. caradepanela .
Manoela, você sabe que é mais bela do que elas…

Fev
08

Estávamos no inverno, era uma terça-feira. Eu acordei irritada, o sol se instalava janela adentro e fazia meu corpo inteiro queimar. Levantei-me da cama com um bico e as sobrancelhas franzidas, como sempre fazia quando estava com raiva, e fechei a janela de uma vez só. O cachorro da vizinha latiu com o barulho e eu resmunguei alguns xingamentos, voltando a deitar. Dei uma olhadinha no relógio, ele mostrava 10h00. Eram 10h00 de uma terça-feira comum.
Costumo dormir com o celular na cômoda ao lado da cama, e como o calor infernal tirou meu sono, decidi pegá-lo para ficar fazendo nada. Talvez dar uma olhada na quantidade de pessoas – que não me ligam – da minha agenda telefônica. Havia uma mensagem e não pude evitar sorrir. Era Filipe. Ele chegava hoje! Odiava terças-feiras, mas essa não podia ter começado melhor.
Filipe era meu namorado, nos conhecíamos a mais de um ano. Ele viajou um dia depois que completamos um mês de namoro. Antes de Filipe tinha tido alguns namorados, mas nunca havia me entregado daquela maneira. Filipe havia se tornado metade de mim. Quando estávamos separados era como se me faltassem as pernas. Eu ficava estagnada, imersa nas lembranças dos momentos que passávamos juntos, imaginando como seria quando o visse novamente. E quando ele aparecia de novo, ah! Quando ele aparecia de novo era meu momento favorito entre todos os momentos do mundo! Eu voltava a andar.
Dei um sorriso e levantei-me logo, mandei uma mensagem pedindo que passasse em casa à tarde, íamos andar na beira do mar abraçados, esperando o pôr-do-sol. Eu nunca havia visto o pôr-do-sol e a praia era logo ali, alguns quarteirões da minha casa.
Tomei banho, cantarolei como sempre fazia enquanto procurava uma roupa, me troquei e passei um tempo na internet. Ele estava demorando, mas eu estava tão feliz que nada iria me fazer ficar triste naquele dia.
O sol começava a se esconder por trás das nuvens, o céu ficara cinza de uma hora pra outra e havia um vento gelado cortando-me a pele. Eu não esperava por um tempo daquele, meu short e minha regata denunciavam isso. Eu chorava um choro incessante, mal conseguia respirar por entre as lágrimas. Mais cedo, ainda naquele dia, recebi uma ligação do celular de Filipe. Mas quem falou comigo não foi ele.
A pessoa com quem falava me informou de um acidente próximo à minha casa. Ela me descreveu o carro de Filipe e disse que ele estava no Hospital Ana Costa. Eu desliguei antes que ela me dissesse o estado dele. Acho que nunca dirigi tão rápido em toda minha vida. Médicos passavam por mim às pressas, eu não conseguia enxergar direito o que estava acontecendo por trás daquele vidro transparente, mas não deveria ser uma coisa boa… Eles conversavam entre si e pareciam nervosos e então eu comecei a ouvir barulhos familiares, eles significavam que a coisa não estava boa mesmo. Minhas maratonas de ER e Grey’s Anatomy finalmente tiveram alguma utilidade. Não conseguia ficar parada e também não conseguia ver o desespero dos médicos. Sentei-me e entrelacei minhas mãos numa prece, coisa que nunca havia feito. Não ligava para orações, mas naquele momento eu sabia que rezar era a única coisa que eu poderia fazer.
Às 16h00 os médicos desligaram todas as máquinas e vieram falar comigo. Contaram-me que Filipe não havia resistido aos ferimentos, que eles sentiam muito… Disseram que eu poderia ir até lá me despedir dele enquanto eles entravam em contato com sua família. Entrei naquele quarto em transe, olhava para aquela maca sem piscar. Avistei o rosto de Filipe e olhei pra ele, mas era como se eu não pudesse realmente vê-lo. Fiquei um tempo fazendo isso até que olhei no relógio em seu pulso. Ele estava quebrado e marcava 14h14. Saí correndo do hospital, fazendo uma enfermeira derrubar sua prancheta e um bolo de papéis que carregava.
Corria feito louca, as pessoas me olhavam assustadas, saindo da minha frente o mais rápido que podiam. Deixei meu carro no hospital e corri até a praia. Eu precisava chegar lá. Eram quase 18h00.
Agora o céu estava repleto de nuvens cinzas e eu me envolvia num abraço forte, tentando não ser afetada pelo frio gelado que o mar trazia até mim. Sentada num banco da praia eu olhava o mar com atenção, pensando em tudo o que tinha acontecido. Comecei a chorar e chorar. As lágrimas não paravam de rolar pelo meu rosto, sentia vontade de gritar e correr até o mar, me jogar dentro dele e fazer com que ele me levasse pra longe. Quando as lágrimas secaram eu podia sentir a dor no meu peito. Eu nunca havia sentido uma dor tão grande em toda a minha vida. O sol se pôs, fui pra casa.
A única vez em que tinha visto um cadáver foi quando meu pai morreu. À contragosto me levaram no velório dele e eu chorei tanto, mas tanto, que minha cabeça ficou doendo por uma semana. Apesar de tudo, não era tão difícil se acostumar àquilo. Sempre se espera que os mais velhos morram antes. Você sempre espera enterrar teus pais, e não o contrário. Depois daquele dia eu jurei que nunca mais iria à velório algum. Foi o único juramento que quebrei.
O que mais gostava no Filipe eram seus olhos castanhos e as pintinhas que ele tinha pelo corpo. Quando me aproximei do caixão a mãe dele me abraçou e me beijou a testa, como faria com a filha dela, se tivesse uma. Eu peguei a mão dele e apertei, ele estava gelado. Envolvi minhas duas mãos nas dele então e fiquei olhando pros olhos fechados dele, pedindo baixinho que ele os abrisse. Ele não o fez. Chorei copiosamente durante todo o tempo que estive no velório. Não podia acreditar que nunca mais o veria, não queria largar a sua mão. Olhava para seu corpo pálido, as pintas atrás de sua orelha estavam ali e eu sorri de leve lembrando-me do quanto ele as odiava. Eu não queria deixá-lo ir.
Uma vez, numa das nossas saídas, Filipe pediu para eu lhe prometer uma coisa. Aliás, ele me pediu para prometer duas coisas! Uma delas era nunca deixar de sorrir, porque meu sorriso era a coisa mais linda e mais preciosa que eu tinha. Achei essa um tanto quanto estranha, mas prometi. E a outra era para que, independente do que acontecesse conosco, eu nunca lhe desse adeus. Ele dizia que adeus era um tchau sem volta, por isso nunca deveria dizer adeus para ele. Mesmo que a gente terminasse, eu casasse com outro e tudo mais. Eu lembro que nesse dia eu bati nele e disse que a gente nunca ia terminar! A gente se amava e era pra sempre. Ainda brinquei que ele teria que me agüentar até o fim dos seus dias…
Ainda no velório as pessoas acenavam em coro enquanto o caixão era carregado. Todas elas diziam adeus em meio à um choro e eu agora sorria, como se alguém me colocasse magicamente um sorriso no rosto. Sorri novamente com algumas lágrimas nos olhos e disse tchau. É, eu disse tchau. Tchau, meu Filipe.

