Arquivo paraRe-sentindo pensamentos.

Segunda-feira.

Era noite… A fria noite de uma segunda-feira comum. A ressaca do final de semana ainda surtia efeito naqueles corpos pouco acostumados à rotina das aulas. É o início do ano letivo e todos tentam se desacostumar da vida que levavam nas férias. Há uma roda de amigos conversando na frente da faculdade de letras. Contam suas aventuras, divertem-se com isso. Entre eles há uma menina. Uma menina pouco alta, com iluminados cabelos loiros. Ela usa uma franja reta que lhe tapa a visão e encobre seus belos olhos verdes (ou seriam eles azuis?), também escondidos por óculos de armação preta que lhe dão um ar de intelectual. Aparentava mais idade do que tinha, aparentava ser mais feliz do que era. Seu nome era Manuela, mas todos a chamavam de Manu. Ela estava esperando sua carona, como fazia todos os dias. Ria e fazia rir.

Noite, era a mesma noite de segunda… Uma outra menina se aproximava do campus aonde Manu e seus amigos conversavam. Ela estava razoavelmente distante… Mas Manu avistou-a. Aquela menina era Aline. E Manu fica pasma em saber que ela era igual à descrição dada por ele. Não era nem alta nem baixa… Como Manu dizia, “era alta o bastante para alcançar as prateleiras de chocolate no supermercado e baixa o bastante para que todos os garotos fossem mais altos que ela”. Seus olhos eram grandes e lembravam jabuticabas brilhantes… Tinha os cabelos esquisitos, usava franja de lado, seus traços eram grosseiros, mas ela era estranhamente bonita. Usava sapatos do tipo boneca, fazendo-a parecer mais pueril do que de costume. Não era do tipo que chamava muita atenção e aparentemente, gostava disso. A maneira como ela anda olhando para seus pés e se escondendo atrás de seus cabelos faz com que as pessoas acreditem em alguma ingenuidade.

Ela caminhava na direção da turma de Manu e esta, por sua vez, não parava de olhar Aline. Finalmente Aline passa por eles, sem sequer notar Manuela observando-a atentamente. Ela segue seu caminho, indiferente à turma de amigos, que agora ri de seu suéter rosa, completamente fora de moda. Aline se perde entre as outras pessoas e os carros que passam pela rua naquele momento. Neste momento, Manuela não pode mais avistá-la, porém ela continuava a pensar.

Manuela poderia dizer tudo sobre Aline. Desde os seus gostos musicais até a maneira como sorria e passava a mão nos cabelos, levando a franja a esconder o brilho de seu olhar preto-jabuticaba. Aline não sabia da existência de Manu, mas Manu sabia muito mais do que gostaria sobre a sua vida. Sabia que gostava de rock pesado, sabia que ambas tiveram mais ou menos a mesma criação, o que fazia das duas mais próximas do que se imagina… Manu também sabia que ela se sentia atraída por meninos de cabelos compridos e que gostava de usar roupas cheias de babados. Essas roupas faziam parecer que ela era uma menina doce e delicada… E talvez, por baixo da máscara de menina má que ela usava, existisse uma menininha indefesa mesmo.

Manuela sabia de Aline por causa dele. Ele que a descreveu tão bem… Guilherme. A fina corda que faz da vida de Aline e Manuela uma só. Aline e Manuela eram duas meninas diferentes, mas que se vistas sob o olhar profundo de um bom observador pareceriam iguais. Mas não tão iguais ao ponto de despertar a paixão do mesmo rapaz.

Aline já tinha sido louca por Guilherme, apaixonada por ele. Num tempo muito distante ela disse que o amava… Se nem naquela época isso era verdade, não seria hoje que essa idéia se convalesceria. Ela continuava vivendo. “Guilherme? Hum… foi bom. Próximo”. Guilherme não pensava o mesmo que ela. Ele ainda se prendia a esse relacionamento acabado, queria trazer à tona sentimentos que não existiam mais, sentimentos que não eram mais recíprocos… E então, a inocente Manu entra na história.

