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Outra Noite Que Se Vai.

“Então me diz alguma coisa
Bate aqui de madrugada, pra lembrar daquele tempo
Pra sempre ou só por um momento
Me dá um beijo na boca e depois me leva pra tua casa…”

*Outra Noite Que Se Vai – Armandinho.

Daniela demorou pouco tempo para se apaixonar por Fernando, mas tempo demais para perceber isso. Antes que ela percebesse, tinha-o como melhor amigo: aquele pra quem contava tudo, desde seu dia-a-dia até seus namoros. E Fernando, que namorava Gabi quando eles se conheceram, fazia o mesmo com ela. Riam demais juntos, eram muito parecidos… E gostavam disso. No dia em que Dani contou que começara a namorar Bruno, amigo dos dois, Fernando ficou morrendo de ciúme. E ele não entendia direito o motivo, negou que estivesse com ciúme quando Daniela perguntou… Mas era claro como a neve, como todas as amigas diziam. Ele tinha sido extremamente grosso com ela, eles nunca haviam sequer se desentendido antes! E Daniela ficou confusa, mas o que mais doía era a maneira como ele a tinha tratado.
Bruno, quando passou na casa dela à noite, percebeu que ela estava diferente. Perguntou-lhe o que havia acontecido. Ele nunca tinha ido muito com a cara de Fernando, achava que ele gostava da garota. Ela, claro, negava. Depois de muito insistir, Bruno acabou por ouvir que Daniela tinha brigado com Fernando, mas ela não quis dizer o motivo. Ele ficou sem jeito por ver Daniela daquele jeito. Ela estava mais triste por ter brigado com um amigo do que feliz por ter começado a namorá-lo!
Durante um dia inteiro, Daniela e Fernando ficaram sem se falar. Foi aí que ela percebeu que, apesar de ter começado a namorar Bruno, estava apaixonada pelo seu melhor amigo. E a reação dele ao saber do namoro fez com que ela achasse que ele gostava dela também. No dia seguinte, quando se encontraram, Fernando pediu desculpas à Daniela e disse que havia agido daquela maneira porque Daniela escondeu que ia começar a namorar… A garota tinha pensado tudo errado então. Ele gostava mesmo da namorada, Gabi. Seguiram como sempre haviam sido, dois melhores amigos inseparáveis.
Daniela estava feliz com Bruno, ele era o namorado com o qual ela sempre sonhou. Um cara perfeito, como ela sempre dizia. Mas Fernando, que a conhecia tão bem, sabia que o sorriso dela não era mais tão feliz quanto antes. E ele também já não era mais o mesmo. Demorou um mês para que Daniela criasse coragem para se afastar de Bruno… Pediu um tempo. Ela era feliz com Bruno, o amava de fato! Mas era completamente apaixonada por Fernando, e não conseguia mais esconder isso. Ainda mais porque Fernando parecia sentir algo além de amizade por ela às vezes.

