Arquivo paraPalavras desprovidas de sentido.

Ressaca.

- Calma, Sofia! – Thomas segurava minhas mãos enquanto eu respirava fundo, recuperando o fôlego. – Eu não estou com pressa. Agora senta aqui e me explica o que aconteceu, ok?

“Como ele pode ser sempre tão calmo?”, eu pensei. Sentei no sofá, ao lado dele, e tentei me concentrar o bastante para não deitar em seu colo e dormir. Estava com sono, molenga… Não deveria ter bebido.

- Tom, ahn… Acho que não é o melhor momento. Estou consciente, sabe? – ele sorria de um jeito enigmático, não sabia se tirava sarro de mim ou se apenas gostava de ouvir minha voz arrastada por conta das cervejas que havia tomado mais cedo naquela mesma noite… – Mas acho que não quero conversar com você agora. Sabe como é, a bebida entra e a verdade sai – dei uma risada forçada, tentando quebrar o clima sério da conversa.
- Sofia, você me ligou bêbada e disse que precisava falar comigo. Você pode até estar bêbada, mas não é de mentir. – ele fechou os olhos enquanto baixava sua cabeça. Aproximou-se um pouco mais de mim e me encarou. – O que está acontecendo?

Abri os olhos e senti meu quarto girar. Ressaca. “Nunca mais coloco uma gota de álcool na boca”, prometi sileciosamente à mim mesma, pela centésima vez, enquanto evitava movimentos bruscos. Minha cabeça doía e eu tentava colocar as lembranças em ordem à medida em que elas me apareciam.

- Mas, Tom, você não entendeu o que eu quis dizer… – baixei a cabeça e comecei a fitar o pé da mesinha de centro à nossa frente. – Eu quis dizer que…
- Você acha que é injusto admitir o que sente por esse tal amigo para que ele possa escolher outra pessoa além de você – ele me interrompeu. Eu olhei em seus olhos e assenti com a cabeça, sem dizer nada. Podia sentir o coração disparar. O silêncio pairava no ar enquanto nós apenas nos olhávamos.

Finalmente levantei da cama. Joguei um pouco d’água no rosto e me olhei no espelho: meus olhos estavam pretos e borrados, meu batom estava borrado também. Eu e minha mania de não tirar a maquiagem antes de dormir… Passei os dedos pelos meus lábios e fiquei me perguntando o que havia acontecido na noite anterior.

- Me solta, Fernando! Não quero ir pra lugar nenhum com você, sai! – eu gritava enquanto tentava me desvencilhar, em vão.
- Agora você quer fugir, princesa? Provoca e depois vai embora? Eu quero muito mais do que uns amassos, e você vai me dar – ele passou a mão no meu corpo inteiro enquanto eu batia nele, tentando fazer com que ele me largasse.

Fernando… “O que teria acontecido se o Thomas não tivesse chegado ali?” Balancei a cabeça negativamente, era melhor não pensar nisso agora. Fui até a cozinha preparar um café. Sorri com o recado em cima do pote: “Boa ressaca. Espero que se lembre da noite de ontem, Sô”. Era do Thomas, só ele me chamava de Sô.

- Thomas, ahn… – desviei o olhar do dele, e ajeitei os cabelos atrás da orelha antes de terminar a frase – Eu estou gostando de você, sabe? Sei que não podia e nem deveria, mas aconteceu. E eu ahn… Precisava te falar isso. – estava com medo de olhar pra ele. Ele franziu as sobrancelhas, com um certo pesar e então desviou o olhar do meu rosto. Olhei pra ele e então continuei – Nós sempre brincamos muito, mas eu preciso saber onde começa a brincadeira e exatamente onde ela termina.
- Seja mais específica – ele voltou a me olhar e eu pude sentir o estômago embrulhar de nervoso. “Ele me intimida demais”, pensei comigo mesma.

Não suporto café. É minha primeira ressaca e eu espero que uma xícara de café seja o bastante para curá-la. Tomei um gole do café, ainda quente, e pensei no que havia dito ao Tom na noite anterior. Mordi os lábios e respirei fundo… “É melhor que o evite um pouco. Não tenho coragem de olhar pra ele depois de tudo”.

