Estávamos no inverno, era uma terça-feira. Eu acordei irritada, o sol se instalava janela adentro e fazia meu corpo inteiro queimar. Levantei-me da cama com um bico e as sobrancelhas franzidas, como sempre fazia quando estava com raiva, e fechei a janela de uma vez só. O cachorro da vizinha latiu com o barulho e eu resmunguei alguns xingamentos, voltando a deitar. Dei uma olhadinha no relógio, ele mostrava 10h00. Eram 10h00 de uma terça-feira comum.
Costumo dormir com o celular na cômoda ao lado da cama, e como o calor infernal tirou meu sono, decidi pegá-lo para ficar fazendo nada. Talvez dar uma olhada na quantidade de pessoas – que não me ligam – da minha agenda telefônica. Havia uma mensagem e não pude evitar sorrir. Era Filipe. Ele chegava hoje! Odiava terças-feiras, mas essa não podia ter começado melhor.
Filipe era meu namorado, nos conhecíamos a mais de um ano. Ele viajou um dia depois que completamos um mês de namoro. Antes de Filipe tinha tido alguns namorados, mas nunca havia me entregado daquela maneira. Filipe havia se tornado metade de mim. Quando estávamos separados era como se me faltassem as pernas. Eu ficava estagnada, imersa nas lembranças dos momentos que passávamos juntos, imaginando como seria quando o visse novamente. E quando ele aparecia de novo, ah! Quando ele aparecia de novo era meu momento favorito entre todos os momentos do mundo! Eu voltava a andar.
Dei um sorriso e levantei-me logo, mandei uma mensagem pedindo que passasse em casa à tarde, íamos andar na beira do mar abraçados, esperando o pôr-do-sol. Eu nunca havia visto o pôr-do-sol e a praia era logo ali, alguns quarteirões da minha casa.
Tomei banho, cantarolei como sempre fazia enquanto procurava uma roupa, me troquei e passei um tempo na internet. Ele estava demorando, mas eu estava tão feliz que nada iria me fazer ficar triste naquele dia.
O sol começava a se esconder por trás das nuvens, o céu ficara cinza de uma hora pra outra e havia um vento gelado cortando-me a pele. Eu não esperava por um tempo daquele, meu short e minha regata denunciavam isso. Eu chorava um choro incessante, mal conseguia respirar por entre as lágrimas. Mais cedo, ainda naquele dia, recebi uma ligação do celular de Filipe. Mas quem falou comigo não foi ele.
A pessoa com quem falava me informou de um acidente próximo à minha casa. Ela me descreveu o carro de Filipe e disse que ele estava no Hospital Ana Costa. Eu desliguei antes que ela me dissesse o estado dele. Acho que nunca dirigi tão rápido em toda minha vida. Médicos passavam por mim às pressas, eu não conseguia enxergar direito o que estava acontecendo por trás daquele vidro transparente, mas não deveria ser uma coisa boa… Eles conversavam entre si e pareciam nervosos e então eu comecei a ouvir barulhos familiares, eles significavam que a coisa não estava boa mesmo. Minhas maratonas de ER e Grey’s Anatomy finalmente tiveram alguma utilidade. Não conseguia ficar parada e também não conseguia ver o desespero dos médicos. Sentei-me e entrelacei minhas mãos numa prece, coisa que nunca havia feito. Não ligava para orações, mas naquele momento eu sabia que rezar era a única coisa que eu poderia fazer.
Às 16h00 os médicos desligaram todas as máquinas e vieram falar comigo. Contaram-me que Filipe não havia resistido aos ferimentos, que eles sentiam muito… Disseram que eu poderia ir até lá me despedir dele enquanto eles entravam em contato com sua família. Entrei naquele quarto em transe, olhava para aquela maca sem piscar. Avistei o rosto de Filipe e olhei pra ele, mas era como se eu não pudesse realmente vê-lo. Fiquei um tempo fazendo isso até que olhei no relógio em seu pulso. Ele estava quebrado e marcava 14h14. Saí correndo do hospital, fazendo uma enfermeira derrubar sua prancheta e um bolo de papéis que carregava.
Corria feito louca, as pessoas me olhavam assustadas, saindo da minha frente o mais rápido que podiam. Deixei meu carro no hospital e corri até a praia. Eu precisava chegar lá. Eram quase 18h00.
Agora o céu estava repleto de nuvens cinzas e eu me envolvia num abraço forte, tentando não ser afetada pelo frio gelado que o mar trazia até mim. Sentada num banco da praia eu olhava o mar com atenção, pensando em tudo o que tinha acontecido. Comecei a chorar e chorar. As lágrimas não paravam de rolar pelo meu rosto, sentia vontade de gritar e correr até o mar, me jogar dentro dele e fazer com que ele me levasse pra longe. Quando as lágrimas secaram eu podia sentir a dor no meu peito. Eu nunca havia sentido uma dor tão grande em toda a minha vida. O sol se pôs, fui pra casa.
A única vez em que tinha visto um cadáver foi quando meu pai morreu. À contragosto me levaram no velório dele e eu chorei tanto, mas tanto, que minha cabeça ficou doendo por uma semana. Apesar de tudo, não era tão difícil se acostumar àquilo. Sempre se espera que os mais velhos morram antes. Você sempre espera enterrar teus pais, e não o contrário. Depois daquele dia eu jurei que nunca mais iria à velório algum. Foi o único juramento que quebrei.
O que mais gostava no Filipe eram seus olhos castanhos e as pintinhas que ele tinha pelo corpo. Quando me aproximei do caixão a mãe dele me abraçou e me beijou a testa, como faria com a filha dela, se tivesse uma. Eu peguei a mão dele e apertei, ele estava gelado. Envolvi minhas duas mãos nas dele então e fiquei olhando pros olhos fechados dele, pedindo baixinho que ele os abrisse. Ele não o fez. Chorei copiosamente durante todo o tempo que estive no velório. Não podia acreditar que nunca mais o veria, não queria largar a sua mão. Olhava para seu corpo pálido, as pintas atrás de sua orelha estavam ali e eu sorri de leve lembrando-me do quanto ele as odiava. Eu não queria deixá-lo ir.
Uma vez, numa das nossas saídas, Filipe pediu para eu lhe prometer uma coisa. Aliás, ele me pediu para prometer duas coisas! Uma delas era nunca deixar de sorrir, porque meu sorriso era a coisa mais linda e mais preciosa que eu tinha. Achei essa um tanto quanto estranha, mas prometi. E a outra era para que, independente do que acontecesse conosco, eu nunca lhe desse adeus. Ele dizia que adeus era um tchau sem volta, por isso nunca deveria dizer adeus para ele. Mesmo que a gente terminasse, eu casasse com outro e tudo mais. Eu lembro que nesse dia eu bati nele e disse que a gente nunca ia terminar! A gente se amava e era pra sempre. Ainda brinquei que ele teria que me agüentar até o fim dos seus dias…
Ainda no velório as pessoas acenavam em coro enquanto o caixão era carregado. Todas elas diziam adeus em meio à um choro e eu agora sorria, como se alguém me colocasse magicamente um sorriso no rosto. Sorri novamente com algumas lágrimas nos olhos e disse tchau. É, eu disse tchau. Tchau, meu Filipe.
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