Meses depois, Fernando terminou com a namorada. E Daniela, depois de ter voltado com Bruno, terminou com ele de vez ao descobrir uma traição. Os dois estavam livres e a atração que sentiam começou a ficar incontrolável… Uma noite, na casa dele, a garota debruçava-se na janela do quarto enquanto riam juntos. Ele a olhou nos olhos e sorriu, aproximando-se um pouco mais. O estômago de Daniela pulou e finalmente eles se beijaram. Depois do beijo, se entreolharam, sem saber direito o que fazer. Aquilo iria se repetir? Teria sido um erro? Daniela não conseguia dizer nada, ela não queria dizer que o amava tanto quanto amava porque achava que ele ainda gostava da ex. E ele, por sua vez, não queria magoá-la. Ela não merecia, não depois de ter descoberto uma traição tão grande quanto a da melhor amiga e a de seu, na época, namorado. Ele apenas sorriu depois do beijo e continuaram conversando calmamente, disse que a amava e ela disse que o amava também. Isso continuou acontecendo dia após dia e, apesar de estar completamente feliz, Dani sentia medo de que isso acabasse um dia. Ele ainda se mostrava bastante interessado nas atitudes da ex-namorada, e isso a deixava triste, ainda que ela não demonstrasse essa tristeza.
No começo de junho, próximo do dia dos namorados, Fernando disse que precisava conversar com ela. Nessa época eles já estavam ficando oficialmente, todos os amigos sabiam. Até mesmo a ex-namorada dele, que desejou apenas que ele fosse feliz com a Daniela, que ela poderia fazê-lo feliz. Quando Daniela chegou à casa dele, eles se sentaram no sofá e ele disse, completamente sem jeito, que achava melhor que eles parassem de ficar. Ela começou a chorar e perguntou se ele ainda gostava da ex e ele disse que, apesar de ela ser uma garota maravilhosa e de realmente amá-la, ele não poderia fazê-la feliz por ainda gostar da ex. Ela chorou ainda mais depois de ouvi-lo afirmar. Não queria, mas não conseguia parar de chorar. Olhou pra ele e disse o quanto o amava, o quanto queria ficar com ele, o quanto poderia fazê-lo feliz e o quanto tinha sido idiota de ter pensado que, um dia, ele iria esquecer a ex-namorada. Saiu da casa dele correndo, certa de que não voltaria a vê-lo tão cedo.

Passaram-se algumas noites e Fernando não voltou a falar com Dani desde aquele dia. Mandou mensagens no celular pedindo que ela fosse até a sua casa, para que ligasse pra ele, pois ele estava preocupado, mas isso só deixava a garota mais triste. Ela ignorava qualquer tipo de tentativa do garoto e passou a se focar nos amigos, saía bastante com eles, divertia-se. Por vezes até via Fernando passar próximo dela, mas fingia que não o via. Ela não havia esquecido o que ele tinha dito. Perguntava sempre dele para os amigos, porque ele parecia estar mais magro, triste… Mas ele permanecia com o seu orgulho intacto e dizia que estava ótimo. “Que bom”, a garota dizia e continuava com sua rotina de festas e badalações.
Do outro lado da cidade, Fernando confidenciava a Vinícius, um de seus amigos mais próximos, que havia se arrependido de ter terminado com Daniela. “Tanta coisa a gente faz, depois quer voltar atrás”, ele dizia.

Daniela passava por perto da casa de Fernando todas as noites e sempre lutava contra a sua vontade de olhar para a janela aonde deram seu primeiro beijo. Naquela noite, ela olhou para a janela. Não havia ninguém lá e então ela sorriu sozinha, seguindo o seu caminho. Naquele instante seu celular tocou e ela leu uma mensagem que ele havia mandado: “Bate aqui de madrugada, pra lembrar daquele tempo”. Ela foi até a casa dele, bateu à porta e os dois ficaram se olhando por alguns instantes, sem dizer nada. Foi a vez de Fernando quebrar o silêncio:

- Então… Me diz alguma coisa. – ele a olhava nos olhos, esperando algum sinal para que ele pudesse beijá-la de uma vez e acabar com isso. Ela o olhou seriamente e disse:
- Alguma coisa! – ela disse e começou a rir.

Fernando riu junto com ela e aproximou-se. Os dois se beijaram.

Will You Still Love Me Tomorrow?

“I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now and I won’t ask again
Will you still love me tomorrow?”