- Você está certo. É que, sei lá… Tenho medo de que você se afaste de mim por causa disso. – estava mais confortável e menos tonta. Sorri e encostei a cabeça nas costas do sofá – Acho que estou melhor!
- Viu, Sô? Curei a sua bebedeira! – ele deu um sorriso sem jeito, mas logo retomou a aparência séria característica. – Sô, eu não vou me afastar de você, tá? A gente vai dar um jeito nisso, relaxa. – Fechei os olhos para inibir minha vontade de chorar. Isso só podia significar que ele nunca iria me deixar ultrapassar a barreira da amizade. “Ótimo”, pensei, ironizando comigo mesma.

O telefone tocou e eu xinguei em pensamento o infeliz que fez com que minha cabeça quase explodisse às 16h00 daquele domingo. Olhei o celular antes de atender… Era o Thomas. Decidi não atender, ainda estava com vergonha da noite anterior. Subi as escadas novamente e fui me deitar.

- Mas e você? O que você sente por mim, Thomas? – juntei toda minha coragem e perguntei. Sequer acreditava nas minhas palavras, eu nunca deveria ter perguntado isso.
- Eu não sei, Sô. Não sei quando é e quando não é… Mas não é hora de falarmos nisso, ok? Você precisa descansar agora, vou te levar pra cama. – ele me pegou no colo e me deitou na cama. Dormi rapidamente enquanto ele me olhava sentado na poltrona em frente à minha cama.

“Ela ainda deve estar dormindo”, Thomas pensou enquanto ouviu o telefone tocar incansavelmente do outro lado da linha. Decidiu deixar um recado. “Sofia, espero que esteja melhor. Ia passar aí pra ver se estava tudo bem, talvez faça isso mais tarde, ok? E, bom, não sei o que você lembra de ontem… Mas queria que soubesse que eu também.” Thomas sorriu e respirou fundo. Finalmente ele fez o que tinha que fazer. Jogou-se no sofá e ficou olhando pro teto, apenas imaginando como as coisas seriam dali pra frente.

Jacqueline.

03 de julho de 2009, ela escreveu em seu diário. Embaixo desta linha e nas páginas que se seguiam, havia um sonho realizado, descrito por entre músicas de Jonas Brothers e colantes da princesa Bela. Jacqueline era uma garota prestes a completar 15 anos. Diferente das meninas de sua idade, que desejavam reinar numa festa cheia dos holofotes, ela desejava tornar-se uma princesa no castelo de seus sonhos: o Disney World.
Desde pequena a menina gostava dos desenhos Disney, fora criada em meio à anões, leões que viram reis e mocinhas com sapatos de cristal. Tudo o que ela mais desejava no mundo era conhecer a Disney, seus olhos brilhavam quando pensava (e falava) nisso.
Após alguns anos implorando para que os pais a deixassem ir e ajudando-os a conter os gastos para viabilizar as economias, Jacque finalmente se viu preparando tudo para a almejada viagem. Roupas, câmera, documentos e toda a ansiedade da menina já estavam a postos, apenas aguardando os dias em que entraria no avião.
Jacque iria passar quinze dias num sonho. E na véspera de começar a torná-lo real, ela abraçou os pais, agradecendo por tudo o que haviam feito por ela, e chorou. Um choro de felicidade extrema, um choro de adeus, com lágrimas repletas de saudade. Seus pais a viam se aproximar cada vez mais do avião, com o coração apertado por terem deixado a filha única viajar sozinha pela primeira vez. Infelizmente, também foi a única.
Jacqueline aproveitou cada segundo de sua estadia no mundo que tanto amava. Em seu diário, nas páginas que escreveu enquanto estava lá, ela descrevia seus sentimentos como algo que jamais imaginou sentir. Estava feliz, imensamente feliz. No dia de seu aniversário de 15 anos, a menina reinou. Foi princesa, como tanto queria, e visualizou o mundo todo aos seus pés. Festejou com seus amigos leões, com as amigas princesas, com piratas e tantas outras fantasias que a acompanharam desde criança.
Jacqueline não viveu para tornar-se rainha. As causas de sua morte, ocorrida subitamente no vôo de volta, ainda não foram divulgadas. Mas, certamente, a menina foi ao reino dos anjos envolta pela magia que o maravilhoso mundo de Disney havia lhe proporcionado dias atrás. Que fique com Deus a mais nova princesa dos céus, Jacqueline.

