Cinza. Era assim que Belo Horizonte se encontrava naquela tarde do oitavo dia de março. As nuvens brancas tentavam sobressair por entre o céu que se tornava cada vez mais escuro. Havia carros passando pela avenida, pessoas caminhando rapidamente, olhando o céu e aguardando pela chuva que não viria naquele dia… E o sábado continuava cinza. Inseridos nesse cenário sóbrio estavam um garoto e uma garota, também cobertos pelo céu acinzentado. Eles estavam de pé numa rua e conversavam sem parar! Havia uma pequena distância entre eles… Distância essa que se tornava menor a cada movimento.
O garoto possuía grandes e escuros olhos azuis e um sorriso brilhante extremamente bonito. Era inevitável perceber seu sotaque mineiro e seu jeito acolhedor, escondido por um ego sempre inflado. O garoto das pintas no rosto sabia exatamente a hora de fazer rir e fazia isso à todo instante. Era criança de tudo, mas sabia conversar e conquistar uma garota. Pelo menos soube conquistar aquela garota paulista.
À sua frente estava uma tímida e avermelhada garota, que escondia suas mãos no bolso de trás da calça enquanto virava seus pés, calçados com um all star, para dentro. Ela tinha um ar esnobe, típico das pessoas do estado de São Paulo, que contrastava com seu jeito simples e carinhoso. Ambos riam da situação.
Qualquer pessoa poderia ver que gostavam um do outro. Era claro que aquele diálogo terminaria em um beijo, mas era delicioso apreciar o jogo de sedução que eles faziam um com o outro. Algumas pessoas assistiam a tudo, olhando disfarçadamente para aqueles dois que não ficavam em silêncio nunca. Era incrível como eles sempre tinham o que falar.
Falavam sobre coisas sem sentido. O garoto sempre fazendo a garota ficar vermelha e olhar para baixo, rindo-se da situação. Uma exímia utilizadora de indiretas, a garota arrancava olhares fixos e penetrantes do garoto… Sem que ela mesma conseguisse sustentá-los.
- Eu gosto da música “Vinte e Nove”, do Legião Urbana. A letra é legal e é o dia do meu aniversário – a garota comentava para depois rir.
- “Estou aprendendo a viver sem você” – o garoto cantava um trecho da música – Mentira! – ele sorria, olhando pra ela.
A cada momento ficava mais difícil manter a boca dos dois separada. Existia algo que os puxava para perto um do outro. E, pelo menos a garota, queria envolvê-lo para nunca mais soltar.
- Ah, minha bobinha! Não precisa ficar sem graça! – o menino dizia sorrindo, enquanto chegava mais perto dela.
Com as bochechas rosadas, a menina respondeu, olhando para ele:
- Por mais que eu queira, não consigo, meu bobinho. Gosto disso e não gosto disso. Entende?– ela desviou o olhar, passando os cabelos para trás de sua orelha.
O garoto analisou-a de perto e em silêncio. Sentou-se na rua com as pernas esticadas, parcialmente dobradas, e os cotovelos apoiados em seus joelhos. Lançou seu carente e azulado olhar para ela, pedindo, ainda que em silêncio, que ela explicasse o que havia dito. Ela sorriu e sentou-se ao lado dele, entendendo o que ele quis dizer.
- Entender sem não entender é uma arte milenar, sabia? – a garota sorria e olhava para ele. “Como ele podia ser tão perfeito?”, ela pensava.
- Ah, bobinha! Senta mais perto de mim, senta? – o garoto sorria enquanto batia a mão no chão, mostrando-lhe o lugar aonde ela deveria sentar.
Sem hesitação, a garota se viu atendendo ao pedido dele.
- Você fica com uma carinha de criança quando sorri, meu bobinho! – a garota apertava a bochecha do garoto, sorrindo.
- Cara de criança?! – ele disse, desconfiado. – Isso é bom? – ele mordeu de leve a mão dela, enquanto ela apertava a sua bochecha.