*Will You Still Love Me Tomorrow? – Amy Winehouse 

O lençol branco cobria meu corpo enquanto eu sorria bobamente olhando para o teto daquele quarto, iluminado apenas pela luz da lua. Fechei os olhos e respirei fundo, vislumbrei a sacada enquanto as cortinas balançavam com o vento gelado da madrugada. Olhei para o lado e percebi que Duh ainda dormia. De bruços, como eu suspeitei. Dei-lhe um beijo no pescoço e sorri, roçando o nariz por entre seu cabelo bagunçado. Puxei o lençol pra cima, protegendo seu corpo nu daquela friagem. Levantei-me com meu robe e fui até a sacada apreciar a lua.
Ela estava linda, era noite de lua cheia. Respirei fundo, fechei os olhos e senti o vento congelar-me o nariz. Sorri com isso. Coloquei-me de costas pra lua e, debruçada sobre a sacada, olhei pra ele. Seus bagunçados cabelos castanhos contrastavam com a brancura do lençol. Seu braço estava caído para fora da cama e ele estava com uma expressão tão pacífica que ninguém ousaria dizer o que havíamos feito mais cedo. Era impossível olhar para ele naquele momento e não sorrir da maneira como eu estava sorrindo.
Pendendo a cabeça para o lado e colocando uma mecha dos cabelos para trás da orelha, eu ria sozinha, lembrando do seu sorriso safado e da maneira como ele franzia as sobrancelhas quando queria me torturar… Ele era bom no que fazia. Eu amava o que ele fazia, a maneira como ele fazia, ele. Acendi meu cigarro depois desse pensamento e desviei o olhar. Poucos carros passavam seis andares abaixo de mim, eu me sentia como a única pessoa acordada naquele momento. Eram quase quatro horas da manhã e eu era a única mulher com tantas dúvidas trazidas de brinde depois do único presente que esperei (e como esperei) ganhar na vida.
Voltei a fitar Duh… A cada tragada em meu cigarro pensava numa coisa diferente. O que aquela noite havia realmente significado? Será que os beijos e as juras de amor eterno feitas por entre os gemidos abafados de ambos significara realmente alguma coisa? Eu olhava para aquele corpo cansado sobre a cama e visualizava Alícia e Lucas correndo para os meus braços num final de tarde, enquanto o Duh carregava Sofia no colo até mim. Conseguia ver a foto da família num porta-retratos bonito ao lado do cinzeiro na sala de estar, nossas noites loucas pelos motéis daquela cidade iluminada. De repente meu corpo era tomado por dores que ainda não havia sentido, certamente hematomas de brigas futuras. Mais copos quebrados, mais tapas dolorosos, mais noites silenciosas aonde o meu choro calado se sobressaía por entre os xingamentos sussurrados ao pé do ouvido daquele Duh que eu não mais reconhecia enquanto forçava monstruosamente seu corpo contra o meu. Senti uma dor no peito por tudo o que poderia ser de nós e que, talvez, não fosse. Mas naquela noite, naquele instante… Naquele momento, ele era completamente meu.
Ele se mexeu na cama, virando seu rosto na direção do meu. Acordei dos meus pensamentos e fiquei olhando fixamente para seu rosto, esperando que ele acordasse. Ele não o fez. Dei uma risada baixinha balançando a cabeça e pensando comigo mesma no quanto ele deveria estar cansado para ainda não ter acordado e notado a cama vazia. Mordi os lábios pensando em como seria estar sozinha na minha cama depois daquela noite. Senti um medo instalar-se subitamente no meu corpo e voltei a olhar a lua, procurando respostas até para as perguntas que ainda não havia feito.
Ansiava por uma vida inteira exatamente daquela maneira: com aquele homem deitado em minha cama enquanto eu o fitava dormir numa noite bonita, com a lua brilhando no céu só para nós dois. Desejava apenas a certeza de que isso aconteceria todos os dias da nossa vida. Eu o amava, ele me amava, não havia dúvidas disso. Passamos a noite nos amando mutuamente e eu ainda era consumida com a incerteza do amanhã… Baixei a cabeça e terminei de fumar meu cigarro. Vi as últimas cinzas voarem sacada afora num transe, imaginando meus sonhos e desejos voando junto com elas. Acordei de meus devaneios. Preparava-me para voltar para a cama e fui surpreendida por um abraço apertado, mãos firmes tirando os cabelos do meu pescoço enquanto Duh me dava apenas um beijo no pescoço, o bastante para arrepiar meu corpo inteiro. Sorria feliz enquanto deixava minhas mãos apoiadas sobre as dele.

- Eu te amo, Mari. Te amo mesmo. – Duh me disse baixinho ao pé da orelha.
 Eu senti meus olhos brilharem enquanto dava um sorriso largo e voltava a olhar a lua.
- Você vai me amar amanhã? – Me vi silenciando a primeira coisa que veio à minha mente. Respondi, com toda a sinceridade que havia em mim naquele instante. – Eu vou te amar por toda a minha vida.