Dez
27

Era uma vez uma menina chamada Gabriela e um menino chamado Lucas. Gabriela era a garota mais inteligente da sua sala, adorava perguntar as coisas que lhe vinham à mente, não se importava de passar os dias estudando. Ela tinha um sonho, desejava ser médica. Lucas, por sua vez, não gostava de estudar. Ele tirava boas notas, mas não se importava em ficar com a fuça em livros e mais livros. Achava que a vida era boa demais pra ficar se preocupando com isso. Lucas tinha tantos sonhos que não conseguia dizê-los. E então, um dia, os dois se encontraram.
A menina Gabriela passou a tirar notas mais baixas e já não se preocupava tanto com isso. Percebeu que o mundo tinha mais a oferecer do que apenas fórmulas de física e equações matemáticas. Lucas expandiu seu vocabulário e sua mente, suas notas melhoraram, e ele decidiu que seria arquiteto! Agora ele estudava pra isso.
Gabriela e Lucas começaram a se gostar. Ela com sua mania irremediável de devorar um pote de Nutella por dia, e ele com a sua dieta devidamente balanceada, aonde nenhum doce poderia entrar. Gabriela e sua coca, Lucas e seu suco de laranja. Eram opostos em tudo, discutiam por nada. Não demorou muito tempo para essa amizade intensa e essa implicância tremenda se transformarem em… Amor!
Lucas e Gabriela não conseguiam conversar sem discordar. Era assim com tudo, tudo mesmo. Desde comida até política. Gabriela gostava de pizza, Lucas detestava e achava que ela comia carboidratos demais. Lucas fazia basquete, Gabriela odiava esportes. E mesmo sendo tão errado, eles pareciam tão certos juntos. E todas as brigas e discussões eram silenciadas com um beijo. Às vezes dois, às vezes mais que isso.
Ela era dele. Ele era dela. Eles eram um! E isso era a única coisa em que eles concordavam. O mundo de Gabriela passou a ser Lucas e o relacionamento que eles tinham. E o mundo de Lucas passou a ser a sua doce Gabi, e o amor que os unia. Tudo o que Lucas pensava e fazia, era por ela, pra ela. E com ela acontecia a mesma coisa. Eles deixaram de ser cada um deles e passaram a ser os dois! Juntos, unidos. Em tudo. Pra sempre.
Os primeiros meses vieram e com eles as novas descobertas. Viveram tanto juntos, tanto tempo… Anos passaram, brigas passaram, confusões passaram, discussões passaram. O amor… Passou. Sim, o amor passou. E eles continuaram juntos, perguntando-se se aquele era o fim do “pra sempre” prometido durante anos. De repente o “te amo mais que tudo” restringiu o tudo à coisas tão pequenas que não adiantava repetir isso dia após dia. E as brigas passaram a ser constantes. Eles precisavam de coisas que já não podiam mais se dar. E então tudo aconteceu! Mais brigas, berros, tapas, choros, traições, decepções, sofrimentos… Tempo. O tempo aconteceu.
Mais um ano se passou. Gabriela já não era mais a menina de antes, Lucas já não era mais o garoto de antes. Eles tinham crescido, amadureceram. Já não havia lágrimas no rosto de ambos, nem sofrimento, nem raiva. Véspera de ano novo duas pessoas - que já tinham sido apenas uma – encontram-se.
Lucas estava com uma nova namorada, abraçava-se com ela da mesma maneira que era com Gabriela, envolvendo-a totalmente, como se nada pudesse desunir aquele abraço. Gabriela caminhava sozinha, com seu mp3. Eles olharam-se por instantes, sorriram um para o outro e continuaram seu caminho. Naquele momento os anos que passaram juntos estampavam o olhar dos dois. Eles sorriram por relembrar as boas lembranças, os ótimos momentos que compartilharam. Gabriela balançou a cabeça, como quem se livra de um passado distante e continuou andando, com um sorriso ainda maior no rosto. Lucas olhou para trás rapidamente e viu que Gabriela não fez o mesmo. Sorriu-se e abraçou sua nova namorada mais forte.
Lucas e Gabriela amaram-se, brigaram-se, uniram-se, tentaram-se, perderam-se. E descobriram que precisavam de apenas uma coisa para seguir suas vidas. Deles mesmos.
O reveillón daquele ano não poderia ter sido melhor.

Nov
09

“Times like these we’ll never forget
Staying out to watch the sunset
I’m glad I shared this with you
You set me free
Showed me how good my life could be
How did you happen to me?”

*No Worries – McFly

- Ei, o que você vai fazer hoje de noite? – um Ferdinando empolgado pergunta no telefone enquanto Catarina ajeita os cabelos num belo rabo de cavalo, equilibrando o celular entre a orelha e os ombros, toda torta.
- Ah, acho que nada. Quer fazer alguma coisa? Eu tô com vontade de sair e milagrosamente estou quase pronta! – ela responde rindo quando percebe o telefone quase cair e o ajeita, segurando-o com uma das mãos enquanto dança pelo quarto.
- Estou passando aí em dez minutos, vamos tomar sorvete na praia. Ainda dá tempo de ver o pôr-do-sol! – Ferdinando levanta-se de sua cadeira e olha pela janela, conferindo o tempo. Seria um pôr-do-sol bonito…
- Até daqui um pouco então! Beijos, Ferd – Catarina desliga e corre pro banheiro. Ela não estava satisfeita com os cabelos, no fim das contas.

***

Catarina e Ferdinando são dois jovens paulistas que moram na cidade de Santos. Costumavam sair muito para caminhar na praia, era algo que os dois gostavam de fazer. Ferd, como ela o chamava, amava surfar e já disse que a ensinaria a fazer isso. Táta, como era chamada por ele às vezes, não queria fazer isso. Ela sequer se imaginava de pé numa prancha. Sem falar no medo que tinha do mar. Ela o adorava, mas tinha medo de um dia ser sugada por ele.
Nos últimos tempos eles tinham se visto bastante. Ambos estavam superando o fim dos seus respectivos relacionamentos. Ela tinha terminado algumas semanas antes dele, mas o relacionamento dela tinha acabado de uma maneira triste… O ex tinha viajado pra nunca mais voltar e a tinha abandonado, do nada. “Talvez tenha sido mesmo melhor assim, Táta”, o amigo consolava, dias depois do ocorrido enquanto a garota segurava as lágrimas. Depois foi a vez de Ferd. Ele terminou o relacionamento dele porque as coisas não estavam mais como antes e eles já não eram mais namorados. Eram apenas amigos que se beijavam… E as brigas superavam os momentos bons. Porém, da mesma maneira, ele não tinha mais contato com a ex. E Catarina o consolou dizendo que tudo ia acabar bem… Porque isso sempre acabava acontecendo de uma maneira ou de outra. E que os dois iam acabar crescendo. Ferdinando riu, guardando para si a piada sobre os 150 centímetros da menina.

***

A campainha da casa de Táta toca e ela desce as escadas correndo.

- Mãe, eu vou sair com o Ferd! Volto cedo, qualquer coisa eu ligo, beijo e tchau – corria para a porta com seus chinelos e ajeitando o vestidinho fresco que colocara para passear. Tinha feito as pazes com o cabelo, usaria solto.
- Uau! Não se atrasou, Catarina. Que milagre é esse? – Ferd ria enquanto abria o portão da casa da garota, deixando-a sair e fechando-o em seguida. A menina sorria para ele e depois mostrava a língua levantando um dos pés para alcançar o rosto do garoto – que possuía alguns trinta centímetros a mais que ela. Dava-lhe um beijo no rosto e cruzava os braços, fazendo um bico.
- Não precisa ficar me zoando, Ferd. Eu disse que já estava pronta, caso contrário acho que me atrasaria como das outras vezes! – ela ria e começava a andar com o garoto. Eles sempre tinham se dado tão bem! Desde o começo tinha sido assim. Só que na época em que eles se conheceram ambos namoravam. E ambos respeitavam isso, eles sempre foram apenas amigos.

