Escrever “amor” nos braços dela.
Victoria desliga o telefone e pensa alguns segundos. Seu copo de água permanece sob a mesa, ela apaga as luzes e sai. Era seu namorado, Lucas, no telefone. Depois de três dias em silêncio, eles decidem que têm que conversar. Combinam de se encontrar em um barzinho próximo ao centro de São Paulo. Iam ali sempre, era realmente um local bastante agradável. Como sempre, Victoria chega antes. Tinha sido assim durante todo o namoro, e ela não se importava muito com isso. Lucas chega um pouco depois. Ambos se cumprimentam com um “oi” meio tímido e dão um selinho apenas. Nada de “eu estava com saudade blá-blá”. Pareciam dois estranhos.
Lucas começa falando. Victoria não sente vontade de falar, mas ouve com atenção àquele rapaz tão bonito que está na sua frente. Falam sobre os seus trabalhos, a sociedade em geral, política, futebol… E não comentam nada sobre eles e aquela situação ridícula que os envolve. Anos de convivência para uma “conversa de elevador”? Não podia ser assim.
- Bom, eu acho que é hora de falarmos de nós dois, não é? – começa Victoria, tensa.
- É, eu acho que sim. Afinal é isso que viemos fazer aqui…
- Bem, pode começar.
Lucas não sabe bem o que dizer… Sabe que é sua culpa. Sempre é. Ele não sabe como consegue brigar tanto com alguém que ele ama mais que a ele mesmo.
- Bom, Vick, me desculpe. Eu te amo demais. Perdoe aquelas coisas horríveis que eu disse naquele dia. Eu… Eu estava de cabeça quente, e eu sei que isso não justifica, mas é só o que eu posso fazer.
- Você sempre faz a mesma coisa. Durante todos esses anos têm sido assim. Você me ama, e me leva ao céu todos os dias. Mas faz com que eu me sinta péssima durante a maior parte do tempo. Eu passo mais momentos chorando por sua causa do que rindo com você! E está começando a ficar cansativo… – Ela estava disposta a resolver tudo naquele momento.
Lucas se vê sem saída. Será que ela quereria terminar? Será? Não, não é possível! Ela o ama, não é?
- Mas eu não faço por querer, é que eu não penso antes de falar… Eu sinto muito mesmo. Não vai…
- “Não vai mais se repetir, Victoria, eu te prometo.” – Completa Vick, nervosa. – Isso é tudo o que você sempre diz. E eu vim aqui querendo ser surpreendida.
Victoria não pode enxergar sua vida sem Lucas. Eles eram tão bons juntos. Mas o estado de tristeza constante em que ela se encontrava deixava-a com medo, ao mesmo tempo em que ela não gostava de estar assim todo o tempo. Ela o amava demais. Acreditava ter encontrado o amor de sua vida, realmente.
- Mas esse é só o que eu sou, Vick! Eu não posso fazer mais nada!! Te peço perdão e espero que me perdoe. Só posso dizer que não vai mais acontecer. Eu não vou mudar meu jeito por você. – Lucas mal acredita no que acaba de falar.
- Ah é? Então vai. Comece a fazer o que você queria ter feito desde o início. Faça meu rosto ferver como se ele nunca tivesse estado tão quente antes. Eu sei que você pode fazer isso. Permaneça sugando meus pensamentos e eliminando as palavras da minha boca. Inspire todo o meu ar e me tire todo o oxigênio necessário para que a minha existência se perpetue. Coma a minha comida, beba a minha bebida. Não me ofereça sequer migalhas suas, não preciso mais desse seu gosto amargo na minha boca. Faça-me esquecer do toque da sua pele na minha. Arranque meu coração de uma vez e nunca mais torne a fazê-lo bater. Dissipe rapidamente todas as lembranças que envolvam você. Torne-me um ser inanimado, incapaz de ter pensamento algum, completamente desmemoriado. Retire todos os beijos, apague todas as noites, revele todos os defeitos. Solte minhas mãos e me deixe ir.
O que ela mais temia tinha sido dito. Victoria finalmente disse tudo aquilo que estava entalado na sua garganta.
- Tudo bem então. Mas nunca se esqueça de que eu te amo. E que nunca vou te esquecer. Estarei sempre esperando o momento em que você verá que eu estou certo.
Lucas solta a mão de Victoria.
- Não espere. Não vou voltar. – Victoria diz, antes de pegar sua bolsa e sair.