No Worries.

“Times like these we’ll never forget
Staying out to watch the sunset
I’m glad I shared this with you
You set me free
Showed me how good my life could be
How did you happen to me?”

*No Worries – McFly

- Ei, o que você vai fazer hoje de noite? – um Ferdinando empolgado pergunta no telefone enquanto Catarina ajeita os cabelos num belo rabo de cavalo, equilibrando o celular entre a orelha e os ombros, toda torta.
- Ah, acho que nada. Quer fazer alguma coisa? Eu tô com vontade de sair e milagrosamente estou quase pronta! – ela responde rindo quando percebe o telefone quase cair e o ajeita, segurando-o com uma das mãos enquanto dança pelo quarto.
- Estou passando aí em dez minutos, vamos tomar sorvete na praia. Ainda dá tempo de ver o pôr-do-sol! – Ferdinando levanta-se de sua cadeira e olha pela janela, conferindo o tempo. Seria um pôr-do-sol bonito…
- Até daqui um pouco então! Beijos, Ferd – Catarina desliga e corre pro banheiro. Ela não estava satisfeita com os cabelos, no fim das contas.

***

Catarina e Ferdinando são dois jovens paulistas que moram na cidade de Santos. Costumavam sair muito para caminhar na praia, era algo que os dois gostavam de fazer. Ferd, como ela o chamava, amava surfar e já disse que a ensinaria a fazer isso. Táta, como era chamada por ele às vezes, não queria fazer isso. Ela sequer se imaginava de pé numa prancha. Sem falar no medo que tinha do mar. Ela o adorava, mas tinha medo de um dia ser sugada por ele.
Nos últimos tempos eles tinham se visto bastante. Ambos estavam superando o fim dos seus respectivos relacionamentos. Ela tinha terminado algumas semanas antes dele, mas o relacionamento dela tinha acabado de uma maneira triste… O ex tinha viajado pra nunca mais voltar e a tinha abandonado, do nada. “Talvez tenha sido mesmo melhor assim, Táta”, o amigo consolava, dias depois do ocorrido enquanto a garota segurava as lágrimas. Depois foi a vez de Ferd. Ele terminou o relacionamento dele porque as coisas não estavam mais como antes e eles já não eram mais namorados. Eram apenas amigos que se beijavam… E as brigas superavam os momentos bons. Porém, da mesma maneira, ele não tinha mais contato com a ex. E Catarina o consolou dizendo que tudo ia acabar bem… Porque isso sempre acabava acontecendo de uma maneira ou de outra. E que os dois iam acabar crescendo. Ferdinando riu, guardando para si a piada sobre os 150 centímetros da menina.

***

A campainha da casa de Táta toca e ela desce as escadas correndo.

- Mãe, eu vou sair com o Ferd! Volto cedo, qualquer coisa eu ligo, beijo e tchau – corria para a porta com seus chinelos e ajeitando o vestidinho fresco que colocara para passear. Tinha feito as pazes com o cabelo, usaria solto.
- Uau! Não se atrasou, Catarina. Que milagre é esse? – Ferd ria enquanto abria o portão da casa da garota, deixando-a sair e fechando-o em seguida. A menina sorria para ele e depois mostrava a língua levantando um dos pés para alcançar o rosto do garoto – que possuía alguns trinta centímetros a mais que ela. Dava-lhe um beijo no rosto e cruzava os braços, fazendo um bico.
- Não precisa ficar me zoando, Ferd. Eu disse que já estava pronta, caso contrário acho que me atrasaria como das outras vezes! – ela ria e começava a andar com o garoto. Eles sempre tinham se dado tão bem! Desde o começo tinha sido assim. Só que na época em que eles se conheceram ambos namoravam. E ambos respeitavam isso, eles sempre foram apenas amigos.

