Olho-me no espelho, o que vejo? Um amontoado de palavras construídas de maneira milimetricamente planejada, formando um corpo curvilíneo, com belas formas arredondadas nos lugares certos. Uma expressão curiosa perguntando-se quem era o rapaz daquele reflexo feminino. Quem era o rapaz daquele olhar abandonado, aquele sorriso conformado, aquele toque aveludado. Era você! O que vejo no espelho agora? Sou eu.
Diante dessas visões fecho meus olhos e imagino-me por alguns instantes… O que vejo? Uma luz amarelo-fluorescente invadindo-me as pálpebras, trazendo à minha vida uma explosão de imagens coloridas, preto e brancas, sofridas ou vagas lembranças… Ouço um riso perdido no meio das lágrimas caídas dias atrás, um sorriso falso camuflando o pesar com que os dias passam com a tua ausência, um choro silencioso a ecoar pelas salas, TVs, computadores e telas de todas as marcas, tamanhos e cidades do mundo.
Abro os olhos novamente. Você continua lá. Ali. Aqui. Olho pra mim e te vejo aqui dentro, ansiando por uma nova chance de sair, dar olá ao mundo novamente, espalhar alegria e divertimento, como era em outra hora… Mas você continua cá. Preso, encarcerado, atrelado às minhas veias, correndo no meu corpo, sugando minha vida. Vida.
Quisera eu poder olhar em meus olhos e não sentir o corpo arder em vão com o simples pensar de toques, suspiros e palavras desconexas ditas numa complexa dança à luz da lua… Mas não há como enganar ao espelho, ele nos mostra apenas o que é real. Isso tudo é real? Volto de minhas viagens ao centro de mim e aproximo-me mais daquele olhar curioso que me encara sem parar. Olho-me no espelho, o que vejo? Ele.
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