Ela entra em seu carro e começa a chorar enquanto procura o lugar de colocar a chave para que possa ir embora. Ela não acreditava no que havia acabado de acontecer. No fundo, ela já sabia que seria assim. Mas ele sequer tentou detê-la. E ainda acha que está certo.
Lucas telefona para Victoria enquanto anda para sua casa. Ninguém atende… Ele decide esperar até o dia seguinte para falar com ela.
Victoria chega à sua casa. 13 mensagens em sua caixa postal. Entre a voz de Lucas, convites para festas e seu gerente pedindo para ela ir ao banco, ela decide tomar banho. Precisava se livrar daquela sensação horrível.
Lucas decide ir à casa de Victoria, ele havia errado, afinal. Precisava tê-la de novo em seus braços.
Após o banho, Victoria abriu o armário para pegar sua pasta de dentes. E encontrou uma lâmina de barbear, e a foto dela e de Lucas juntos, sorrindo. Atrás da foto estava escrito: “Eu te amo e é pra sempre. Não importa o que eu faça, não importa o que eu diga. Eu te amo e é só o que importa. Você é tudo o que me importa. Never forget. Lucas”. Victoria passou um tempo lendo aquelas palavras e refletindo com elas… Pegou a lâmina e se sentou um pouco. Ela o amava. Ele não podia ser passado na vida dela, nunca poderá ser assim. E ela finalmente se deu conta disso. Mas ela não agüentava mais chorar e sofrer por tudo isso…
Lucas chega. Toca a campainha e ninguém atende, a porta está trancada. Ele pega a chave-reserva embaixo do tapete. Chama por Vick e ninguém responde… A torneira do banheiro parece estar aberta. Ele vai até lá. A porta está trancada, ele chama Victoria e ela não responde. Lucas começa a ficar mais preocupado e então arromba a porta. E lá estava Vick, deitada no chão. Segurava a foto dos dois em sua mão esquerda e apoiava-a no peito. A lâmina estava jogada ao lado do seu corpo envolto naquela toalha branca. Seus cabelos ainda estavam molhados. Sua mão direita estava esticada ao lado do seu tronco. E havia um líquido vermelho embaixo dele. Seu pulso estava repleto de cortes. Todos eles eram iguais. Era a palavra “AMOR” escrita muitas e muitas vezes. Ele não acredita no que está vendo. Pega água para tentar acordá-la e ao olhar para a pia vê uma caixa de remédios vazia… Ele deita-se ao lado daquele corpo pequeno, frágil e frio e dorme ao lado dela. Como fizeram tantas outras vezes durante os anos de namoro…
E então, Victoria finalmente escreveu amor em seus braços… Pra sempre.
Loading...
Aaya, você republicou essa história… depois de tantas vezes ainda faz meu estô mago virar, mas de um jeito bom… é lindo, apesar de muito triste…
Sei lá, mas alguma coia me leva a pensar que você também anda assim… irônico republicar esse post por esses tempos, me pergunto por que será… rs
Te amo muito-muito… espero que você fique bem =)
Ah, a propósito… a Victoria ainda assombra meus sonhos
rs
Rin - Agosto 6, 2008 at 21:55
Manoela…
Estou aqui para avisar que postei o primeiro tema semanal!
http://imaginarylines.wordpress.com/2008/08/27/desafio-1/
Beijinhos,
Juliana
Juliana - Agosto 27, 2008 at 20:58
Oi, Manoela!
Nossa, esse texto me provocou um arrepio nas últimas linhas, quando me dei conta que, não tinha jeito, a Victoria iria mesmo morrer… Confesso que quis ver o lado bom, afinal, ela finalmente escreveu ‘amor’ nos braços, mas senti muita raiva.Raiva do Lucas. Porque acontece assim muitas vezes na vida.Deixamos ir aquilo ou quem amamos e quando nos arrependemos é tarde demais, aquilo já morreu, ou é impossível, ou não existe mais. E não falo só de amores e amigos, falo dos nossos sonhos e da forma como às vezes nos esquecemos deles, deixamos que se vão…
Lindo esse texto, você escreve muito bem!
Um dia, quem sabe, eu também me aventure na ficção…
*Ah, claro que pode me chamar de Tary, todo mundo me chama assim, aliás tem lá no meu perfil:
”Taryne no RG. Tary para o resto do mundo”.
Beijos! ;*
P.S: Nossa, escrevi demais!
Tary - Setembro 19, 2008 at 23:48