A praia se aproximava conforme os passos dos dois se apressavam. E lá estava o mar para fazer com que eles se sentissem melhor. Ele estava calmo e era um belo final de tarde. O sol estava quase se pondo e Catarina sentava-se, em cima da camiseta de Ferd, de frente para ao mar. O garoto levantou-se e comprou picolés para eles enquanto conversavam e riam. Eles pareciam um casal de recém-namorados. Exceto pelo fato de que eram amigos e o garoto nunca deixava de zoar a menina. E a garota o sujava com o seu sorvete às vezes. O pôr-do-sol se aproximava e Táta abraçou Ferd, deitando sua cabeça nos ombros dele e colocando seus braços por volta da cintura do garoto. Ele deixou que os ombros da garota fossem envolvidos pelos seus braços e deu-lhe um beijo na cabeça, protegendo-a da brisa fresca que o mar trazia até eles.
O mar e o sol estavam quase se tocando quando então aconteceu. Catarina levantou a cabeça e encostou o nariz no queixo de Ferdinando, que continuou olhando o horizonte, alheio à movimentação da garota. Ela deixou as mãos apoiadas na areia e subiu o rosto devagar… Tão devagar quanto o sol aproximava-se do mar para então deixar a noite tomar conta do céu – que tinha uma cor meio alaranjada agora. Os lábios dos dois se encontraram e um beijo aconteceu. Os olhos dos dois fecharam e eles não apreciaram o pôr-do-sol. Ferdinando caiu de costas na areia e Catarina caiu por cima dele, ambos reabriram os olhos e começaram uma risada gostosa. A menina escondeu o rosto por baixo do queixo do garoto enquanto ele olhava para cima e lhe acariciava as costas. O céu nunca havia estado tão estrelado quanto naquele dia.

Brightest.

“I just know that she warms my heart
And knows where all my imperfections are
And she said that I was the brightest little firefly in her jar”

*Brightest – Beeshop

Rindo com suas amigas, Amelia prestava atenção no movimento do barzinho onde estava. Era um lugar lindo! Luzes coloridas tiravam a escuridão do ambiente e faziam com que todos ganhassem alegres tons de rosa-choque e verde-limão. Seu olhar vislumbra desde os que estão dançando, até os que acabaram de chegar. Ela pára o olhar em Sam por alguns minutos, sem que ele perceba. Havia algo nele que chamava sua atenção e talvez ela descobrisse o que era naquela noite.

Sam percebeu que uma menina estava olhando para ele. Era uma bonita menina. Tinha lisos cabelos castanhos que contrastavam com sua pele alva. Seus olhos eram vivos e sedutores, e sua boca era grande e atraente. Não deveria ser uma menina que chamava muito a atenção dos homens, principalmente com óculos de armação grossa escondendo seus olhos. Mas Sam achou-a um tanto quanto interessante. Isso era mau sinal… Garotas interessantes não davam bola para ele.

- Olá, tudo bem com você? - Amelia ouviu-se perguntando para o menino bonito que acabara de entrar no barzinho. Com a proximidade, Amelia pôde notar que ele tinha uma pinta em seu rosto… “Ficava bem nele”, ela concluiu.
- Oi… Tudo sim, eu acho. – Sam respondeu um pouco assustado com a abordagem. Mas estranhamente feliz.
- Bom, eu vi você entrar aqui sozinho… E você tá com uma cara triste. Se quiser sentar com minhas amigas a gente pode te fazer rir um pouco, que tal? - Amelia disse, enquanto pegava sua mão e o levava junto com ela.
- Acho que você não me deixou escolha. – respondeu rindo. – Mas qual o seu nome? 
- Ah, claro! Meu nome é Amelia, mas pode me chamar de Mia. É como todos me chamam. E, apesar de isso ser um tanto incomum, eu não sou tão louca quanto pareço. – Mia sorriu, deixando um pouco de sua vergonha aparecer.
- Ok, Mia. Meu nome é Sam, e eu acho que vou descobrir se você é louca ou não. - ele respondeu, seguindo a garota. Ele havia gostado do jeito dela. Parecia divertida, e decerto nunca havia feito aquilo em sua vida.

Passaram a noite conversando. As amigas de Amelia eram bem interessantes e Sam sentiu-se acolhido por elas. Mia era realmente muito divertida. Por diversas vezes ficou sem ar de tanto rir das besteiras que Sam dizia. A noite acabou e Mia mal podia esperar pelas próximas em companhia do palhaço Sam, que era como ela o chamava.