A praia se aproximava conforme os passos dos dois se apressavam. E lá estava o mar para fazer com que eles se sentissem melhor. Ele estava calmo e era um belo final de tarde. O sol estava quase se pondo e Catarina sentava-se, em cima da camiseta de Ferd, de frente para ao mar. O garoto levantou-se e comprou picolés para eles enquanto conversavam e riam. Eles pareciam um casal de recém-namorados. Exceto pelo fato de que eram amigos e o garoto nunca deixava de zoar a menina. E a garota o sujava com o seu sorvete às vezes. O pôr-do-sol se aproximava e Táta abraçou Ferd, deitando sua cabeça nos ombros dele e colocando seus braços por volta da cintura do garoto. Ele deixou que os ombros da garota fossem envolvidos pelos seus braços e deu-lhe um beijo na cabeça, protegendo-a da brisa fresca que o mar trazia até eles.
O mar e o sol estavam quase se tocando quando então aconteceu. Catarina levantou a cabeça e encostou o nariz no queixo de Ferdinando, que continuou olhando o horizonte, alheio à movimentação da garota. Ela deixou as mãos apoiadas na areia e subiu o rosto devagar… Tão devagar quanto o sol aproximava-se do mar para então deixar a noite tomar conta do céu – que tinha uma cor meio alaranjada agora. Os lábios dos dois se encontraram e um beijo aconteceu. Os olhos dos dois fecharam e eles não apreciaram o pôr-do-sol. Ferdinando caiu de costas na areia e Catarina caiu por cima dele, ambos reabriram os olhos e começaram uma risada gostosa. A menina escondeu o rosto por baixo do queixo do garoto enquanto ele olhava para cima e lhe acariciava as costas. O céu nunca havia estado tão estrelado quanto naquele dia.

Set
20

Gustavo,
Eu queria saber como começar esse texto, mas não consigo. Simplesmente não sei o que te dizer. Tua carta me pegou completamente desprevinida. Agora eu estou sendo embalada pelas vozes de três irmãos que dizem que essa noite eu vou voar. E, na verdade, eu já fiz isso. Mas as lembranças insistem em me seguir aonde quer que eu vá. Eu sorri com a tua carta e com a maneira como você encaixou as palavras e fez com que elas me confortassem.
Sim, é maravilhoso na California. Aqui o sol sempre resolve aparecer e isso me lembra o Rio, às vezes. Eu fico imaginando como seriam as coisas se eu estivesse aí… Ou se você estivesse aqui. Eu sinto tanto a tua falta… Tanto. Talvez eu tenha errado nas minhas escolhas… Acho que eu acabei fazendo tudo errado. E no final, as coisas acabaram dando certo, mesmo assim.
A viagem me foi conveniente porque depois de tudo o que aconteceu, fugir me pareceu o mais certo a fazer. Porém percebi que, mesmo em outro continente, meus pensamentos não mudaram. Eu estou tão presente no Rio quanto você está presente aqui, Gu.
Eu não vou te esquecer e você sabe. Espero que a minha ausência física não faça com que você esqueça de mim. A garota dos cabelos iluminados continua sorrindo feliz ao lembrar do guri que possui os olhos mais transparentes do mundo. Azuis, verdes… Claros! Tão claros que são capazes de espelhar o mundo ao meu redor.
Obrigada pela carta e pelas palavras que você julga serem desimportantes. Você não sabe o quanto elas têm importância pra mim. Até daqui um pouco. Bem pouco.
Manoela.

- Carta à uma pessoa querida: http://dozemetros.blogspot.com/2008/09/aula-de-portugus-170908-redao-tema_19.html

Set
09

Era noite… A fria noite de uma segunda-feira comum. A ressaca do final de semana ainda surtia efeito naqueles corpos pouco acostumados à rotina das aulas. É o início do ano letivo e todos tentam se desacostumar da vida que levavam nas férias. Há uma roda de amigos conversando na frente da faculdade de letras. Contam suas aventuras, divertem-se com isso. Entre eles há uma menina. Uma menina pouco alta, com iluminados cabelos loiros. Ela usa uma franja reta que lhe tapa a visão e encobre seus belos olhos verdes (ou seriam eles azuis?), também escondidos por óculos de armação preta que lhe dão um ar de intelectual. Aparentava mais idade do que tinha, aparentava ser mais feliz do que era. Seu nome era Manuela, mas todos a chamavam de Manu. Ela estava esperando sua carona, como fazia todos os dias. Ria e fazia rir.

Noite, era a mesma noite de segunda… Uma outra menina se aproximava do campus aonde Manu e seus amigos conversavam. Ela estava razoavelmente distante… Mas Manu avistou-a. Aquela menina era Aline. E Manu fica pasma em saber que ela era igual à descrição dada por ele. Não era nem alta nem baixa… Como Manu dizia, “era alta o bastante para alcançar as prateleiras de chocolate no supermercado e baixa o bastante para que todos os garotos fossem mais altos que ela”. Seus olhos eram grandes e lembravam jabuticabas brilhantes… Tinha os cabelos esquisitos, usava franja de lado, seus traços eram grosseiros, mas ela era estranhamente bonita. Usava sapatos do tipo boneca, fazendo-a parecer mais pueril do que de costume. Não era do tipo que chamava muita atenção e aparentemente, gostava disso. A maneira como ela anda olhando para seus pés e se escondendo atrás de seus cabelos faz com que as pessoas acreditem em alguma ingenuidade.

Ela caminhava na direção da turma de Manu e esta, por sua vez, não parava de olhar Aline. Finalmente Aline passa por eles, sem sequer notar Manuela observando-a atentamente. Ela segue seu caminho, indiferente à turma de amigos, que agora ri de seu suéter rosa, completamente fora de moda. Aline se perde entre as outras pessoas e os carros que passam pela rua naquele momento. Neste momento, Manuela não pode mais avistá-la, porém ela continuava a pensar.

Manuela poderia dizer tudo sobre Aline. Desde os seus gostos musicais até a maneira como sorria e passava a mão nos cabelos, levando a franja a esconder o brilho de seu olhar preto-jabuticaba. Aline não sabia da existência de Manu, mas Manu sabia muito mais do que gostaria sobre a sua vida. Sabia que gostava de rock pesado, sabia que ambas tiveram mais ou menos a mesma criação, o que fazia das duas mais próximas do que se imagina… Manu também sabia que ela se sentia atraída por meninos de cabelos compridos e que gostava de usar roupas cheias de babados. Essas roupas faziam parecer que ela era uma menina doce e delicada… E talvez, por baixo da máscara de menina má que ela usava, existisse uma menininha indefesa mesmo.

Manuela sabia de Aline por causa dele. Ele que a descreveu tão bem… Guilherme. A fina corda que faz da vida de Aline e Manuela uma só. Aline e Manuela eram duas meninas diferentes, mas que se vistas sob o olhar profundo de um bom observador pareceriam iguais. Mas não tão iguais ao ponto de despertar a paixão do mesmo rapaz.