Eu & você.

Ninguém vem me atrapalhar às vezes. Quando acho que estou bem e que finalmente alguém vai mudar a minha vida, ninguém me aparece. E ninguém chega com a força avassaladora das memórias que vêm à tona, exatamente essas que tu não queres mesmo lembrar. Ninguém me alerta de que essa minha caixa de lembranças non gratas irá me atormentar sempre, não importa o quanto alguém diga o contrário.
Ninguém tem idéia do quanto é doloroso remoer e reviver memórias vagas, prender-se à fios de pensamentos envoltos numa nuvem escura e assustadora… Nem mesmo ninguém. Alguém ainda faz questão de lembrar que ninguém existe dessa maneira para uma pessoa, e cobra explicações que não quero dar. Ninguém está morto e enterrado até que alguém pare de perguntar! Ninguém está vivo e enclausurado até eu lhe deixar descansar. E é uma pena que alguém não entenda isso.

Três.

Olho-me no espelho, o que vejo? Um amontoado de palavras construídas de maneira milimetricamente planejada, formando um corpo curvilíneo, com belas formas arredondadas nos lugares certos. Uma expressão curiosa perguntando-se quem era o rapaz daquele reflexo feminino. Quem era o rapaz daquele olhar abandonado, aquele sorriso conformado, aquele toque aveludado. Era você! O que vejo no espelho agora? Sou eu.
Diante dessas visões fecho meus olhos e imagino-me por alguns instantes… O que vejo? Uma luz amarelo-fluorescente invadindo-me as pálpebras, trazendo à minha vida uma explosão de imagens coloridas, preto e brancas, sofridas ou vagas lembranças… Ouço um riso perdido no meio das lágrimas caídas dias atrás, um sorriso falso camuflando o pesar com que os dias passam com a tua ausência, um choro silencioso a ecoar pelas salas, TVs, computadores e telas de todas as marcas, tamanhos e cidades do mundo.
Abro os olhos novamente. Você continua lá. Ali. Aqui. Olho pra mim e te vejo aqui dentro, ansiando por uma nova chance de sair, dar olá ao mundo novamente, espalhar alegria e divertimento, como era em outra hora… Mas você continua cá. Preso, encarcerado, atrelado às minhas veias, correndo no meu corpo, sugando minha vida. Vida.
Quisera eu poder olhar em meus olhos e não sentir o corpo arder em vão com o simples pensar de toques, suspiros e palavras desconexas ditas numa complexa dança à luz da lua… Mas não há como enganar ao espelho, ele nos mostra apenas o que é real. Isso tudo é real? Volto de minhas viagens ao centro de mim e aproximo-me mais daquele olhar curioso que me encara sem parar. Olho-me no espelho, o que vejo? Ele.

Reveillón.