O dia seguinte chegou. Ambos acordaram tarde, como era de se esperar. Mia às 16h00, e Sam às 20h00. “Uau! Bem que ele disse que era um dorminhoco.”, ela lembrou-se da noite passada, enquanto o esperava ligar. Assim que acordou Sam ligou para ela e disse para ir até sua casa. Mia foi até lá.
- Olá, menina doidinha. – Sam recebeu-a sorrindo.
- Eu não sou doidinha, e olá, dorminhoco! – Mia deu-lhe um beijo no rosto e entrou em sua casa.

Estavam se conhecendo. Como todo início de relação havia muitos assuntos para se conversar. Eles falavam todo o tempo, sobre muitas coisas! Tinham uma sintonia maravilhosa e riam muito, em virtude das besteiras que ambos falavam. Sam sentia-se atraído por Mia, e achava que não seria tão ruim assim envolver-se com ela para tentar esquecer de sua ex. Mia estava gostando de como tudo estava acontecendo.

- Então quer dizer que eu sou dorminhoco? E ainda sou palhaço? Nem faz um dia que nos conhecemos e você já está me zoando? – Sam se fazia de vítima sorrindo.
- Sim, você quase hiberna! E é um palhaço sim. O palhaço pitoco… – Mia ria sem parar – Pitoquinho! – ela mostrou a língua pra ele, que sorriu.
- Se você mostrar a língua eu vou achar que você está dando em cima de mim. – Sam respondeu sério, sorrindo ironicamente.
- Pense como quiser, Sam. – Mia não pôde evitar dar risada, mais uma vez.

Eram dois bobos. Mas estavam se dando muito bem. Não se podia negar o clima envolvendo os dois naquela sala… Mas não podiam se precipitar.

- Eu vou pensar que você quer me beijar… – Sam dizia aproximando-se.

Em outra situação, em outro tempo, Amelia fugiria da abordagem e se arrependeria profundamente depois… Mas dessa vez ela não o fez. E então, Sam colocou a mão em sua cintura, olhou no fundo de seus olhos e suavemente tocou seus lábios. Mia correspondeu o beijo e sentiu sua face ficar quente. Ela estava um pouco ruborizada e, antes que se desvencilhasse de seus braços, disse sorrindo:

- Você não vai conseguir nada tão fácil assim, Sam. Sam arqueou a sobrancelha, rindo. Nunca ninguém havia feito isso com ele.
- Eu adoro desafios, Amelia.
- E eu os vencedores deles…
- Então você me adora, porque vou vencê-lo! – Sam sorriu.
- Eu espero que você vença, mas não será nada fácil… – Mia parecia tão segura de si. E, internamente, orgulhava-se disso.
- As coisas fáceis não têm graça. Sam terminou de dizer a última frase e piscou para Mia.

Ela bagunçou seus cabelos, como adorava fazer com ele, e jogou-se no sofá, comentando algo sobre um novo cd. Sam pensava que talvez ela o fizesse esquecer da ex… Amelia tinha algo de especial. Ele percebeu e estava disposto a experimentar isso que fazia dela diferente. Filmes, estudos (ele era mais novo que ela!), música e analogias idiotas entreteram os dois a tarde inteira.

Mia estava cada vez mais envolvida, mas não estava completamente apaixonada. Sam gostava de Mia. Ela o atraía cada vez mais e ele gostava do jogo de sedução onde estava inserido. Algumas semanas se passaram e eles nunca haviam se beijado decentemente. Até que Mia foi viajar. Passou o carnaval fora da cidade e deixou Sam aqui, mas mandava notícias todos os dias. Sam tornou-se mais caseiro por isso…
Quando Mia voltou esperava encontrar as coisas como elas eram anteriormente. Mas infelizmente não foi assim. Ela ligava para ele e ele dizia que estava ocupado, que assim que as coisas ficassem normais em sua casa ele falaria com ela. Ela o entendeu, mas morria de saudade dele todos os dias.
Sua insegurança começou a tomar conta dela e ela tinha medo que ele tivesse caído aos pés de sua ex novamente. Ela tinha muito medo disso. Outros garotos davam bola para ela, e ela tinha vontade de ficar com eles, mas seu Pitoco era a coisa que mais queria naquele momento.