Aline já tinha sido louca por Guilherme, apaixonada por ele. Num tempo muito distante ela disse que o amava… Se nem naquela época isso era verdade, não seria hoje que essa idéia se convalesceria. Ela continuava vivendo. “Guilherme? Hum… foi bom. Próximo”. Guilherme não pensava o mesmo que ela. Ele ainda se prendia a esse relacionamento acabado, queria trazer à tona sentimentos que não existiam mais, sentimentos que não eram mais recíprocos… E então, a inocente Manu entra na história.

Quando Manuela conheceu Guilherme, ele queria esquecer da ex. Queria conhecer uma menina legal que o fizesse ver que a vida não tinha acabado porque um namoro havia terminado. E Manuela parecia ser esta menina. Eles conversavam muito e Guilherme começara a gostar de Manu. Ela estava encantada com ele… Um veterano de Jornalismo que fumava e bebia muito, cheio de problemas, mas que parecia um bebê quando sorria. Depois de muitas indiretas, os dois finalmente beijaram-se. É, eles faziam um casal bonito. Davam-se muito bem, parecia tão certo… Eles tinham que permanecer juntos! Mas as coisas certas não pareciam atrair Guilherme…

Uma semana. Demorou uma semana para o fantasma da ex perturbar Guilherme. Ele gostava de Manu, mas ela nunca seria Aline… E ele amava Aline. Guilherme sentou-se com Manu e disse a ela tudo o que estava acontecendo, contou de Aline e de tudo o que sentia. Ele realmente se preocupava com Manu e não queria magoá-la, ela não merecia. Manu aceita isso sem dizer nada, afinal não havia nada que ela pudesse fazer.

Longe dos olhares preocupados de seus amigos, Manu chorou tanto que neste dia dormiu de cansaço. Ela seguiu a sua vida, se é que podemos chamar assim. Cada dia amava mais Guilherme. Ele podia desarmá-la com o mais singelo toque, ele a tinha nas mãos. Os dois continuaram amigos. Talvez estivessem mais amigos do que antes… Talvez este tenha sido o maior erro de Manu.

Noite, aquela mesma fria e tediosa noite de segunda-feira. Aline segue sua vida, chega ao seu destino, sem mudança nenhuma em sua vida. A carona de Manuela chega e ela se despede de seus amigos. Ela segue para sua casa pensando… Pensando no encontro que tivera com aquela estranha tão bem conhecida. Aquele fantasma que tanto a atormentava e que, naquele dia, reviveu lembranças doloridas… Aquela menina que inevitavelmente a fez pensar, por entre lágrimas silenciosas e cúmplices daquele amor puro e não-recíproco: “Por que ela? Por que não eu?”.

Ago
05

Victoria desliga o telefone e pensa alguns segundos. Seu copo de água permanece sob a mesa, ela apaga as luzes e sai. Era seu namorado, Lucas, no telefone. Depois de três dias em silêncio, eles decidem que têm que conversar. Combinam de se encontrar em um barzinho próximo ao centro de São Paulo. Iam ali sempre, era realmente um local bastante agradável. Como sempre, Victoria chega antes. Tinha sido assim durante todo o namoro, e ela não se importava muito com isso. Lucas chega um pouco depois. Ambos se cumprimentam com um “oi” meio tímido e dão um selinho apenas. Nada de “eu estava com saudade blá-blá”. Pareciam dois estranhos.
Lucas começa falando. Victoria não sente vontade de falar, mas ouve com atenção àquele rapaz tão bonito que está na sua frente. Falam sobre os seus trabalhos, a sociedade em geral, política, futebol… E não comentam nada sobre eles e aquela situação ridícula que os envolve. Anos de convivência para uma “conversa de elevador”? Não podia ser assim.

- Bom, eu acho que é hora de falarmos de nós dois, não é? – começa Victoria, tensa.
- É, eu acho que sim. Afinal é isso que viemos fazer aqui…
- Bem, pode começar.

Lucas não sabe bem o que dizer… Sabe que é sua culpa. Sempre é. Ele não sabe como consegue brigar tanto com alguém que ele ama mais que a ele mesmo.

- Bom, Vick, me desculpe. Eu te amo demais. Perdoe aquelas coisas horríveis que eu disse naquele dia. Eu… Eu estava de cabeça quente, e eu sei que isso não justifica, mas é só o que eu posso fazer.
- Você sempre faz a mesma coisa. Durante todos esses anos têm sido assim. Você me ama, e me leva ao céu todos os dias. Mas faz com que eu me sinta péssima durante a maior parte do tempo. Eu passo mais momentos chorando por sua causa do que rindo com você! E está começando a ficar cansativo… – Ela estava disposta a resolver tudo naquele momento.

Lucas se vê sem saída. Será que ela quereria terminar? Será? Não, não é possível! Ela o ama, não é?

- Mas eu não faço por querer, é que eu não penso antes de falar… Eu sinto muito mesmo. Não vai…
- “Não vai mais se repetir, Victoria, eu te prometo.” – Completa Vick, nervosa. – Isso é tudo o que você sempre diz. E eu vim aqui querendo ser surpreendida.

Victoria não pode enxergar sua vida sem Lucas. Eles eram tão bons juntos. Mas o estado de tristeza constante em que ela se encontrava deixava-a com medo, ao mesmo tempo em que ela não gostava de estar assim todo o tempo. Ela o amava demais. Acreditava ter encontrado o amor de sua vida, realmente.

- Mas esse é só o que eu sou, Vick! Eu não posso fazer mais nada!! Te peço perdão e espero que me perdoe. Só posso dizer que não vai mais acontecer. Eu não vou mudar meu jeito por você. – Lucas mal acredita no que acaba de falar.

- Ah é? Então vai. Comece a fazer o que você queria ter feito desde o início. Faça meu rosto ferver como se ele nunca tivesse estado tão quente antes. Eu sei que você pode fazer isso. Permaneça sugando meus pensamentos e eliminando as palavras da minha boca. Inspire todo o meu ar e me tire todo o oxigênio necessário para que a minha existência se perpetue. Coma a minha comida, beba a minha bebida. Não me ofereça sequer migalhas suas, não preciso mais desse seu gosto amargo na minha boca. Faça-me esquecer do toque da sua pele na minha. Arranque meu coração de uma vez e nunca mais torne a fazê-lo bater. Dissipe rapidamente todas as lembranças que envolvam você. Torne-me um ser inanimado, incapaz de ter pensamento algum, completamente desmemoriado. Retire todos os beijos, apague todas as noites, revele todos os defeitos. Solte minhas mãos e me deixe ir.

O que ela mais temia tinha sido dito. Victoria finalmente disse tudo aquilo que estava entalado na sua garganta.

- Tudo bem então. Mas nunca se esqueça de que eu te amo. E que nunca vou te esquecer. Estarei sempre esperando o momento em que você verá que eu estou certo.

Lucas solta a mão de Victoria.

- Não espere. Não vou voltar. – Victoria diz, antes de pegar sua bolsa e sair.

Ela entra em seu carro e começa a chorar enquanto procura o lugar de colocar a chave para que possa ir embora. Ela não acreditava no que havia acabado de acontecer. No fundo, ela já sabia que seria assim. Mas ele sequer tentou detê-la. E ainda acha que está certo.

Lucas telefona para Victoria enquanto anda para sua casa. Ninguém atende… Ele decide esperar até o dia seguinte para falar com ela.