Era uma vez uma menina chamada Gabriela e um menino chamado Lucas. Gabriela era a garota mais inteligente da sua sala, adorava perguntar as coisas que lhe vinham à mente, não se importava de passar os dias estudando. Ela tinha um sonho, desejava ser médica. Lucas, por sua vez, não gostava de estudar. Ele tirava boas notas, mas não se importava em ficar com a fuça em livros e mais livros. Achava que a vida era boa demais pra ficar se preocupando com isso. Lucas tinha tantos sonhos que não conseguia dizê-los. E então, um dia, os dois se encontraram.
A menina Gabriela passou a tirar notas mais baixas e já não se preocupava tanto com isso. Percebeu que o mundo tinha mais a oferecer do que apenas fórmulas de física e equações matemáticas. Lucas expandiu seu vocabulário e sua mente, suas notas melhoraram, e ele decidiu que seria arquiteto! Agora ele estudava pra isso.
Gabriela e Lucas começaram a se gostar. Ela com sua mania irremediável de devorar um pote de Nutella por dia, e ele com a sua dieta devidamente balanceada, aonde nenhum doce poderia entrar. Gabriela e sua coca, Lucas e seu suco de laranja. Eram opostos em tudo, discutiam por nada. Não demorou muito tempo para essa amizade intensa e essa implicância tremenda se transformarem em… Amor!
Lucas e Gabriela não conseguiam conversar sem discordar. Era assim com tudo, tudo mesmo. Desde comida até política. Gabriela gostava de pizza, Lucas detestava e achava que ela comia carboidratos demais. Lucas fazia basquete, Gabriela odiava esportes. E mesmo sendo tão errado, eles pareciam tão certos juntos. E todas as brigas e discussões eram silenciadas com um beijo. Às vezes dois, às vezes mais que isso.
Ela era dele. Ele era dela. Eles eram um! E isso era a única coisa em que eles concordavam. O mundo de Gabriela passou a ser Lucas e o relacionamento que eles tinham. E o mundo de Lucas passou a ser a sua doce Gabi, e o amor que os unia. Tudo o que Lucas pensava e fazia, era por ela, pra ela. E com ela acontecia a mesma coisa. Eles deixaram de ser cada um deles e passaram a ser os dois! Juntos, unidos. Em tudo. Pra sempre.
Os primeiros meses vieram e com eles as novas descobertas. Viveram tanto juntos, tanto tempo… Anos passaram, brigas passaram, confusões passaram, discussões passaram. O amor… Passou. Sim, o amor passou. E eles continuaram juntos, perguntando-se se aquele era o fim do “pra sempre” prometido durante anos. De repente o “te amo mais que tudo” restringiu o tudo à coisas tão pequenas que não adiantava repetir isso dia após dia. E as brigas passaram a ser constantes. Eles precisavam de coisas que já não podiam mais se dar. E então tudo aconteceu! Mais brigas, berros, tapas, choros, traições, decepções, sofrimentos… Tempo. O tempo aconteceu.
Mais um ano se passou. Gabriela já não era mais a menina de antes, Lucas já não era mais o garoto de antes. Eles tinham crescido, amadureceram. Já não havia lágrimas no rosto de ambos, nem sofrimento, nem raiva. Véspera de ano novo duas pessoas - que já tinham sido apenas uma – encontram-se.
Lucas estava com uma nova namorada, abraçava-se com ela da mesma maneira que era com Gabriela, envolvendo-a totalmente, como se nada pudesse desunir aquele abraço. Gabriela caminhava sozinha, com seu mp3. Eles olharam-se por instantes, sorriram um para o outro e continuaram seu caminho. Naquele momento os anos que passaram juntos estampavam o olhar dos dois. Eles sorriram por relembrar as boas lembranças, os ótimos momentos que compartilharam. Gabriela balançou a cabeça, como quem se livra de um passado distante e continuou andando, com um sorriso ainda maior no rosto. Lucas olhou para trás rapidamente e viu que Gabriela não fez o mesmo. Sorriu-se e abraçou sua nova namorada mais forte.
Lucas e Gabriela amaram-se, brigaram-se, uniram-se, tentaram-se, perderam-se. E descobriram que precisavam de apenas uma coisa para seguir suas vidas. Deles mesmos.
O reveillón daquele ano não poderia ter sido melhor.

Resposta à carta de uma pessoa querida.

Gustavo,
Eu queria saber como começar esse texto, mas não consigo. Simplesmente não sei o que te dizer. Tua carta me pegou completamente desprevinida. Agora eu estou sendo embalada pelas vozes de três irmãos que dizem que essa noite eu vou voar. E, na verdade, eu já fiz isso. Mas as lembranças insistem em me seguir aonde quer que eu vá. Eu sorri com a tua carta e com a maneira como você encaixou as palavras e fez com que elas me confortassem.
Sim, é maravilhoso na California. Aqui o sol sempre resolve aparecer e isso me lembra o Rio, às vezes. Eu fico imaginando como seriam as coisas se eu estivesse aí… Ou se você estivesse aqui. Eu sinto tanto a tua falta… Tanto. Talvez eu tenha errado nas minhas escolhas… Acho que eu acabei fazendo tudo errado. E no final, as coisas acabaram dando certo, mesmo assim.
A viagem me foi conveniente porque depois de tudo o que aconteceu, fugir me pareceu o mais certo a fazer. Porém percebi que, mesmo em outro continente, meus pensamentos não mudaram. Eu estou tão presente no Rio quanto você está presente aqui, Gu.
Eu não vou te esquecer e você sabe. Espero que a minha ausência física não faça com que você esqueça de mim. A garota dos cabelos iluminados continua sorrindo feliz ao lembrar do guri que possui os olhos mais transparentes do mundo. Azuis, verdes… Claros! Tão claros que são capazes de espelhar o mundo ao meu redor.
Obrigada pela carta e pelas palavras que você julga serem desimportantes. Você não sabe o quanto elas têm importância pra mim. Até daqui um pouco. Bem pouco.
Manoela.