Depois de alguns meses separados, Sam ligou para Amelia. Já passava da meia-noite e ela nem acreditou. Seu coração batia mais forte e ela mal conseguia falar com ele. Eram muitas coisas pra falar e a felicidade de falar com ele era tanta que ela nem sabia por onde começar… Porém, ele estava calado, seco… Triste.
Sam disse à Mia que ficaria afastado por uns tempos, mas que um dia voltaria à falar com ela normalmente, como faziam antes de ela ter ido viajar. Mia concordou, a contragosto. Afinal de contas, não havia nada que ela pudesse fazer.
Sam ainda gostava de sua ex, e mesmo que ele mesmo não falasse disso, Mia ficou sabendo por uma amiga em comum que eles tinham. Ela o entendeu e continuou vivendo sua vida. Ficou triste e desejou não tê-lo conhecido, mas sabia que isso era mentira.
Muitos garotos viviam atrás de Amelia, e ela até encantava-se com eles, mas pensava sempre em Sam.
Numa noite, antes de ir dormir, Mia olhou seu celular, como sempre.
Havia uma mensagem… De Sam! Seus olhos brilharam e ela ficou afoita, querendo saber o que ele dizia! Rezava para ser um sinal de sua volta, pois a saudade de Amelia crescia cada vez mais.
Na mensagem, Sam dizia que faltava pouco para ele voltar e que sentia muito a falta dela. Pedia para que ela não o esquecesse e dizia, pela primeira vez, que a amava.
No instante em que leu isso, ela sentiu-se bem. Sam tinha conquistado-a, antes mesmo que ela pudesse perceber. E ela soube, naquele instante, que o palhaço Pitoquinho era o único capaz de aquecer seu coração.

She Left Me.

“Since she left me
She told me
Don’t worry
You’ll be ok, you don’t need me
Believe me, you’ll be fine”

*She Left Me – McFly

- E como ele pôde fazer isso com você? Vocês têm um filho juntos! Um filho grande, forte, sadio! Como ele pôde deixá-la? – pergunta Carol, preocupada com a amiga que estava quieta, em estado de choque.
- Eu… Eu não sei. Eu não sei!

Mariana começa a chorar.

***

Há 18 anos atrás eles se conheceram. Amaram-se, casaram-se e tiveram um filho. O casamento deles era uma eterna lua de mel. Eles tinham suas brigas… Mas as pazes eram maravilhosas, e sempre acabava tudo bem. Ou pelo menos, era assim que Mariana pensava. A vida que eles levavam era a vida de um casal de namorados que acabara de se conhecer. E Mariana era imensamente feliz, cuidando de sua casa e de suas duas vidas, os dois pedacinhos dela mesma que andavam por aí: seu filho Lucas e seu marido, Daniel. Até que um dia, sem motivo algum, Daniel disse que precisava conversar com ela.

***

Mariana ainda não havia digerido aquela notícia. Ela achava que tudo aquilo era uma grande mentira, e que quando ela acordasse veria que nada havia mudado. Mas todas as pessoas ligando para sua casa e dizendo coisas horríveis, faziam com que a sua esperança diminuísse cada vez mais…

***

- Mari, eu tenho que te contar uma coisa… E eu vou dizer rápido porque eu não quero fazê-la sofrer. – começa Daniel, esfregando as mãos e não conseguindo sustentar seu olhar.
- Então diga logo! Você está me preocupando mais! – Mariana sequer pensou na hipótese de ele ter um caso ou coisa parecida… Ela achava que era algo com dinheiro, ou sobre Lucas.
- Eu estou tendo um caso com uma pessoa do meu trabalho já faz algum tempo e eu vou me separar de você. Mas fique tranqüila, o Lucas ficará com você e eu continuarei arcando com as minhas responsabilidades de pai.

