a porta de trás se fechou. A garota ficou alguns instantes observando aquela cena e sorriu. Era inacreditável como as pessoas não percebiam que nada daquilo fazia diferença alguma. Sam sentou-se na frente, colocou o cinto e trocou a música. Era uma música feliz demais para a ocasião.

Os minutos passavam e o destino não chegava jamais. A garota se perguntava aonde era o hotel aonde eles passariam os três dias seguintes. Parecia que seriam os três dias mais longos da vida dela. “Eu já passei por aqui… Olha, que casa legal! Caramba, ainda tem lua no céu! Mas já é de manhã e… Droga, a lua! Mas que saco! Estou com saudade.” Eram esses os pensamentos que passavam pela mente daquela garota estranha e calada sentada ao lado do motorista.

- Mãe. – a menina tirava o fone e perguntava.
- Oi. Fala, Sam
- Que horas a gente vai? – o tom de voz da menina era mais calmo e mais baixo do que o normal. Estava triste. E fungava o tempo todo, evidenciando as lágrimas que havia chorado um pouco antes.
- Que dia a gente vai aonde? - a mãe da menina sorriu e perguntou.
- Embora, mãe. Que horas a gente vai embora?
- Embora? – a mãe respondia sua pergunta, com outra pergunta. Isso deve ser hereditário, Samantha fazia exatamente o mesmo, o tempo todo.
- Sim, mãe. – a garota respirou profundamente e olhou para trás, encontrando seu olhar com o da mãe – Que horas nós vamos embora pra casa?

A menina notou o motorista olhando para ela. Ela mal havia chegado e perguntava para a mãe quando voltaria. Deve ser esse o motivo do olhar triste, ele deve ter pensado. Aposto que notou que a garota permanecia com o mesmo olhar.

- Na mesma hora em que saímos de casa. 22h00. Sairemos do hotel depois do jantar, no sábado. - a mãe respondeu com um tom de voz mais sério. Não gostava de ver a filha perguntando-lhe à que horas iria embora… Elas haviam chegado agora!
- Ah tá. - Sam colocou os fones de novo e olhou pela janela. A lua ainda estava lá. A mesma lua que a garota havia observado antes de sair de casa, aquela que a observou durante todo o trajeto. Finalmente um sorriso apareceu em sua face. Sua saudade fazia com que se sentisse confortável, às vezes.

Chegaram no hotel, finalmente. Ele era lindo, a garota não podia negar isso. A cidade parecia bonita também. E algumas palavras do motorista aqueceram-lhe o coração. Ela mal havia entendido o que ele tinha acabado de falar, mas o sotaque dele era algo que ela podia escutar durante horas, ainda que não falasse nada de útil. “Ótimo. Alguma coisa boa nessa cidade”, a menina pensava. Ela estava sendo injusta, e sabia disso. Mas a saudade doía, e ela ainda não sabia lidar com essa dor.
“Três dias. Tá, vamos parar para pensar. A gente chegou hoje. Temos o dia de hoje, o de amanhã e o sábado inteiros pela frente. Sábado de noite vamos embora. Não vai demorar tanto. Se pararmos para pensar, vou passar dois dias inteiros aqui. Dois dias sem… Droga. Mil vezes droga. Odeio esse lugar.”

- Vamos tomar café? – a mãe perguntou, dissipando o pensamento paradoxal da garota.
- Pra mim tanto faz. Não tô com fome. - Sam respondeu sem tirar os fones do ouvido. Ela não demonstrava interesse em participar da conversa, em aproveitar a viagem. Ela queria voltar, ainda que não encontrasse braços abertos para esquentá-la na volta. Nem mesmo ela sabia porque sentia tanta necessidade assim de voltar. Um computador é tudo que ela precisava. Mas… A saudade doía, machucava mesmo. Só alguém que já sentiu essa dor pode saber como é.

Samantha olhava, agora com atenção, para todos os lugares. As placas do hotel estavam escritas em alemão. ”Qual será o significado disso?”, ela pensava. Adorava alemão. Não o entendia, mas achava bonito. A decoração do hotel era simples, o lugar era completamente aconchegante. Era como estar em casa. Tirando toda a coisa de não estar em casa. Samantha não esquecia isso um segundo sequer.

As pessoas receberam-na com todo carinho e pareciam mesmo fazer de tudo para colocar um sorriso na face da garota. Por fim ela foi vencida. Chocolate sempre a fazia sorrir. E suco de morango também. Ela comia sorrindo.
Sozinha. Tudo o que ela não precisava ficar era assim. Quando se distraía parava de pensar na dor que a incomodava sempre. A garota estava se acostumando… Iria doer até a volta. Começou a chorar novamente.
Sam estava aonde sempre quer estar. Algo que ela dizia sempre é que poderia ir até o fim do mundo, desde que tivesse um mp3, pilhas e um pacote de bolacha. As pessoas riam dela, mas ela falava sério. Suas lembranças a manteriam viva, assim como estavam fazendo naquele momento. Ela chorava pois as lembranças nunca a deixavam em paz. E ela achava isso maravilhoso. Era ótimo pensar nas pessoas que amava… Mas doía (muito) estar longe delas.
Tudo o que a garota pensava fazia sentido e ao mesmo tempo parecia não fazer sentido algum. Ela sempre viajava, porque dessa vez fazia esse drama todo? Por que dessa vez doía tanto ter de deixar as pessoas que tanto amava? Ela não entendia. A música dizia em sua mente que ela não ama como amava ontem… Certamente ama mais. Ela só chorava. E sorria! A lua continuava brilhando no céu, observando-a.

One Response to “Samantha e a cidade.”

  1. :B’ ai ai , tipo saudade é foda mesmo ;x


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