- Carta à uma pessoa querida: http://dozemetros.blogspot.com/2008/09/aula-de-portugus-170908-redao-tema_19.html

Banheiro Masculino.

Estávamos na sala de TV do clube. Eu e toda a turma da faculdade. Estávamos vendo um filme monótono e chato, e a única coisa na qual eu conseguia pensar era na minha dor de garganta, que insistia em aumentar a cada vez em que eu engolia um pouco de saliva. Decidi sair da sala para procurar algum remédio pra tomar. Até que fui surpreendida:

- Olha, eu tenho remédio aqui… E tem umas músicas pra relaxar. – Bruno falou, e parecia sincero.
- Ahm… Ok, eu vou até lá e volto… Preciso andar mesmo e tenho que procurar a Letícia. – respondi educadamente.
- Tudo bem então… Eu disse que tenho e tu vai sair, tá! – Bruno respondeu com raiva.

Eu apenas saí. Bruno tinha sido um amigo muito próximo mesmo, durante os quatro primeiros meses do nosso curso. Depois nós brigamos e nunca mais olhamos um na cara do outro. E agora, ele veio me ajudar. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas… Pena que meu orgulho permanecia em mim. De qualquer forma, eu tinha mesmo que procurar a Lê.
Caminhei pelo clube e vi o resto das pessoas da classe que não estavam lá vendo aquele filme horrível. Muitos bêbados, outros na piscina, alguns xavecando… Mas todos felizes! E eu ali, com aquela maldita dor de garganta. “Eu tinha que pelo menos beber água…”, era o que pensava.
Lembrei-me de que o bebedouro do clube ficava perto de onde estava e fui até lá. A água nunca foi tão saborosa! É uma pena que eu tenha ficado com sede no instante seguinte àquele pelo qual a água passa pela minha garganta. “Como eu odeio ter dor de garganta, meu Deus!”, bufava.
Não muito longe dali ficava o banheiro… E eu ouvia berros e risadas. A minha curiosidade não me deixou alternativa, e eu fui até lá, ver o que estava acontecendo. Era no banheiro masculino… Mas eu entrei mesmo assim.
Logo que abri a porta, me deparei com duas meninas correndo uma atrás da outra… As duas nuas e sorrindo. Eu já as tinha visto por aí (com roupas, claro)… Elas eram melhores amigas. Uma delas até namorava com um menino que é amigo do amigo de um amigo meu. Elas me cumprimentaram, como se o que estivesse acontecendo fosse a coisa mais normal do mundo. E eu ali, abismada e sem saber o que fazer.
Elas continuaram correndo enquanto conversavam comigo. Eu queria saber o que elas faziam ali, porque não estavam no banheiro feminino, e onde estavam os meninos (afinal de contas, o banheiro era masculino, e havia apenas duas meninas ali?). Elas me responderam algumas coisas, mas resumiram dizendo que tudo aquilo era divertido e elas estavam entediadas. E mais, queriam que eu as acompanhasse! Eu disse que não, mas elas estavam tirando toda a minha roupa. Deixaram-me apenas com as roupas de baixo. Eu peguei uma toalha, me enrolei nela e fiquei parada, sem fazer nada. Estava morrendo de vergonha… “E se algum menino entrar?”, era tudo o que pensava. Eu me esgueirei em uma das portas do banheiro e, de repente, ela abriu.
Quando abri os olhos percebi que meu corpo estava envolto por braços fortes e morenos. Era um menino! E ele sorria pra mim.

- Você estava escutando toda a conversa? – perguntei sem graça, enquanto arrumava a toalha e saía dos braços dele.
- Digamos que vocês não falam tão baixo quanto gostariam. – ele respondeu, sorrindo.