Quando Manuela conheceu Guilherme, ele queria esquecer da ex. Queria conhecer uma menina legal que o fizesse ver que a vida não tinha acabado porque um namoro havia terminado. E Manuela parecia ser esta menina. Eles conversavam muito e Guilherme começara a gostar de Manu. Ela estava encantada com ele… Um veterano de Jornalismo que fumava e bebia muito, cheio de problemas, mas que parecia um bebê quando sorria. Depois de muitas indiretas, os dois finalmente beijaram-se. É, eles faziam um casal bonito. Davam-se muito bem, parecia tão certo… Eles tinham que permanecer juntos! Mas as coisas certas não pareciam atrair Guilherme…

Uma semana. Demorou uma semana para o fantasma da ex perturbar Guilherme. Ele gostava de Manu, mas ela nunca seria Aline… E ele amava Aline. Guilherme sentou-se com Manu e disse a ela tudo o que estava acontecendo, contou de Aline e de tudo o que sentia. Ele realmente se preocupava com Manu e não queria magoá-la, ela não merecia. Manu aceita isso sem dizer nada, afinal não havia nada que ela pudesse fazer.

Longe dos olhares preocupados de seus amigos, Manu chorou tanto que neste dia dormiu de cansaço. Ela seguiu a sua vida, se é que podemos chamar assim. Cada dia amava mais Guilherme. Ele podia desarmá-la com o mais singelo toque, ele a tinha nas mãos. Os dois continuaram amigos. Talvez estivessem mais amigos do que antes… Talvez este tenha sido o maior erro de Manu.

Noite, aquela mesma fria e tediosa noite de segunda-feira. Aline segue sua vida, chega ao seu destino, sem mudança nenhuma em sua vida. A carona de Manuela chega e ela se despede de seus amigos. Ela segue para sua casa pensando… Pensando no encontro que tivera com aquela estranha tão bem conhecida. Aquele fantasma que tanto a atormentava e que, naquele dia, reviveu lembranças doloridas… Aquela menina que inevitavelmente a fez pensar, por entre lágrimas silenciosas e cúmplices daquele amor puro e não-recíproco: “Por que ela? Por que não eu?”.

Escrever “amor” nos braços dela.

Victoria desliga o telefone e pensa alguns segundos. Seu copo de água permanece sob a mesa, ela apaga as luzes e sai. Era seu namorado, Lucas, no telefone. Depois de três dias em silêncio, eles decidem que têm que conversar. Combinam de se encontrar em um barzinho próximo ao centro de São Paulo. Iam ali sempre, era realmente um local bastante agradável. Como sempre, Victoria chega antes. Tinha sido assim durante todo o namoro, e ela não se importava muito com isso. Lucas chega um pouco depois. Ambos se cumprimentam com um “oi” meio tímido e dão um selinho apenas. Nada de “eu estava com saudade blá-blá”. Pareciam dois estranhos.
Lucas começa falando. Victoria não sente vontade de falar, mas ouve com atenção àquele rapaz tão bonito que está na sua frente. Falam sobre os seus trabalhos, a sociedade em geral, política, futebol… E não comentam nada sobre eles e aquela situação ridícula que os envolve. Anos de convivência para uma “conversa de elevador”? Não podia ser assim.

- Bom, eu acho que é hora de falarmos de nós dois, não é? – começa Victoria, tensa.
- É, eu acho que sim. Afinal é isso que viemos fazer aqui…
- Bem, pode começar.

Lucas não sabe bem o que dizer… Sabe que é sua culpa. Sempre é. Ele não sabe como consegue brigar tanto com alguém que ele ama mais que a ele mesmo.

- Bom, Vick, me desculpe. Eu te amo demais. Perdoe aquelas coisas horríveis que eu disse naquele dia. Eu… Eu estava de cabeça quente, e eu sei que isso não justifica, mas é só o que eu posso fazer.
- Você sempre faz a mesma coisa. Durante todos esses anos têm sido assim. Você me ama, e me leva ao céu todos os dias. Mas faz com que eu me sinta péssima durante a maior parte do tempo. Eu passo mais momentos chorando por sua causa do que rindo com você! E está começando a ficar cansativo… – Ela estava disposta a resolver tudo naquele momento.

Lucas se vê sem saída. Será que ela quereria terminar? Será? Não, não é possível! Ela o ama, não é?

- Mas eu não faço por querer, é que eu não penso antes de falar… Eu sinto muito mesmo. Não vai…
- “Não vai mais se repetir, Victoria, eu te prometo.” – Completa Vick, nervosa. – Isso é tudo o que você sempre diz. E eu vim aqui querendo ser surpreendida.

Victoria não pode enxergar sua vida sem Lucas. Eles eram tão bons juntos. Mas o estado de tristeza constante em que ela se encontrava deixava-a com medo, ao mesmo tempo em que ela não gostava de estar assim todo o tempo. Ela o amava demais. Acreditava ter encontrado o amor de sua vida, realmente.