Victoria chega à sua casa. 13 mensagens em sua caixa postal. Entre a voz de Lucas, convites para festas e seu gerente pedindo para ela ir ao banco, ela decide tomar banho. Precisava se livrar daquela sensação horrível.

Lucas decide ir à casa de Victoria, ele havia errado, afinal. Precisava tê-la de novo em seus braços.

Após o banho, Victoria abriu o armário para pegar sua pasta de dentes. E encontrou uma lâmina de barbear, e a foto dela e de Lucas juntos, sorrindo. Atrás da foto estava escrito: “Eu te amo e é pra sempre. Não importa o que eu faça, não importa o que eu diga. Eu te amo e é só o que importa. Você é tudo o que me importa. Never forget. Lucas”. Victoria passou um tempo lendo aquelas palavras e refletindo com elas… Pegou a lâmina e se sentou um pouco. Ela o amava. Ele não podia ser passado na vida dela, nunca poderá ser assim. E ela finalmente se deu conta disso. Mas ela não agüentava mais chorar e sofrer por tudo isso…

Lucas chega. Toca a campainha e ninguém atende, a porta está trancada. Ele pega a chave-reserva embaixo do tapete. Chama por Vick e ninguém responde… A torneira do banheiro parece estar aberta. Ele vai até lá. A porta está trancada, ele chama Victoria e ela não responde. Lucas começa a ficar mais preocupado e então arromba a porta. E lá estava Vick, deitada no chão. Segurava a foto dos dois em sua mão esquerda e apoiava-a no peito. A lâmina estava jogada ao lado do seu corpo envolto naquela toalha branca. Seus cabelos ainda estavam molhados. Sua mão direita estava esticada ao lado do seu tronco. E havia um líquido vermelho embaixo dele. Seu pulso estava repleto de cortes. Todos eles eram iguais. Era a palavra “AMOR” escrita muitas e muitas vezes. Ele não acredita no que está vendo. Pega água para tentar acordá-la e ao olhar para a pia vê uma caixa de remédios vazia… Ele deita-se ao lado daquele corpo pequeno, frágil e frio e dorme ao lado dela. Como fizeram tantas outras vezes durante os anos de namoro…

E então, Victoria finalmente escreveu amor em seus braços… Pra sempre.

Mai
23

O dia amanhece na cidade desconhecida. Uma menina segura sua mala e caminha até o táxi mais próximo. As pessoas a observavam, curiosas. Ela não era dali. Definitivamente era uma turista. Com suas botas peter pan, seu casaco preto com as mangas puxadas até as mãos, cabelos lisos e uma franja encobrindo o olhar triste e choroso, a menina cantarolava músicas que pareciam fazer sentido para ela. Seu olhar encontrava placas, árvores e pessoas que ela nunca havia visto. Ela olhava todas as coisas ao mesmo tempo, e não prestava atenção em nenhuma delas. Ela não deveria estar ali. Ela não queria estar ali.

- Samantha, me dá sua mala. – sua mãe dizia ao longe… Ainda que estivesse ao seu lado.

A menina olha para ela, entendendo o que a mãe queria através de sua linguagem gestual. Ela não podia ouvir nada, além do volume máximo de seu mp3 que tocava a música de uma banda emo. Ela sofria, e as músicas expressavam isso.

- Você quer ir na frente? - a amiga de sua mãe lhe perguntava, enquanto se acomodava no banco de trás do táxi. 

Sam sentia o motorista estudando-a. Deveria estar pensando porque aquela garota bonita estava com um olhar tão triste. Mal sabia que estava errado. Sobre a garota ser bonita, no caso.

- Pra mim tanto faz. – ela respondeu, baixo.
- Ah, tudo bem então. Vá na frente.

E então a porta de trás se fechou. A garota ficou alguns instantes observando aquela cena e sorriu. Era inacreditável como as pessoas não percebiam que nada daquilo fazia diferença alguma. Sam sentou-se na frente, colocou o cinto e trocou a música. Era uma música feliz demais para a ocasião.

Os minutos passavam e o destino não chegava jamais. A garota se perguntava aonde era o hotel aonde eles passariam os três dias seguintes. Parecia que seriam os três dias mais longos da vida dela. “Eu já passei por aqui… Olha, que casa legal! Caramba, ainda tem lua no céu! Mas já é de manhã e… Droga, a lua! Mas que saco! Estou com saudade.” Eram esses os pensamentos que passavam pela mente daquela garota estranha e calada sentada ao lado do motorista.

- Mãe. – a menina tirava o fone e perguntava.
- Oi. Fala, Sam
- Que horas a gente vai? – o tom de voz da menina era mais calmo e mais baixo do que o normal. Estava triste. E fungava o tempo todo, evidenciando as lágrimas que havia chorado um pouco antes.
- Que dia a gente vai aonde? - a mãe da menina sorriu e perguntou.
- Embora, mãe. Que horas a gente vai embora?
- Embora? – a mãe respondia sua pergunta, com outra pergunta. Isso deve ser hereditário, Samantha fazia exatamente o mesmo, o tempo todo.
- Sim, mãe. – a garota respirou profundamente e olhou para trás, encontrando seu olhar com o da mãe – Que horas nós vamos embora pra casa?

A menina notou o motorista olhando para ela. Ela mal havia chegado e perguntava para a mãe quando voltaria. Deve ser esse o motivo do olhar triste, ele deve ter pensado. Aposto que notou que a garota permanecia com o mesmo olhar.

- Na mesma hora em que saímos de casa. 22h00. Sairemos do hotel depois do jantar, no sábado. - a mãe respondeu com um tom de voz mais sério. Não gostava de ver a filha perguntando-lhe à que horas iria embora… Elas haviam chegado agora!
- Ah tá. - Sam colocou os fones de novo e olhou pela janela. A lua ainda estava lá. A mesma lua que a garota havia observado antes de sair de casa, aquela que a observou durante todo o trajeto. Finalmente um sorriso apareceu em sua face. Sua saudade fazia com que se sentisse confortável, às vezes.

Chegaram no hotel, finalmente. Ele era lindo, a garota não podia negar isso. A cidade parecia bonita também. E algumas palavras do motorista aqueceram-lhe o coração. Ela mal havia entendido o que ele tinha acabado de falar, mas o sotaque dele era algo que ela podia escutar durante horas, ainda que não falasse nada de útil. “Ótimo. Alguma coisa boa nessa cidade”, a menina pensava. Ela estava sendo injusta, e sabia disso. Mas a saudade doía, e ela ainda não sabia lidar com essa dor.
“Três dias. Tá, vamos parar para pensar. A gente chegou hoje. Temos o dia de hoje, o de amanhã e o sábado inteiros pela frente. Sábado de noite vamos embora. Não vai demorar tanto. Se pararmos para pensar, vou passar dois dias inteiros aqui. Dois dias sem… Droga. Mil vezes droga. Odeio esse lugar.”

- Vamos tomar café? – a mãe perguntou, dissipando o pensamento paradoxal da garota.
- Pra mim tanto faz. Não tô com fome. - Sam respondeu sem tirar os fones do ouvido. Ela não demonstrava interesse em participar da conversa, em aproveitar a viagem. Ela queria voltar, ainda que não encontrasse braços abertos para esquentá-la na volta. Nem mesmo ela sabia porque sentia tanta necessidade assim de voltar. Um computador é tudo que ela precisava. Mas… A saudade doía, machucava mesmo. Só alguém que já sentiu essa dor pode saber como é.