Aquele menino não me era estranho, mas eu não lembrava de onde o conhecia. Eu podia jurar que ele era um amigo do meu irmão… Mas ele podia também ser um calouro da faculdade. Não me importava. Ele era lindo! Moreno, alto, cabelos raspados (por isso a semelhança com um calouro), um corpo definido que podia ser visto por debaixo da regata branca que ele vestia. Dono de um sorriso incrível e de um charme irresistível. Ele já tinha me ganhado, e só tínhamos trocado uma frase.

- Ah… Entendi. Bom, minhas roupas estão lá fora… E eu só saí pra procurar a minha amiga e um remédio para garganta. E agora preciso de um banho e de umas roupas.
- Bom, ali tem um chuveiro… E eu posso te emprestar umas roupas minhas depois que você tomar banho. Eu tenho uma bala de morango, se você quiser. E puxa, você não lembra de mim mesmo, Juliana? – Ele sorria enquanto falava meu nome. E eu derretia, é claro!
- Normalmente eu diria que não esqueceria um rosto (principalmente como o seu, eu completaria. Mas omiti esse detalhe), mas eu realmente não lembro de você. Mas tive a impressão de que te conhecia de algum lugar mesmo. – “Eu sabia!”, gritei mentalmente.
- Meu nome é Luiz Henrique, e eu era da classe do seu irmão na escola. Agora, sou calouro da sua faculdade. O que faz de você a minha veterana. – ele disse, olhando fixamente para mim, com um sorrisinho de canto de boca.

Eu nem o conhecia direito… Mesmo que soubesse quem ele era (depois que ele falou, eu lembrei dele direitinho), eu nem o conhecia. Mas ele me atraía de uma maneira…

- Olá! Nossa, lembrei agora! Na verdade, eu estava em dúvida sobre de onde te conhecia, mas agora lembrei mesmo. Quanto tempo! – eu disse, enquanto eu me aproximava para dar-lhe um beijo no rosto. Ele permaneceu da mesma maneira, de modo que eu beijaria seus lábios caso não virasse a cabeça. E eu não queria virar. Eu não conseguia mudar a posição dela. Eu não virei.
- Oi, Jú! – ele virou o rosto e me beijou a face, rindo.
- Eu poderia ter beijado a sua boca, Lú. Não ficaria triste. – eu disse, sem me reconhecer.

E então, mais do que de repente, ele sorriu e me beijou. Eu sorri e o beijei de volta, obviamente. Era um beijo doce e lento. Parece que ele lia meus pensamentos enquanto me beijava. Com as bocas grudadas uma na outra, ele sentou-se na cadeira que estava no meio de nossas pernas, enquanto eu me inclinei sobre seu corpo. Ele acariciava minhas pernas enquanto nos beijávamos, e eu passava minha mão sobre seus peitos, sobre seu pescoço e sobre seu rosto. A toalha que me envolvia já estava caída no chão. Eu fazia um esforço enorme para tirar a regata que ele usava sem parar de beijá-lo. Eu o sentia rir da minha tentativa frustrada e então suas mãos me ajudaram com isso. Larguei aqueles lábios deliciosos por alguns momentos, apenas para observar aquele corpo lindo. Ele olhava pra mim de um jeito que fez com que eu ficasse sem graça, só de imaginar no que ele poderia estar pensando enquanto me via ali na frente dele, vestida (ou despida!) daquele jeito… Voltamos ao beijo então. Ele aumentava o ritmo do beijo, toda vez que a sua mão subia nas minhas pernas, e eu, diminuía o ritmo do beijo, afastando sua mão do laço da minha calcinha. Eu poderia ter ficado ali o beijando por um longo tempo. Estava quase sem fôlego e mal conseguia respirar… Mas poderia morrer nos braços daquele menino. E ele era mesmo um menino.
Escutamos um barulho e logo paramos de nos beijar. Ambos ofegantes. Ele levantou-se e foi para a janela, com sua mão sobre a testa, secando o suor. Eu caminhei até a porta, encostei-me nela de costas e deslizei até o chão, com as mãos no sutiã, colocando-o no lugar. Já sentada, eu tentava disfarçar as bochechas coradas, o coração disparado, a respiração ofegante e todo o corpo trêmulo. Arrumava os cabelos, que estavam bagunçados. “Como ele pôde fazer tudo isso se eu estava guiando as mãos dele?”, eu pensava incrédula. Mas feliz.
Um silêncio tomara conta da sala. Eu estava esperando que ele me agarrasse loucamente e que continuássemos nos beijando até o dia em que ambos ficássemos desidratados. Mas ele estava tão quieto, absorto em suas reflexões de fronte ao espelho.