- Mas esse é só o que eu sou, Vick! Eu não posso fazer mais nada!! Te peço perdão e espero que me perdoe. Só posso dizer que não vai mais acontecer. Eu não vou mudar meu jeito por você. – Lucas mal acredita no que acaba de falar.

- Ah é? Então vai. Comece a fazer o que você queria ter feito desde o início. Faça meu rosto ferver como se ele nunca tivesse estado tão quente antes. Eu sei que você pode fazer isso. Permaneça sugando meus pensamentos e eliminando as palavras da minha boca. Inspire todo o meu ar e me tire todo o oxigênio necessário para que a minha existência se perpetue. Coma a minha comida, beba a minha bebida. Não me ofereça sequer migalhas suas, não preciso mais desse seu gosto amargo na minha boca. Faça-me esquecer do toque da sua pele na minha. Arranque meu coração de uma vez e nunca mais torne a fazê-lo bater. Dissipe rapidamente todas as lembranças que envolvam você. Torne-me um ser inanimado, incapaz de ter pensamento algum, completamente desmemoriado. Retire todos os beijos, apague todas as noites, revele todos os defeitos. Solte minhas mãos e me deixe ir.

O que ela mais temia tinha sido dito. Victoria finalmente disse tudo aquilo que estava entalado na sua garganta.

- Tudo bem então. Mas nunca se esqueça de que eu te amo. E que nunca vou te esquecer. Estarei sempre esperando o momento em que você verá que eu estou certo.

Lucas solta a mão de Victoria.

- Não espere. Não vou voltar. – Victoria diz, antes de pegar sua bolsa e sair.

Ela entra em seu carro e começa a chorar enquanto procura o lugar de colocar a chave para que possa ir embora. Ela não acreditava no que havia acabado de acontecer. No fundo, ela já sabia que seria assim. Mas ele sequer tentou detê-la. E ainda acha que está certo.

Lucas telefona para Victoria enquanto anda para sua casa. Ninguém atende… Ele decide esperar até o dia seguinte para falar com ela.

Victoria chega à sua casa. 13 mensagens em sua caixa postal. Entre a voz de Lucas, convites para festas e seu gerente pedindo para ela ir ao banco, ela decide tomar banho. Precisava se livrar daquela sensação horrível.

Lucas decide ir à casa de Victoria, ele havia errado, afinal. Precisava tê-la de novo em seus braços.

Após o banho, Victoria abriu o armário para pegar sua pasta de dentes. E encontrou uma lâmina de barbear, e a foto dela e de Lucas juntos, sorrindo. Atrás da foto estava escrito: “Eu te amo e é pra sempre. Não importa o que eu faça, não importa o que eu diga. Eu te amo e é só o que importa. Você é tudo o que me importa. Never forget. Lucas”. Victoria passou um tempo lendo aquelas palavras e refletindo com elas… Pegou a lâmina e se sentou um pouco. Ela o amava. Ele não podia ser passado na vida dela, nunca poderá ser assim. E ela finalmente se deu conta disso. Mas ela não agüentava mais chorar e sofrer por tudo isso…

Lucas chega. Toca a campainha e ninguém atende, a porta está trancada. Ele pega a chave-reserva embaixo do tapete. Chama por Vick e ninguém responde… A torneira do banheiro parece estar aberta. Ele vai até lá. A porta está trancada, ele chama Victoria e ela não responde. Lucas começa a ficar mais preocupado e então arromba a porta. E lá estava Vick, deitada no chão. Segurava a foto dos dois em sua mão esquerda e apoiava-a no peito. A lâmina estava jogada ao lado do seu corpo envolto naquela toalha branca. Seus cabelos ainda estavam molhados. Sua mão direita estava esticada ao lado do seu tronco. E havia um líquido vermelho embaixo dele. Seu pulso estava repleto de cortes. Todos eles eram iguais. Era a palavra “AMOR” escrita muitas e muitas vezes. Ele não acredita no que está vendo. Pega água para tentar acordá-la e ao olhar para a pia vê uma caixa de remédios vazia… Ele deita-se ao lado daquele corpo pequeno, frágil e frio e dorme ao lado dela. Como fizeram tantas outras vezes durante os anos de namoro…

E então, Victoria finalmente escreveu amor em seus braços… Pra sempre.

Enquanto Anna dorme.