***

“Daniel está demorando pra chegar e a bateria de seu celular deve ter terminado. Caramba, ele não podia ligar pra casa?” Mariana pensava enquanto andava de um lado para o outro. Decidiu acompanhar Lucas, que estava vendo um desenho animado. O telefone toca e ela corre para atender.

- Mariana, eu acabei de chegar aqui no restaurante e estou vendo o Daniel sentado com uma mulher… Ele te falou algo? – Luísa, sua amiga de infância liga para ela horas antes daquele fatídico diálogo.
- Ah, deve ser alguma amiga dele do trabalho, Luísa. Mas obrigada por ligar. Estava mesmo preocupada com ele e o celular dele está desligado, deve ter acabado a bateria.

E Mariana voltou a assistir o desenho com seu filho.

***

- Bom, tudo bem. Eu… Eu tenho que ir agora, está na hora de levar o Lucas na escola e eu fiquei de passar na casa da Carol. Até mais tarde!
- Mariana… Não haverá mais tarde. Eu estou indo embora de casa hoje…  E não voltarei mais a morar aqui. Amanhã venho para explicar tudo para o Lucas. – diz Daniel, tentando ser o mais sutil possível.
- Tá, tudo bem… Escuta, eu tenho mesmo que ir.

Mari sai o mais rápido possível da sala e pega Lucas, para levá-lo até a escola. Ela não diz nada o caminho inteiro. E Lucas estava preocupado demais em desvendar as formas das nuvens do céu para reparar em alguma coisa. Ele tinha apenas 09 anos. E veria seu pai sair de casa nos próximos dias…

- Tchau, mãe. Te amo! – Lucas beija o rosto da mãe e sai correndo até a porta da escola.
- Tchau, filho. Mamãe te ama muito também. – Mariana diz, com uma dor no coração, pensando em tudo o que tinha acontecido.

Mariana liga para Carol ainda na porta da escola e diz que vai na casa dela naquele momento porque necessita da amiga. Carol concorda e fica pensando no que Mari pode ter para lhe dizer.

***

Mari chega até a casa de Carol e lhe conta tudo o que aconteceu. Todos os detalhes, como elas costumavam fazer sempre, na época da escola. E Carol também não acreditou.

- Sabe, eu devo estar dentro de um pesadelo horrível. Isso tudo deve acabar daqui a algum tempo e eu ainda vou ver Daniel indo me acordar com um beijo na testa dizendo que só estava me vendo dormir… Ou vou brigar com ele pela mania incorrigível que ele tem de comer depressa e nos deixar sozinhos na mesa… Eu… Eu não posso acreditar que tudo isso acabou! Ele só pode estar brincando. – Mariana falava e sua voz ficava trêmula em alguns momentos… mas ela se segurava para não chorar. Se isso acontecesse, não seria a primeira vez que Carol a veria chorando.
- Mari… Eu não sei o que te dizer. Eu acho que você tem que se preparar para o pior. Eu conheço o Dani e eu sei que ele não diria isso sem um motivo. Ainda mais uma coisa tão grave assim… Afinal de contas ele te ama e… – A amiga percebe o que acabou de dizer.
Mariana ri ironicamente.
- Sim, ele me ama! Nossa, como ele me ama. Ele me repetiu isso inúmeras vezes, mas teve um caso? E agora está me deixando com nosso filho? Realmente, é muito amor.

Fica um silêncio entre as duas e lágrimas silenciosas começam a rompê-lo. 

- Como ele pôde fazer isso com você? Vocês têm um filho juntos! Você o ama! Têm um filho grande, forte, sadio! Como ele pôde deixá-la? – pergunta Carol, preocupada com a amiga que estava quieta, em estado de choque.
- Eu… Eu não sei. Eu não sei!

Mariana começa a chorar.

Chorava desejando que tudo isso fosse mentira. Desejando que aquele dia nunca tivesse existido. Desejando se acabar em lágrimas e nunca mais precisar acordar para enfrentar a cama vazia todas as manhãs…
Mas, não pela primeira vez, seus desejos não iriam se realizar.