Samantha olhava, agora com atenção, para todos os lugares. As placas do hotel estavam escritas em alemão. ”Qual será o significado disso?”, ela pensava. Adorava alemão. Não o entendia, mas achava bonito. A decoração do hotel era simples, o lugar era completamente aconchegante. Era como estar em casa. Tirando toda a coisa de não estar em casa. Samantha não esquecia isso um segundo sequer.

As pessoas receberam-na com todo carinho e pareciam mesmo fazer de tudo para colocar um sorriso na face da garota. Por fim ela foi vencida. Chocolate sempre a fazia sorrir. E suco de morango também. Ela comia sorrindo.
Sozinha. Tudo o que ela não precisava ficar era assim. Quando se distraía parava de pensar na dor que a incomodava sempre. A garota estava se acostumando… Iria doer até a volta. Começou a chorar novamente.
Sam estava aonde sempre quer estar. Algo que ela dizia sempre é que poderia ir até o fim do mundo, desde que tivesse um mp3, pilhas e um pacote de bolacha. As pessoas riam dela, mas ela falava sério. Suas lembranças a manteriam viva, assim como estavam fazendo naquele momento. Ela chorava pois as lembranças nunca a deixavam em paz. E ela achava isso maravilhoso. Era ótimo pensar nas pessoas que amava… Mas doía (muito) estar longe delas.
Tudo o que a garota pensava fazia sentido e ao mesmo tempo parecia não fazer sentido algum. Ela sempre viajava, porque dessa vez fazia esse drama todo? Por que dessa vez doía tanto ter de deixar as pessoas que tanto amava? Ela não entendia. A música dizia em sua mente que ela não ama como amava ontem… Certamente ama mais. Ela só chorava. E sorria! A lua continuava brilhando no céu, observando-a.

Mar
25

Andando pela rua com minha bolsa, meu all star e meu caderno repleto de recortes, estava distraída e ia para a faculdade. Sem relógio, caminhava calmamente, despreocupada com o horário em que chegaria à aula de Direito Penal. Sabia que chegaria a tempo de assistir à essa aula, de uma de minhas matérias preferidas.
A música “Os Outros” permanecia em minha cabeça e eu olhava as pessoas através de meus olhos quase cobertos pela franja. Enquanto seguia em direção ao canal 05, por uma extensa avenida, um cachorro cruzou-me o caminho.
Era um cachorro grande e seria bonito se fosse bem cuidado. Ele era alto e sua cabeça encontrava-se na altura de minhas coxas, sem que ele retirasse suas patas do chão. Era marrom, tigrado e um cachorro de rua. Possuía pequenas manchas beges pelo corpo e eu não ficaria pasma se o cachorro ficasse da minha altura quando estivesse sob suas duas patas.
Atravessava o canal 05 e já tinha avistado aquele cachorro na calçada, pensando comigo mesma: “Será que ele vai me morder?”. Esse medo existia em virtude de uma bela mordida no braço seguida de cinco doses de anti-rábica no mesmo dia, em meu terceiro ano. Em respeito àquele animal que caminhava livre e pomposamente, parei e o encarei, olhando seus carentes olhos sem brilho. O cachorro parou, estudou-me e não fez nada, de modo que eu sorri e continuei em meu caminho, permitindo tacitamente que ele fizesse o mesmo.
Porém, ele me seguiu. Eu disse à ele para ficar, para sair dali… Mas ele continuou me seguindo. Estávamos apenas os dois naquela calçada larga. Ele caminhava ao meu lado, e qualquer pessoa diria que o cachorro era meu. As outras pessoas que vinham nos fazer companhia às vezes, corriam seus olhos curiosas a fim de entender aqueles dois seres que caminhavam em sintonia.
Eu sorria enquanto ele, às vezes, se precipitava à minha frente, exibindo-se. Fingia não estar nem aí e olhava para os carros que passavam na rua, deixando-o triste. Ele então parava e fitava os olhos sobre mim, esperando-me. Eu o olhava pelo canto dos olhos e passava à sua frente, mostrando indiferença. Quando fazia isso, meu companheiro continuava parado, fazendo-me sentir sua falta ao meu lado. Olhava para trás e então ele vinha correndo em minha direção, continuando a caminhar. Posso jurar ter visto um sorrisinho irônico naquele focinho em uma das vezes em que fiz isso.
Dessa maneira seguimos o nosso caminho, que parecia levar ao mesmo lugar. Eu já estava até pensando em um nome para ele, tamanha a consideração que ele me arrancou em apenas alguns instantes. Eu estava feliz e perplexa com aquela situação. Jamais o havia visto, e ele já podia passar por meu! Ele deveria ter um nome forte, que condizesse com seu porte e sua aparência, inicialmente, amedrontadora. Porém, se você conseguisse olhar dentro dos olhos daquele cão, jamais poderia dar-lhe um nome desse tipo. Ele era um doce, extremamente carinhoso e possuía um olhar leal. Free. Livre, como o vento e como ele realmente o era. Era um nome que combinava com ele… Aposto que ele teria gostado.
Quando, finalmente, chegamos ao canal 04, Free esperou-me para atravessar, como sempre. Bastava que eu olhasse para ele, então ele parava, e ficava a esperar que eu fizesse menção a andar. Eu decidi virar no canal 04 e não mais seguir aquela avenida. Free decidiu que iria pela avenida, e atravessou sozinho, depois que eu virei no canal e antes que eu pudesse me despedir. Quando pisou na calçada, seguro, ele virou para trás e olhou-me por alguns instantes, enquanto eu fazia o mesmo, parada do outro lado. Ele percebeu que não iria com ele e virou-se, continuando seu caminho. Eu sorri sozinha, um pouco triste, e continuei caminhando para a faculdade.
A lembrança desse episódio ficará sempre guardada em minha memória, e Free será sempre uma companhia agradável para caminhadas. Esteja ele aonde estiver.

Mar
24

Cinza. Era assim que Belo Horizonte se encontrava naquela tarde do oitavo dia de março. As nuvens brancas tentavam sobressair por entre o céu que se tornava cada vez mais escuro. Havia carros passando pela avenida, pessoas caminhando rapidamente, olhando o céu e aguardando pela chuva que não viria naquele dia… E o sábado continuava cinza. Inseridos nesse cenário sóbrio estavam um garoto e uma garota, também cobertos pelo céu acinzentado. Eles estavam de pé numa rua e conversavam sem parar! Havia uma pequena distância entre eles… Distância essa que se tornava menor a cada movimento.
O garoto possuía grandes e escuros olhos azuis e um sorriso brilhante extremamente bonito. Era inevitável perceber seu sotaque mineiro e seu jeito acolhedor, escondido por um ego sempre inflado. O garoto das pintas no rosto sabia exatamente a hora de fazer rir e fazia isso à todo instante. Era criança de tudo, mas sabia conversar e conquistar uma garota. Pelo menos soube conquistar aquela garota paulista.
À sua frente estava uma tímida e avermelhada garota, que escondia suas mãos no bolso de trás da calça enquanto virava seus pés, calçados com um all star, para dentro. Ela tinha um ar esnobe, típico das pessoas do estado de São Paulo, que contrastava com seu jeito simples e carinhoso. Ambos riam da situação.
Qualquer pessoa poderia ver que gostavam um do outro. Era claro que aquele diálogo terminaria em um beijo, mas era delicioso apreciar o jogo de sedução que eles faziam um com o outro. Algumas pessoas assistiam a tudo, olhando disfarçadamente para aqueles dois que não ficavam em silêncio nunca. Era incrível como eles sempre tinham o que falar.
Falavam sobre coisas sem sentido. O garoto sempre fazendo a garota ficar vermelha e olhar para baixo, rindo-se da situação. Uma exímia utilizadora de indiretas, a garota arrancava olhares fixos e penetrantes do garoto… Sem que ela mesma conseguisse sustentá-los.