Era a manhã de uma segunda-feira após um feriado prolongado. Em uma casa de tijolinhos vermelhos e jardim bonito, Anna acordou de um sonho bom. Cores, flores, perfumes… Era tudo tão lindo. O dia que a esperava não era tão bonito assim. Era cinzento e havia chuva demais. Ela abriu a sua janela e se deparou com o vento gelado que esfriou a ponta de seu nariz. Sua mãe veio trazer-lhe chocolate quente e então Anna deitou-se novamente. Em alguns segundos havia decidido não mais ir até a faculdade naquele dia chuvoso. Voltou a dormir.
Anna acordou… Dessa vez não se lembrava do sonho. A janela permanecia aberta e ela observava atentamente as gotas da chuva molharem as folhas das árvores. De repente ela se lembrou… Ela não foi até a faculdade hoje! Isso queria dizer que além de perder aulas, ela perdeu aquilo que era o único motivo de felicidade que ela tinha… Murilo. Ela não tinha visto Murilo. Uma sensação ruim tomou seu corpo e ela voltou a deitar. Adormeceu novamente.
E mais uma vez Anna acordou… Sua mãe veio chamar para almoçar. Já era tarde e ela ainda não havia comido nada. Anna disse que iria descer em alguns instantes e então sua mãe saiu de seu quarto. Ela permaneceu deitada pensando em tudo… Nas três provas que a aguardavam naquela semana, na sua inexistente vontade de estudar, de levantar, de trocar de roupa, de respirar.
Algumas lágrimas caíram de seu rosto e ela não pôde levantar para almoçar… Abraçou seu travesseiro e dormiu novamente. Dessa vez trancou a porta de seu quarto.
Final de tarde e a cena se repete… Anna acorda e dessa vez levanta-se e troca de roupa. Lava o rosto sem conhecer muito bem a menina de camiseta pólo que está olhando para ela no espelho. Liga a TV e passa o tempo inútil de sua vida apreciando as pessoas e sua felicidade descartável.
Sua mãe vem chamá-la para almoçar novamente. Anna diz que já vai e termina de ver uma daquelas séries enlatadas norte-americanas. Enfim desce e vai comer.
Ela come tão pouco que teve de mentir para sua mãe que estava com dor de estômago… Na verdade, não sentia vontade de comer nada.
Ela refugiou-se em seu quarto novamente. Nenhuma ligação perdida em seu celular… Murilo nem sentiu sua falta. Voltou a chorar, voltou a deitar, voltou a dormir.
Anna sonhava… Em seu sonho era tudo colorido novamente. Ela estava bem e sorria muito com seus amigos. Murilo estava ao seu lado e eles finalmente se acertaram depois de idas e vindas… Não havia motivo para lágrimas, tudo era riso e alegria. Em seu sonho Anna corria, corria e nunca se cansava.
De repente sua mãe vem chamá-la… E Murilo pede que ela fique… Anna se vê num dilema! Queria ficar com Murilo e com a mãe… Não sabia o que fazer… E então ela finalmente decidiu-se. Anna vai até sua mãe, diz que está cansada demais e decide ir com Murilo. Sua mãe chora arrasada por não poder segurar a filha… E assiste Murilo guiá-la para longe de sua visão.
Sua mãe entra no quarto e vê Anna dormindo novamente. Tenta acordá-la, mas ela não responde. “Anna? Anna! Anna, acorde!”, e nada de Anna acordar. Sua mãe desespera-se, pega o telefone e liga para uma ambulância. Anna está dormindo novamente… Anna dorme para nunca mais acordar.

Amor Despido.