- É sim e ai! – ela ria enquanto exclamava a última palavra – Ficou a marca, olha só – ela mostrava sua mão que agora estampava um círculo vermelho feito por dentes. – Você não precisa arrancar pedaço de mim… Eu acho. – a garota ria sem parar.
- Deixa de fazer drama! Eu não quero arrancar pedaço, – o menino aproximava-se dela cada vez mais, pegando a sua mão e beijando-a no local da mordida – A menos que você queira que eu tire um pedaço de você…
O garoto respondeu com um sorriso no canto da boca, arrancando mais uma vez a brancura da pele da garota. Ele a encarava de perto e passava as mãos em seus cabelos, enquanto ela podia sentir a respiração dele em seu braço.
- E qual seria o pedaço que você arrancaria? – a garota olhou séria para ele, olhando no fundo de seus olhos azuis, perdendo-se por alguns instantes. Ela sorria ironicamente depois de dizer a frase, agarrando seus joelhos e sentindo o festival que as borboletas faziam em seu estômago.
Ele pensou alguns momentos antes de falar, apenas olhando para ela. O silêncio a deixava sem graça e ela olhava para ele, sorrindo.
– Eu não quero arrancar pedaço, bobinha. Quero fazer outra coisa. – ele se aproximava, olhando para os olhos e para a boca da garota.
Utilizando-se do pouco de coragem que existia dentro dela a garota aproximou-se mais dele, como se fosse ler seu olhar, e disse:
- Ah é? E por que não faz isso, meu bobinho? Conte-me! Eu estou curiosa. – a garota sorriu, dissipando o enrubescer de seu rosto.
O garoto sorriu seu sorriso mais largo e iluminou o rosto da garota. Colocou sua mão no rosto dela enquanto ela fazia o mesmo com ele, acariciando seu rosto com as costas da mão suave da garota. Ele fechou os olhos e encostou seus lábios nos dela. Um riso abafado e o toque do nariz de ambos precederam o beijo.
Suave, tranqüilo. Cheio de ansiedade e de vontade, tornava-se intenso. Ela se deixava levar pelos movimentos do garoto e ele sorria por entre o beijo. As borboletas paravam de voar no estômago da garota, que finalmente estava fazendo algo que tanto esperou para fazer.
- Eu estava tri louquinho para fazer isso, bobinha! Acho que você percebeu – ele sorriu para ela.
- Acho que percebi. – a garota ria vermelha e sem graça.
Passados alguns minutos os dois encaravam-se, felizes. O garoto levantou-se e estendeu a mão para a garota fazer o mesmo. Ele a abraçou, puxando-a pela cintura, mantendo seus corpos unidos. A garota paulista sorria enquanto deitava seu rosto no peito do garoto. Ela poderia ficar ali, debaixo do céu cinza e nos braços do garoto mineiro, para sempre.
Passados alguns dias, a garota paulista voltou para sua realidade praiana. Enquanto assistia à uma aula monótona, sobre o “direito das borboletas”, a garota ria sozinha. Um sorriso bobo estampava seu rosto, acompanhando seu pensamento, preso na tarde cinza do dia das mulheres. Aquele havia sido o primeiro beijo dos dois, e por motivos maiores, foi também um dos últimos.
Ela lembrava-se do dia quatorze daquele mês, quando a chuva não foi a única coisa que molhou seu rosto. Os corações bobinhos de ambos foram separados e eles teriam que viver com a lembrança dos momentos que vivenciaram juntos. Ele fazia isso enquanto olhava para o céu – que havia se tornado azul – de Belo Horizonte, e ela fazia enquanto caminhava sentindo o cheiro do mar – que ele tanto detestava – da praia de Santos.
E então a garota com nome melódico tentava se concentrar na aula que fazia lembrar Minas e olhos azuis. Seguia o conselho do bobinho e ouvia receitas em sua cabeça. Só que naquele momento, tudo… Tudo trazia a presença dele.