- Eu gosto da música “Vinte e Nove”, do Legião Urbana. A letra é legal e é o dia do meu aniversário – a garota comentava para depois rir.
- “Estou aprendendo a viver sem você” – o garoto cantava um trecho da música – Mentira! – ele sorria, olhando pra ela.

A cada momento ficava mais difícil manter a boca dos dois separada. Existia algo que os puxava para perto um do outro. E, pelo menos a garota, queria envolvê-lo para nunca mais soltar.

- Ah, minha bobinha! Não precisa ficar sem graça! – o menino dizia sorrindo, enquanto chegava mais perto dela.

Com as bochechas rosadas, a menina respondeu, olhando para ele:

- Por mais que eu queira, não consigo, meu bobinho. Gosto disso e não gosto disso. Entende?– ela desviou o olhar, passando os cabelos para trás de sua orelha.

O garoto analisou-a de perto e em silêncio. Sentou-se na rua com as pernas esticadas, parcialmente dobradas, e os cotovelos apoiados em seus joelhos. Lançou seu carente e azulado olhar para ela, pedindo, ainda que em silêncio, que ela explicasse o que havia dito. Ela sorriu e sentou-se ao lado dele, entendendo o que ele quis dizer.

- Entender sem não entender é uma arte milenar, sabia? – a garota sorria e olhava para ele. “Como ele podia ser tão perfeito?”, ela pensava.
- Ah, bobinha! Senta mais perto de mim, senta? – o garoto sorria enquanto batia a mão no chão, mostrando-lhe o lugar aonde ela deveria sentar.

Sem hesitação, a garota se viu atendendo ao pedido dele.

- Você fica com uma carinha de criança quando sorri, meu bobinho! – a garota apertava a bochecha do garoto, sorrindo.
- Cara de criança?! – ele disse, desconfiado. – Isso é bom? – ele mordeu de leve a mão dela, enquanto ela apertava a sua bochecha.
- É sim e ai! – ela ria enquanto exclamava a última palavra – Ficou a marca, olha só – ela mostrava sua mão que agora estampava um círculo vermelho feito por dentes. – Você não precisa arrancar pedaço de mim… Eu acho. – a garota ria sem parar.
- Deixa de fazer drama! Eu não quero arrancar pedaço, – o menino aproximava-se dela cada vez mais, pegando a sua mão e beijando-a no local da mordida – A menos que você queira que eu tire um pedaço de você…

O garoto respondeu com um sorriso no canto da boca, arrancando mais uma vez a brancura da pele da garota. Ele a encarava de perto e passava as mãos em seus cabelos, enquanto ela podia sentir a respiração dele em seu braço.

- E qual seria o pedaço que você arrancaria? – a garota olhou séria para ele, olhando no fundo de seus olhos azuis, perdendo-se por alguns instantes. Ela sorria ironicamente depois de dizer a frase, agarrando seus joelhos e sentindo o festival que as borboletas faziam em seu estômago.
Ele pensou alguns momentos antes de falar, apenas olhando para ela. O silêncio a deixava sem graça e ela olhava para ele, sorrindo.

– Eu não quero arrancar pedaço, bobinha. Quero fazer outra coisa. – ele se aproximava, olhando para os olhos e para a boca da garota.

Utilizando-se do pouco de coragem que existia dentro dela a garota aproximou-se mais dele, como se fosse ler seu olhar, e disse:

- Ah é? E por que não faz isso, meu bobinho? Conte-me! Eu estou curiosa. – a garota sorriu, dissipando o enrubescer de seu rosto.

O garoto sorriu seu sorriso mais largo e iluminou o rosto da garota. Colocou sua mão no rosto dela enquanto ela fazia o mesmo com ele, acariciando seu rosto com as costas da mão suave da garota. Ele fechou os olhos e encostou seus lábios nos dela. Um riso abafado e o toque do nariz de ambos precederam o beijo.
Suave, tranqüilo. Cheio de ansiedade e de vontade, tornava-se intenso. Ela se deixava levar pelos movimentos do garoto e ele sorria por entre o beijo. As borboletas paravam de voar no estômago da garota, que finalmente estava fazendo algo que tanto esperou para fazer.

- Eu estava tri louquinho para fazer isso, bobinha! Acho que você percebeu – ele sorriu para ela.
- Acho que percebi. – a garota ria vermelha e sem graça.

Passados alguns minutos os dois encaravam-se, felizes. O garoto levantou-se e estendeu a mão para a garota fazer o mesmo. Ele a abraçou, puxando-a pela cintura, mantendo seus corpos unidos. A garota paulista sorria enquanto deitava seu rosto no peito do garoto. Ela poderia ficar ali, debaixo do céu cinza e nos braços do garoto mineiro, para sempre.

Passados alguns dias, a garota paulista voltou para sua realidade praiana. Enquanto assistia à uma aula monótona, sobre o “direito das borboletas”, a garota ria sozinha. Um sorriso bobo estampava seu rosto, acompanhando seu pensamento, preso na tarde cinza do dia das mulheres. Aquele havia sido o primeiro beijo dos dois, e por motivos maiores, foi também um dos últimos.
Ela lembrava-se do dia quatorze daquele mês, quando a chuva não foi a única coisa que molhou seu rosto. Os corações bobinhos de ambos foram separados e eles teriam que viver com a lembrança dos momentos que vivenciaram juntos. Ele fazia isso enquanto olhava para o céu – que havia se tornado azul – de Belo Horizonte, e ela fazia enquanto caminhava sentindo o cheiro do mar – que ele tanto detestava – da praia de Santos.
E então a garota com nome melódico tentava se concentrar na aula que fazia lembrar Minas e olhos azuis. Seguia o conselho do bobinho e ouvia receitas em sua cabeça. Só que naquele momento, tudo… Tudo trazia a presença dele.

Mar
06

“I just know that she warms my heart
And knows where all my imperfections are
And she said that I was the brightest little firefly in her jar”

*Brightest – Beeshop

Rindo com suas amigas, Amelia prestava atenção no movimento do barzinho onde estava. Era um lugar lindo! Luzes coloridas tiravam a escuridão do ambiente e faziam com que todos ganhassem alegres tons de rosa-choque e verde-limão. Seu olhar vislumbra desde os que estão dançando, até os que acabaram de chegar. Ela pára o olhar em Sam por alguns minutos, sem que ele perceba. Havia algo nele que chamava sua atenção e talvez ela descobrisse o que era naquela noite.

Sam percebeu que uma menina estava olhando para ele. Era uma bonita menina. Tinha lisos cabelos castanhos que contrastavam com sua pele alva. Seus olhos eram vivos e sedutores, e sua boca era grande e atraente. Não deveria ser uma menina que chamava muito a atenção dos homens, principalmente com óculos de armação grossa escondendo seus olhos. Mas Sam achou-a um tanto quanto interessante. Isso era mau sinal… Garotas interessantes não davam bola para ele.