- Bom, pelo menos eu não vou ficar com vergonha se você me vir pelada. Já me viu assim indiretamente mesmo! – eu disse rindo, enquanto ele me olhava quieto. – Enquanto você fica aí refletindo… Eu vou tomar banho, ok?
- Vai lá, moranguinha! – ele acenou e sorriu. Colocou uma das mãos na cintura e passou a outra mão nos cabelos, deixando-me louca para pular naqueles braços novamente.

Eu tirei a pouca roupa que ainda me restava no corpo e fui tomar banho. Eu não tive vergonha de me despir ali. E queria que ele fosse atrás de mim! É estranho pensar assim… Mas foi o que eu fiz naquele momento. Não havia tempo de pensar. Ele já havia dominado meus pensamentos.
E então ele ficou ali parado, pensando, enquanto eu fui tomar banho, também pensando. Perdida em meus pensamentos debaixo do chuveiro, deparei-me com os braços dele envolvendo meu corpo novamente. E sorri, ao perceber que a minha dor de garganta tinha desaparecido.

Pra não dizer que não falei das flores.

A culpada sou eu.
Se não ouvisse os sons silenciosos de teu olhar, se não fosse tocada pelas tuas doces palavras, se me camuflasse por trás das grandes e brilhantes folhas verdes daquelas flores que te enchem a visão…
A culpada sou eu.
Procurei motivos para chorar, tu nunca me destes um. Inventei um sentimento, alimentei uma esperança, fiz crescer uma emoção e no fim… Ah! No fim era tudo ilusão.
Por que, céus? Oh, por que não posso tratar-te como todas as outras pessoas? Por que tens que ser tão especial, por que despertas em mim a paixão há tanto tempo adormecida? Será que não vês que sou tua, de corpo e alma? Já não me importa nada quando estás aqui.
Oh, que tolice a minha! Como pude crer que um dia olharias para esta folhagem seca e pálida, incapaz de ser iluminada pelos raios de sol que embelezam ainda mais aquelas flores coloridas que chamam para si todos os olhares? Deveria ter me conformado desde o início com o futuro que me espera. Se desde o início tivesse me escondido por trás das cores, tu nunca terias me visto, e eu jamais teria olhado para ti. Seria só mais uma folha feia, conformada.
E tu apreciarias a flor que quisesses, sem que houvesse o sofrimento sobre o qual escrevo. Tu serias feliz, enquanto eu… Eu ficaria a esperar a morte, seca e miserável, de uma planta que sonhava em ser um dia, flor colorida.

Guarda-chuva.

O royal do céu foi embora. Nuvens cinzas dominam o espaço que antes era ocupado pelas mais diversas cores. O vento arrasta-me para casa e penteia meus cabelos ao seu bel-prazer. Eu apenas sorrio. Estou feliz com o toque suave do vento em minha face, antes acinzentada como o céu.
Pequenas gotas começam a cair. Gotas que molham meus lábios e fazem-me sentir o gosto da esperança. Misturadas com minhas lágrimas, libertam-me da dor que sinto todo o tempo. Está chovendo.
Caminho vagarosamente. Aprecio cada gota que escorre pelo meu corpo e limpa todas as feridas existentes. Sou apenas mais uma menina na rua. Uma menina sem guarda-chuva.
Objetos coloridos conduzem as mais diversas pessoas. Meu olhar estuda todas, te procuro em todas elas… Mas nenhum guarda-chuva está com você.
Uma expressão triste paira sobre mim durante alguns instantes. Eu penso, e logo um sorriso toma conta de meu rosto. Então eu sigo caminhando. Refrescando sentimentos e limpando a alma com a chuva que cai do céu.