Amor. Anos acreditando que ele existia, e que eu realmente o tinha encontrado. E de repente, as vendas foram-me tiradas sem pedir. Pude ver uma ilusão… Doce ilusão. Eu vivi coisas que jamais pensei que viveria, fui tão intensamente feliz que não sei se essa palavra realmente expressa a felicidade que senti durante todo esse tempo. E você, bom… Você foi a coisa mais linda que eu jamais achei que pudesse existir.
Entrou na minha vida de repente e logo eu me vi preso às garras desse seu amor. Garras que insistiam em me puxar cada vez mais para dentro do seu olhar misterioso e pueril. E eu, sem forças – e nem vontade - de me desvencilhar, fui dominado por ele. Lembro-me do momento em que me dei conta disso. Você não conseguia firmar seu olhar em lugar algum, suas pernas tremiam e eu podia sentí-las quando tocavam as minhas por debaixo da mesa. Pensava no quão difícil você deveria ser. Mal sabia eu que já havia te conquistado.
Talvez nunca tenha te contado, mas você já havia me conquistado também. Aliás, sinto que fui conquistado antes de te conquistar. Falávamos sobre comida, e então você me disse que gostava de comer sucrilhos com leite em pó. Naquele momento eu soube que era você. Tive plena certeza. Pude até mesmo ver nossos filhos, nossa casa… É eu sei, bobeira minha. Mas como você mesma sabe, este sou eu. Um tanto romântico, um pouco mais sonhador.
Comemorava os dias ao seu lado. Era tão bom viver tudo aquilo. Perguntava-me se era merecedor de tamanha felicidade. Não havia nada que eu quisesse mais do que estar com você. Era sempre isso o que eu mais desejava. Cada vez mais e mais momentos ao seu lado. Amava e era amado. Amava…. Era amado?
Você começou a ficar estranha. Não entendia bem o porquê. Achava que era algum problema, e por isso tentei ajudar. Você se esquivava, dizia que não era nada. Eu a respeitei, mesmo sem entender porque não queria compartilhar comigo o que estava fazendo-a agir daquela maneira. E você não me disse nada, apenas continuou com seu jogo de azar.
Passaram-se semanas e semanas e nada de você mudar. Comecei a ficar aflito, já não sabia mais o que fazer. O amor da minha vida estava escorrendo por entre meus dedos e eu não sabia como segurá-lo. Mas não podia apenas assistir àquilo. Claro que não. Tinha que lutar. Só não sabia que lutaria contra você.
Quanto mais eu tentava te trazer pra junto de mim novamente, mais você se afastava. O amor que eu sentia já me machucava mais do que trazia alegrias. Eu pude ver o que estava acontecendo.
Acaba. Pude perceber que o amor acaba. E todas as verdades trancadas tomam o lugar das mentiras que estavam à solta. E eu, infelizmente, fui o primeiro a saber. A mentira do teu amor já me corroía. A verdade dessa dor me fazia mal. Amava e sofria. Porém não conseguia deixar de te amar. Tinha que tomar uma decisão. E a tomei.
Terminei com você, mesmo que ainda te amasse quando o fiz. Mesmo que eu ainda te ame. Mesmo que você não acredite.
Ouvi coisas que jamais pensei que ouviria de você, fui tão intensamente triste que não sei se essa palavra realmente expressa a tristeza que eu senti naquele breve espaço de tempo em que te disse “não dá mais, vamos terminar”. E você… Você foi imprevisível! Parece que sabia tudo o que eu ia falar. Não vi uma lágrima, sua voz não estava chorosa como a minha. Parece que o fim apenas doeu em mim. Dói em mim. Não acreditava no que via. A única coisa que eu pensava era no quão idiota eu fui naqueles últimos anos.
Passou-se um mês. Este foi o tempo que demorou para a sua máscara cair. E então você veio me pedir uma chance. Diz que me ama. Diz que me ama muito e que nem sabe o quanto. Que errou e mais outras coisas tão clichês que poderia dizer que foram retiradas do diálogo de uma novela mexicana. Suas palavras já não me comovem mais, e isso é culpa sua.
Não posso dizer que não te amo, afinal são seus braços que me fazem falta todos os dias, são os seus beijos que eu desejo sempre que vou dormir, é o seu corpo que eu quero que esteja ao meu lado quando acordo. Eu te amo sim, te amo demais. Apenas escolhi não mais viver ao seu lado.
Continuaremos com as nossas vidas, teremos nossos filhos e talvez você nunca me esqueça, como disse pra mim quando me pediu a chance que nunca darei. Talvez eu esteja errado, existem muitos ‘talvez’ ao redor da minha decisão. Porém decidi que não posso mais viver assim. Você escolheu não se dar uma chance. Você escolheu que seria assim. Você achava que podia viver sem mim e quis tentar. Você perdeu. E só agora deu valor…
Sinto muito pelo que poderia ter sido e não foi. E nossos filhos, a nossa casa, todos os nossos planos, as coisas lindas que vivemos e que sonhei viver, estão guardadas na minha mente. Trancadas numa parte das lembranças que agora não quero lembrar, mas que um dia poderei retomar e pensar no quão intensamente feliz eu fui com você durante todos esses anos. Mesmo que eles tenham acabado em apenas alguns segundos, por entre algumas lágrimas minhas e sem protestos seus. Mesmo assim.