- Olá, tudo bem com você? - Amelia ouviu-se perguntando para o menino bonito que acabara de entrar no barzinho. Com a proximidade, Amelia pôde notar que ele tinha uma pinta em seu rosto… “Ficava bem nele”, ela concluiu.
- Oi… Tudo sim, eu acho. – Sam respondeu um pouco assustado com a abordagem. Mas estranhamente feliz.
- Bom, eu vi você entrar aqui sozinho… E você tá com uma cara triste. Se quiser sentar com minhas amigas a gente pode te fazer rir um pouco, que tal? - Amelia disse, enquanto pegava sua mão e o levava junto com ela.
- Acho que você não me deixou escolha. – respondeu rindo. – Mas qual o seu nome? 
- Ah, claro! Meu nome é Amelia, mas pode me chamar de Mia. É como todos me chamam. E, apesar de isso ser um tanto incomum, eu não sou tão louca quanto pareço. – Mia sorriu, deixando um pouco de sua vergonha aparecer.
- Ok, Mia. Meu nome é Sam, e eu acho que vou descobrir se você é louca ou não. - ele respondeu, seguindo a garota. Ele havia gostado do jeito dela. Parecia divertida, e decerto nunca havia feito aquilo em sua vida.

Passaram a noite conversando. As amigas de Amelia eram bem interessantes e Sam sentiu-se acolhido por elas. Mia era realmente muito divertida. Por diversas vezes ficou sem ar de tanto rir das besteiras que Sam dizia. A noite acabou e Mia mal podia esperar pelas próximas em companhia do palhaço Sam, que era como ela o chamava.

O dia seguinte chegou. Ambos acordaram tarde, como era de se esperar. Mia às 16h00, e Sam às 20h00. “Uau! Bem que ele disse que era um dorminhoco.”, ela lembrou-se da noite passada, enquanto o esperava ligar. Assim que acordou Sam ligou para ela e disse para ir até sua casa. Mia foi até lá.
- Olá, menina doidinha. – Sam recebeu-a sorrindo.
- Eu não sou doidinha, e olá, dorminhoco! – Mia deu-lhe um beijo no rosto e entrou em sua casa.

Estavam se conhecendo. Como todo início de relação havia muitos assuntos para se conversar. Eles falavam todo o tempo, sobre muitas coisas! Tinham uma sintonia maravilhosa e riam muito, em virtude das besteiras que ambos falavam. Sam sentia-se atraído por Mia, e achava que não seria tão ruim assim envolver-se com ela para tentar esquecer de sua ex. Mia estava gostando de como tudo estava acontecendo.

- Então quer dizer que eu sou dorminhoco? E ainda sou palhaço? Nem faz um dia que nos conhecemos e você já está me zoando? – Sam se fazia de vítima sorrindo.
- Sim, você quase hiberna! E é um palhaço sim. O palhaço pitoco… – Mia ria sem parar – Pitoquinho! – ela mostrou a língua pra ele, que sorriu.
- Se você mostrar a língua eu vou achar que você está dando em cima de mim. – Sam respondeu sério, sorrindo ironicamente.
- Pense como quiser, Sam. – Mia não pôde evitar dar risada, mais uma vez.

Eram dois bobos. Mas estavam se dando muito bem. Não se podia negar o clima envolvendo os dois naquela sala… Mas não podiam se precipitar.

- Eu vou pensar que você quer me beijar… – Sam dizia aproximando-se.

Em outra situação, em outro tempo, Amelia fugiria da abordagem e se arrependeria profundamente depois… Mas dessa vez ela não o fez. E então, Sam colocou a mão em sua cintura, olhou no fundo de seus olhos e suavemente tocou seus lábios. Mia correspondeu o beijo e sentiu sua face ficar quente. Ela estava um pouco ruborizada e, antes que se desvencilhasse de seus braços, disse sorrindo:

- Você não vai conseguir nada tão fácil assim, Sam. Sam arqueou a sobrancelha, rindo. Nunca ninguém havia feito isso com ele.
- Eu adoro desafios, Amelia.
- E eu os vencedores deles…
- Então você me adora, porque vou vencê-lo! – Sam sorriu.
- Eu espero que você vença, mas não será nada fácil… – Mia parecia tão segura de si. E, internamente, orgulhava-se disso.
- As coisas fáceis não têm graça. Sam terminou de dizer a última frase e piscou para Mia.

Ela bagunçou seus cabelos, como adorava fazer com ele, e jogou-se no sofá, comentando algo sobre um novo cd. Sam pensava que talvez ela o fizesse esquecer da ex… Amelia tinha algo de especial. Ele percebeu e estava disposto a experimentar isso que fazia dela diferente. Filmes, estudos (ele era mais novo que ela!), música e analogias idiotas entreteram os dois a tarde inteira.

Mia estava cada vez mais envolvida, mas não estava completamente apaixonada. Sam gostava de Mia. Ela o atraía cada vez mais e ele gostava do jogo de sedução onde estava inserido. Algumas semanas se passaram e eles nunca haviam se beijado decentemente. Até que Mia foi viajar. Passou o carnaval fora da cidade e deixou Sam aqui, mas mandava notícias todos os dias. Sam tornou-se mais caseiro por isso…
Quando Mia voltou esperava encontrar as coisas como elas eram anteriormente. Mas infelizmente não foi assim. Ela ligava para ele e ele dizia que estava ocupado, que assim que as coisas ficassem normais em sua casa ele falaria com ela. Ela o entendeu, mas morria de saudade dele todos os dias.
Sua insegurança começou a tomar conta dela e ela tinha medo que ele tivesse caído aos pés de sua ex novamente. Ela tinha muito medo disso. Outros garotos davam bola para ela, e ela tinha vontade de ficar com eles, mas seu Pitoco era a coisa que mais queria naquele momento.

Depois de alguns meses separados, Sam ligou para Amelia. Já passava da meia-noite e ela nem acreditou. Seu coração batia mais forte e ela mal conseguia falar com ele. Eram muitas coisas pra falar e a felicidade de falar com ele era tanta que ela nem sabia por onde começar… Porém, ele estava calado, seco… Triste.
Sam disse à Mia que ficaria afastado por uns tempos, mas que um dia voltaria à falar com ela normalmente, como faziam antes de ela ter ido viajar. Mia concordou, a contragosto. Afinal de contas, não havia nada que ela pudesse fazer.
Sam ainda gostava de sua ex, e mesmo que ele mesmo não falasse disso, Mia ficou sabendo por uma amiga em comum que eles tinham. Ela o entendeu e continuou vivendo sua vida. Ficou triste e desejou não tê-lo conhecido, mas sabia que isso era mentira.
Muitos garotos viviam atrás de Amelia, e ela até encantava-se com eles, mas pensava sempre em Sam.
Numa noite, antes de ir dormir, Mia olhou seu celular, como sempre.
Havia uma mensagem… De Sam! Seus olhos brilharam e ela ficou afoita, querendo saber o que ele dizia! Rezava para ser um sinal de sua volta, pois a saudade de Amelia crescia cada vez mais.
Na mensagem, Sam dizia que faltava pouco para ele voltar e que sentia muito a falta dela. Pedia para que ela não o esquecesse e dizia, pela primeira vez, que a amava.
No instante em que leu isso, ela sentiu-se bem. Sam tinha conquistado-a, antes mesmo que ela pudesse perceber. E ela soube, naquele instante, que o palhaço Pitoquinho era o único capaz de aquecer seu coração.